O único estadista europeu que apoiou a ofensiva de Israel e dos EUA foi Zelensky. Porque, tal como Israel, não pode ignorar a guerra que a teocracia iraniana declarou contra o Ocidente
É tão fácil condenar e
criticar a ofensiva de Israel e dos EUA contra o Irão, ou duvidar do seu
resultado. Para condenar, lá está o curioso direito internacional, cujos
rigores só se aplicam a dois países no mundo (Israel e os EUA). Para criticar,
enumera-se tudo o que pode correr mal, como se tudo estivesse a correr bem
antes. Para duvidar, explica-se que o Irão nunca será a Suíça, como se só a
transformação do Irão numa Suíça pudesse justificar o esforço de o desarmar.
Valerá a pena perder tempo com
tais argumentos? São apenas buracos para as avestruzes meterem a cabeça. Nenhum
toca o problema fundamental: a razão de ser da teocracia iraniana é a guerra
apocalíptica contra o Ocidente. Por isso, tem promovido agressões terroristas,
ajudado Putin e trabalhado para adquirir armas que lhe permitam devastar
Israel. Para os seus líderes, tão fanáticos como corruptos, não há limites.
Viu-se em janeiro, quando massacraram dezenas de milhares de opositores. Vê-se
agora, quando procuram alargar a guerra bombardeando quase todos os seus
vizinhos.
Não foi o Ocidente que começou esta guerra. O que o Ocidente está a fazer é tentar pôr-lhe termo. Durante anos, esperou que sanções e diplomacia contivessem o Irão. Os mullahs contornaram as sanções, e tourearam a diplomacia. Com a Rússia e a China interessadas nos seus recursos e na sua agressividade, não estão sozinhos. O povo iraniano sofre as restrições económicas. Ao regime, porém, nunca faltaram armas e dinheiro para sustentar braços armados no Líbano, em Gaza, ou no Iémen.
Em junho passado, Israel e os
EUA atacaram as suas instalações nucleares. Os mullahs preparavam-se agora para
as recuperar. Contaram sempre, para se manterem impunes, com a aversão a riscos
e a divisão de opiniões no Ocidente. Não contaram, porém, com Donald Trump.
Trump fez duas coisas. Primeiro, concluiu que o risco de o Irão arranjar
mísseis com ogivas nucleares capazes de alcançar Jerusalém, Paris ou Nova
Iorque é maior do que todos os riscos de o tentar desarmar à força. Segundo, e
ao contrário do que é costume na política de hoje, decidiu não deixar o
problema para os seus sucessores resolverem.
Não por acaso, o único
estadista europeu que apoiou a ofensiva de Israel e dos EUA foi Zelensky.
Porque a Ucrânia depende, na sua guerra com a Rússia, do apoio americano?
Talvez, mas também porque o presidente ucraniano está há anos sob ataque do
Irão, grande fornecedor de armas a Putin. Zelensky não pode ignorar a guerra
que a ditadura clerical de Teerão declarou desde a sua origem contra o
Ocidente. Tal como Israel, a quem os ayatollahs prometem regularmente o
aniquilamento.
Os outros líderes europeus,
porém, acharam que podem fingir que esta é uma guerra que nada tem a ver com
eles. É uma ilusão patética, e não apenas porque a Europa estaria na mira dos
mísseis e drones iranianos logo que a pudessem alcançar. O “islamo-gauchisme”,
isto é, a aliança entre o jihadismo e o esquerdismo para voltar as comunidades
muçulmanas da Europa contra as democracias liberais tem na teocracia iraniana
uma das suas inspirações. O Daily Telegraph deu conta esta semana das
homenagens a Khamenei nas universidades britânicas. Uma teocracia triunfante
seria um estímulo para a violência jihadista, como foi o Estado Islâmico.
Ao arriscarem o confronto
direto com a ditadura iraniana, Israel e os EUA facilitaram a vida aos Pilatos
que, na Europa, lavam as mãos. Podem fazê-lo agora à vontade, confortados pela
ideia de que alguém está a lidar por eles com o perigo. Talvez até, em segredo,
rezem para que tudo corra bem.
Título e Texto: Rui Ramos, Observador, 6-3-2026, via Maria Viana Ruas, Facebook, 6-3-2026, 18h43

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