domingo, 1 de janeiro de 2017

A figura do ano

Alberto Gonçalves

O prof. Marcelo tem horror à impopularidade, por isso a natureza dele é o próprio vazio. Com apreciável rapidez, pulverizou o discutível prestígio do cargo

A figura do ano é, sem dúvida, a que Marcelo Rebelo de Sousa [foto] andou a fazer desde que tomou posse. Durante anos, o talento do professor Marcelo consistiu em convencer os portugueses de que era extremamente inteligente. Hoje, percebe-se que a inteligência é só a bastante para sobreviver de acordo com os próprios termos.


É sabido que a natureza tem horror ao vazio. O professor Marcelo tem horror à impopularidade, por isso a natureza dele é o próprio vazio. Com apreciável rapidez, pulverizou o discutível prestígio do cargo e transformou-o num meio de promoção pessoal que intimidaria o senhor Trump. O homem posa para selfies. O homem distribui beijinhos. O homem visita escolas, estádios, jornais, feiras, ditadores, rainhas e ginginhas. O homem pronuncia-se acerca do falecimento de cada habitante da Pátria. O homem condecora com fervor cada habitante ainda vivo. O homem está em toda a parte, e parte nenhuma está a salvo do homem.

Removido o frenesim, sobra nada, ou, para quem não tiver enlouquecido, a vontade de escorregar no sofá. O professor Marcelo é o Almirante Américo Thomaz com anfetaminas. Tem graça? Como o remoto antecessor, pouca – e sempre inadvertida. Mas convém não esquecer que, como o remoto antecessor, o professor Marcelo legitima um poder no mínimo daninho.

Os sucessivos elogios ao Governo são particularmente aterradores se tivermos em conta que, em apenas um ano, o governo limitou-se a sustentar clientelas, a obedecer (com curioso entusiamo) aos delírios da extrema-esquerda, a aumentar a dívida, a reduzir o crescimento e a empurrar o que restava do País para a sombra do Estado.

O professor Marcelo sabe que sem aderir à avassaldora propaganda do doutor Costa, os folclóricos embaraços que comete não passariam impunes nos media serviçais que, com escassas excepções, temos. Cavaco era regularmente fulminado por muito menos. No dia em que, por milagre ou descuido, o professor Marcelo emitisse umas verdades – ou uma verdade que fosse – sobre a desgraça para que nos encaminham, o Presidente dos “afectos” que tantos comentadores exaltam morreria subitamente. Entretanto, a afectuosa exaltação ajuda a esconder os derrotados pela mentira, e a convocar o bom povo para a União Nacional.

Se apreciarmos teorias da conspiração, não custa acreditar que Sampaio da Nóvoa foi uma invenção socialista para assustar as pessoas com um PREC fora de horas e convencê-las a votar no professor Marcelo. Porém, mesmo os cépticos não podem negar que, embora temperado pela “Europa” (enquanto houver) e pelo vício da mendicância (enquanto der), está em vigor o PREC possível. E que o professor Marcelo, enfant terrible erguido a símbolo máximo do “sistema”, é o seu avalista formal.

Um optimista consola-se com a ideia de que a História tratará de julgar tamanha farsa. O pessimista suspeita que, até lá, a farsa já tratou de nós, adormecidos pelas histórias que nos contam.
Título e Texto: Alberto Gonçalves, Sábado, nº 661, 28 de dezembro a 4 de janeiro de 2017
Digitação: JP

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