sábado, 15 de dezembro de 2018

Vivos, mortos e mortos-vivos

Paris, dezembro de 2018, foto: Reuters

João Pereira Coutinho

O “homem democrático” não desapareceu; ele ressurgiu em força e em fúria por todo o lado, reclamando, com razão ou sem ela, que os tecnocratas globais desçam do seu pedestal e passem a habitar o reles mundo da realidade

Tinha 12 anos quando entrei pela primeira vez no Museu Britânico. É experiência que não se esquece, apesar dos meus interesses, à época, serem bastante limitados: gostava de múmias e pouco mais. Ainda gosto, confesso, motivo por que me dedico à política doméstica. Mas divago.

Ou não divago. Agora, leio por aí que as gerações futuras podem não ter a mesma experiência cultural. Isto, claro, se vingar a nova filosofia do tempo, que pretende devolver aos países de origem todos os artefatos roubados pelo colonialismo.

Dizem os sábios que essa "mudança de paradigma" (peço desculpa) promete revolucionar os nossos museus. E, em certos casos, esvaziá-los. Mas como defender moralmente a pilhagem dos velhos senhores?

Deus me livre de o fazer! E desde já apresento as minhas desculpas pelo arrebatamento fascista com que contemplei o Egito dos faraós. Gostaria apenas de relembrar que a devolução em massa pode ter uma consequência perversa: condenar várias expressões culturais, que o conhecimento e a técnica do Ocidente conseguiram partilhar com o mundo inteiro, a uma nova fase de escuridão e periferia.

O que não deixaria de ser irónico: para respeitar a integridade de certas culturas e artes, a solução encontrada foi riscá-las do mapa.

ENTENDER O POPULISMO?
Não me canso de recomendar o livro de Roger Eatwell e Mathew Goodwin. Intitula-se National Populism: The Revolt Against Liberal Democracy e um capítulo em especial – o terceiro – merece uma referência.

Argumentam os autores, e argumentam bem, que o populismo da moda não começou com a crise financeira. Nem sequer com a crise dos refugiados em 2015. O fenômeno sempre acompanhou a própria democracia liberal; e esta sempre alimentou uma desconfiança instintiva (e para mim justificada) sobre o poder das massas.

Essa desconfiança, por razões compreensíveis, atingiu o auge com o fim da Segunda Guerra, o que levou os arquitetos liberais do pós-guerra a divisar um conjunto de instituições – globais, transnacionais, supranacionais – que pudessem discutir e decidir as questões políticas sem o ruído ignaro do “homem democrático”.

Fatalmente, o “homem democrático” não desapareceu: ele ressurgiu em força e em fúria por todo o lado, reclamando, com razão ou sem ela, que os tecnocratas globais desçam do seu pedestal e passem a habitar o reles mundo da realidade. E os tecnocratas? Desceram?

Sim, mas apenas em termos geográficos: foram a Marraquexe assinar um Pacto Global das Nações Unidas para as Migrações Seguras, Ordenadas e Regulares. Especialistas piedosos garantem que o “pacto” é um discurso de Miss Universo; e que os Estados, sempre soberanos, farão como entenderem.

Como é óbvio, ou talvez não, assinar um pacto sobre matéria tão radioativa, por mais inofensivo que ele seja (e não é!), devia passar sempre pelos povos (e pelos parlamentos dos povos) que os tecnocratas persistem em ignorar.

Quando será que eles aprendem? Quando a Europa inteira, e não apenas Paris, a ferro e fogo?
Título e Texto: João Pereira Coutinho, SÁBADO, nº763, de 13 a 19 de dezembro de 2018
Digitação: JP

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