domingo, 5 de abril de 2020

Obviamente do contra

Este é o mundo em que nos lares se afixavam códigos de combate ao assédio sexual, mas se esqueceram os planos de contingência para o vírus. Um mundo de frases feitas.

Helena Matos


Isto é uma guerra – Não, não é. Poucas pessoas escrevem e proferem a palavra guerra com tanto à vontade quanto os civis, sobretudo aqueles que nunca cumpriram serviço militar. (Valham-nos os militares para colocar alguma temperança no uso da palavra guerra!) Por mais dramáticas que sejam as situações vividas nos hospitais italianos, ingleses e chineses, ou nos lares de idosos em Espanha e França, o que estamos a viver não é uma guerra. E é importante que o assumamos rapidamente porque se comparar a atual situação com uma guerra revela alguma infantilidade, acreditar que se sai dela como nas guerras é um erro trágico: ao contrário do que acontece nas guerras aqui não há um dia da libertação para celebrar mas sim muitos dias a tentar ganhar imunidade. E sobretudo não há vencedores sobre o vírus, mas sim habituação ao vírus. Não é épico, não dá grandes momentos de televisão, mas é indispensável.

Está sob controlo – Não, não estava. E como não estava acabamos fechados em casa e a viver sob estado de emergência pois os maiores adeptos das soluções radicais no momento atual são precisamente aqueles que antes subestimavam os avisos de perigo. Recuar às declarações dos responsáveis nacionais e europeus perante a ameaça do coronavírus é uma viagem à bolha em que se movimentam as elites: a 2 de Março, a Presidente da Comissão, Ursula von der Leyen recusava “a introdução de controlos fronteiriços, a interdição de viagens para determinados destinos ou o cancelamento de eventos — que, de acordo com os epidemiologistas, não têm qualquer eficácia em termos de contenção das infecções e segurança das populações.” (Deve existir algures um depósito de epidemiologistas a que os governos e as organizações vão buscar o “seu epidemiologista” segundo a sua conveniência do momento!).

Dias antes, a 24 de Fevereiro o comissário europeu para a Gestão de Crises, Janez Lenarcic, desdramatizava (o verbo desdramatizar é fundamental nesta versão do mundo em que o povo é alarmista e as elites tranquilas porque informadas): “O risco aqui é muito baixo”, desdramatizou o comissário europeu para a Gestão de Crises, Janez Lenarcic. “Mas o risco existe, e por isso estamos a preparar-nos para todos os cenários”.

Por esses dias a grande preocupação de António Guterres enquanto secretário-geral das Nações Unidas era que os cidadãos asiáticos pudessem vir a ser estigmatizados por causa da Covid-19. Em França, Espanha ou Portugal vamos encontrar declarações semelhantes. E isso não é coincidência, mas sim consequência de uma geração de governantes que em vez de enfrentar os problemas “desenvolve políticas” e que tem horror à realidade. Como o vírus não se submeteu ao pensamento mágico que adotam noutras áreas, nomeadamente na economia, acabamos ter de fechar os países porque perdemos a oportunidade de implementar programas de prevenção.

Estamos todos no mesmo barco – Não, não estamos. Não é necessário pensar no iate em que Roman Abramovich está a viver a sua quarentena lá para as bandas de Saint Barthélemy para concluir não só que as quarentenas não são todas iguais mas também que as medidas que parecem as melhores num local ou para um grupo podem não resultar com outros. Ou revelarem-se de uma enorme insensibilidade social. A paragem da economia e as ordens de confinamento puseram em evidência as enormes desigualdades entre quem tem acesso às novas tecnologias e quem não as domina. Ou entre países pois não há comparação possível entre fazer quarentena na Índia ou em Portugal.

Mas voltemos às metáforas marítimas. Da próxima vez que se sentirem as melhores pessoas do mundo ao proferirem a expressão “Estamos todos no mesmo barco” a propósito de coisas aparentemente solidárias e bondosas como os coronabonds não se esqueçam que não é por acaso que na Marinha a disciplina é um assunto muito sério: se estivéssemos todos no mesmo barco tínhamos de aceitar que o barco era dirigido só por um de nós, pois não há memória de ter chegado ao seu destino um barco em que cada um remava para seu lado. Por fim, que a navegação já vai longa até quando dentro do nosso barco chamado Portugal nos orientaremos por uma carta de marear que ensina que haja o que houver apenas os trabalhadores do sector privado são afetados pelas crises?

Os nossos idosos – Não, não são nossos nem de ninguém. À medida que o número de filhos caía e a esperança de vida aumentava, os velhos sofreram um processo de coletivização: passaram a ser os “nossos idosos”. Deixaram de ser o pai, a mãe, a tia, o avô… para integrar a tal massa dos “nossos idosos” tratados por cuidadores. Ou colocados em lares que tantas vezes os infantilizam (olhem por uma vez para os desfiles de Carnaval organizados pelos lares por esse país fora e depois venham falar-me de direito à privacidade e à imagem!).

Lares que pressurosamente correram a afixar a modernice dos códigos de conduta para o combate ao assédio sexual (nunca desprezem as vitrines que ornamentam a entrada dos mais diversos serviços deste país: há de tudo!) mas não tinham planos de contingência para funcionar numa epidemia mais que certa.

As mesmas sociedades que se arrebatam por causa do abandono de um cão leem com resignação as notícias sobre filhos que agridem pais. As imagens captadas clandestinamente em alguns lares onde se via velhos a serem maltratados nunca conseguiam mais que um número modesto de partilhas. Os “nossos idosos” tornaram-se um grupo de invisíveis que emergem desse limbo nos momentos-Instagram do dia de aniversário, Natal ou outra qualquer celebração. No dia a dia não existem.

Dessa invisibilidade é bem sintomática que as Orientações e Circulares Informativas produzidas pela DGS a propósito do Covid-19 só tenham abordado a questão dos planos de contingência a adotar nos lares a meio de Março, muito depois de o terem feito para as empresas e até para os hotéis apesar de muitos deles estarem semi-encerrados. O Covid-19 ao atirar os “nossos idosos” para os hospitais mostrou aquilo que tanto nos temos esforçado por não ver.

A Organização Mundial de Saúde declarou – Não, não declarou, calou. Ao longo de toda esta crise o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, tem mostrado maior preocupação em agradar à China do que em combater a epidemia, confirmando os receios de politização que a sua escolha para este cargo levantara em 2017.

A OMS não só deu como verdadeiras as informações que lhe foram transmitidas pela China sobre o que estava a acontecer em Wuhan como Tedros Adhanom Ghebreyesus agradeceu a Pequim a transparência com que tem lidado com o coronavírus.

A influência da China na OMS não começou com o seu atual diretor-geral, mas esta crise tornou-a mais evidente. Por exemplo, Taiwan conseguiu combater o vírus sem parar a economia nem enclausurar os seus cidadãos, mas a OMS não só não comenta as medidas adotadas em Taiwan como as ignora porque Taiwan não faz parte da OMS porque a China não o permite.

A crise do Covid-19 tornou-se também uma crise de credibilidade da OMS. Tedros Adhanom Ghebreyesus que enquanto ministro etíope da Saúde é acusado de ter subestimado as epidemias de cólera no seu país pode ter caído outra vez no erro de ouvir mais os políticos que os doentes.

Vai ficar tudo bem – Não, não vai…

PS. Não há como uma crise para nos obrigar a recuperar algum bom senso. Veja-se como os partidos que ainda há umas semanas se propunham restringir a experimentação para fins científicos em animais, agora estão caladinhos perante as notícias sobre os testes em ratos das vacinas contra a Covid-19.
Título e Texto: Helena Matos, Observador, 5-4-2020, 7h07

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