quarta-feira, 3 de maio de 2017

Bofetões podem colocar em risco a paz social

Vitor Cunha

Admito que pertenci ao grupo maioritário de portugueses que não votou em António Costa. Eu sei que fomos muitos, bem mais dos que votaram, porém, isso não nos qualifica para questionarmos os desígnios do Senhor Primeiro-Ministro nem para perturbarmos a sua ação governativa com questões. Mal era quando um PM nunca se enganava e raramente tinha dúvidas. Felizmente, temos um PM que não perde tempo a ouvir as dúvidas dos outros, quanto mais a ter, ocasionalmente e por obra do acaso, as suas próprias dúvidas. Más línguas poderão dizer que tal acontece pelo melhor, que o homem não saberia responder e muito menos comunicar qualquer ideia que, acidentalmente, lhe tocasse tangencialmente o cérebro dourado, mas eu não penso assim.

António Costa é um génio: um ser superior, dotado de inteligência fulminante de concêntricos relâmpagos com sapiência e brilhantismo que ofusca uma supernova. Um ano e meio de Geringonça foi suficiente para alcançar a paz social da patusca alegria pastoral do país. Um cão que morde de vez em quando, um ou outro incêndio, uma pessoa que ainda come bolas de Berlim e fuma cigarros (coitada), um ou outro adepto de clube acidentalmente assassinado, gente comida por ondas numa praia e zero idosos que morrem em ambulâncias, que, aliás, foram retiradas precisamente para que não ocorra tamanha catástrofe. De resto, paz total, apenas perturbada quando um bruto qualquer da grande finança internacional diz coisas feias de nós, os portugueses patuscos, e que, por mera fatiga radiante de Verão, passa pelo filtro implacável do jornalismo-Baldaia (para nem gerar o riso a meio da frase, opto por nem mencionar o jornalismo-chupa-chupa-que-o-amigo-paga daquela maluca que coadaptou todo o aspirante — e sobretudo inspirante — a vénia no Bairro Alto, a Madame-hiena que trouxe o Ballet Rose para o século XXI).

Conseguir tamanha façanha, a de transformar um país “asfixiado pela austeridade”, com gente a morrer em cada esquina, mães que comiam filhos e velhos que morriam sem eutanasiador oficial com seringa amiga, num país onde, queira a Europa — e quer, que eles querem é a felicidade de nós todos —, não há absolutamente nada que mereça a discussão, o protesto, a greve, a indignação, o istonãoseaguentismo, a dor poética de um texto onírico-azeites de um Porfírio e o romantismo pós-impressionista dos neocomunistas que digitam iPads, só pode ser obra de um grande, grande Homem. E/ou Mulher, para não ofender panegírico pan-género (vulgo pan-ascas).



Costa, meu amigo, só me resta uma dúvida que nem precisa, tal como as outras, de ser esclarecida: o doutor precisa mesmo de ter esses jornais todos? Não pode fundir isso tudo no Diário da Corte? Reserva espaço para as colunas dos cortesãos e pode manter uma redacção com um ou dois dos seus informados. Sempre se evitavam algumas bofetadas que ameaçam tolher a paz social tão duramente conquistada ao ultra neoliberalismo que mata.
Título e Texto: Vitor Cunha, Blasfémias, 3-5-2017

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