terça-feira, 19 de maio de 2020

Da “sofisticação” ao colo do socialismo

Rodrigo Constantino

A polarização exacerbada tem sido tóxica demais em nosso país, alimentada pelo petismo e a reação bolsonarista, e turbinada pelas redes sociais que fomentam o tribalismo. Diante disso, surge a demanda por mais diálogos, por construção de pontes, por alternativas moderadas. Tudo muito bem.

O grande problema é quando fingem que essa alternativa "moderada" inclui os radicais de esquerda. Pensemos num FHC da vida: sempre muito disposto a "conversar" com petistas, mas rejeita qualquer possibilidade de aproximação com qualquer defensor de Bolsonaro. Este seria a ameaça à democracia; o petismo não!

E assim vale para 97% da mídia, para 99% dos intelectuais e para 100% dos tucanos. Eles estão sempre muito dispostos a buscar entendimento com petistas, com o PSOL, qualquer um, menos bolsonaristas: esses representam o que há de pior na política nacional. Vejam o caso de Luciano Huck:

Foto: Sandra Blaser


Eis aí a esperança dos "moderados" e dos "radicais de centro"! É tanta "sofisticação" que acaba no colo do socialismo! Para quem ainda não entendeu, explico: nossos "liberais" e "conservadores" querem "moderação", e por isso estão dispostos a "dialogar" com todos, desde tucanos como FHC até socialistas como Freixo. Só não pode participar dessa "conversa" qualquer defensor do governo "fascista".

É essa postura, típica de "isentão" que na prática defende a esquerda, que tanto alimenta a base mais radical bolsonarista. Em parte o bolsonarismo é uma reação a essa hipocrisia, a esse duplo padrão, a essa postura ridícula de quem enxerga enorme perigo no atual governo, mas dormia tranquilo enquanto o PT tentava levar o Brasil rumo ao modelo chavista.

Os "radicais de centro", no afã de derrubar Bolsonaro, aliaram-se a essa turma, e agora alguns começam a perceber que talvez tenham ido longe demais. O ódio ao Bolsonaro é tão grande e patológico que acabaram abraçando a esquerda radical e nem se deram conta.

O problema com Felipe Neto, segundo eles, seria o de validar o petismo. "Se a luta para derrotar o Bolsonaro for a luta para reabilitar o PT, não conte comigo". Mas até o PCdoB e o PDT estariam, segundo essa turma, alterando a fórmula à esquerda, e portanto viáveis para uma conversa.

O problema para eles, como fica claro, não é a esquerda em si, nem mesmo a mais radical como o PDT; é só o PT! O petismo está eternamente indissociável da corrupção, e parece ser esse o único problema para nossos "liberais". Mas se for uma esquerda, ainda que radical, sem o petismo, então tudo bem...

O tal "diálogo", portanto, inclui até mesmo comunistas! Só não tragam Paulo Guedes, pois isso é inaceitável para os "liberais". E nessa mesma onda de derrubar o governo atual, custe o que custar, temos parte da imprensa também, como O Antagonista, que publica manchetes sensacionalistas em nível ainda pior do que seus donos quando vendem promessas "únicas" de enriquecer rápido na vida:


Enquanto o "diálogo" envolver essa turma radical e oportunista, com o que há de pior da esquerda à exceção do PT, mas deixando de fora qualquer um que não enxerga no governo a maior ameaça existente ao Brasil, o bolsonarismo vai não só sobreviver, como se fortalecer. Afinal, nenhum liberal que se preza aceitará esse joguinho podre entre socialistas e "moderados" que respeitam socialistas, mas rejeitam Paulo Guedes!
Título e Texto: Rodrigo Constantino, Gazeta do Povo, 19-5-2020, 13h12

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