sábado, 23 de maio de 2020

As vozes do dono

Todos os diários, semanários e estações de televisão são afinal da República, a República que os socialistas ocuparam perante a indiferença ou a conivência da boa parte da população.

Alberto Gonçalves


Sobre os subsídios do governo aos “media”, José Manuel Fernandes disse duas coisas de que discordo parcialmente. Uma é que, em matéria do controlo do jornalismo, o dr. Costa distingue-se do “eng.” Sócrates por agir pela calada, ao contrário do estardalhaço praticado pelo seu antecessor no PS. A outra é que não foram divulgados os critérios de atribuição das verbas. Vamos por partes.

Em primeiro lugar, não vejo grande diferença na sutileza de ambos os caciques. Vejo diferença na eficácia. Falo por mim, e não, por exemplo, por Manuela Moura Guedes. Atravessei os anos “socráticos” a escrever num jornal e numa revista (de grupos distintos), disse o que me apeteceu acerca da miséria moral do “animal feroz” e nunca, nunca, nunca, sofri o mais leve reparo dos meus diretores. Suspeito, e é apenas uma suspeita, de que os meus diretores sofriam reparos de certas instâncias, a que não ligavam.

Nesse período, eu até recebia convites ocasionais dos canais televisivos, que recusava porque raramente trabalho de borla. Certo é que 13 ou 14 meses após o dr. Costa tomar conta disto e iniciar o processo de venezuelização, em curso hoje acelerado, fui corrido de ambas as publicações, ignoro se por pressão externa, se por sabujice interna. Os diretores em causa, bastante mais amestrados, não eram evidentemente os mesmos, e sim serviçais que não caíram do céu. O “eng.” Sócrates berrava às vezes em vão; o dr. Costa, espécime similar, berra e é escutado.

Em segundo lugar, os critérios de atribuição dos subsídios são claros. Há oito dias, o indivíduo que preenche a secretaria de Estado do “audiovisual” ou lá o que é, declarou: “Não adianta estar a promover a leitura de jornais se não fizermos simultaneamente a promoção da literacia mediática, isto é, da capacidade de qualquer cidadão, seja de que idade for, poder descodificar, compreender e ler de maneira clara os sinais do seu tempo”. Vinda de quem vem, a conversa fiada é inequívoca: o governo iria patrocinar as televisões, as rádios, os jornais e as revistas que transmitem diligentemente a propaganda oficial. Sempre que alguém se acha no direito de estabelecer o padrão ideal de os demais “descodificarem, compreenderem e lerem”, está a falar, de maneira escancarada, de fiscalização, manipulação e censura. Os “sinais do tempo” não enganam.

Aliás, se restassem dúvidas em volta dos tais “critérios”, estas dissiparam-se com a transcrição detalhada, no Diário da República, das verbas e dos destinatários. A quase totalidade do dinheiro brindou as empresas que detêm a SIC, a TVI e a CMTV, além da dona do falecido DN. O resto, salvo as migalhas finais, espalha-se pelo “Público”, pela “Bola”, pela “Renascença”, e pela “Visão” e “Caras”. Ou seja-se, a expensas da “literacia mediática”, e de facto do contribuinte, paga-se entretenimento, arraial, futebol e sobretudo a gentileza que os canais e os títulos acima dispensam ao dr. Costa e respectiva tropa.

Recentemente, o diretor de informação da TVI justificou o cancelamento de um programa de investigação (“Ana Leal”) com a descoberta de que as audiências não querem críticas ao poder durante uma crise. No exato momento em que a apresentaram aos 1,691 milhões, a Cofina correu com André Ventura. Não vale a pena lembrar as hagiografias da anedótica senhora da DGS produzidas por JN e DN. Não vale a pena referir a orientação editorial da SIC, que na “informação” (sic literal) culpa Trump por cada desgraça da Terra e nas variedades lava governantes no programa daquela senhora que grita. Não vale a pena mencionar o “Público”, ponto. E não vale a pena exigir dois neurónios: um basta para constatar que os subsídios pagam a lealdade – a anterior e a que aí vem.

O governo pretendia atirar 19 mil euros ao Observador (a comparar com os 300 e tal mil do “Público” e da “Bola”, ou os 400 mil da “Visão”). Fez bem, já que passou a este jornal um atestado de independência. O Observador (e o Eco, com 18 mil) recusou. Fez bem, já que garante que a independência é para continuar. O governo subiu a esmola para 90 mil euros. Fez bem, já que passeou as deficiências contabilísticas e de carácter que moram por ali. O Observador voltou a recusar. Fez bem, já que provou que a decência não depende do montante.

Descontado o avanço ditatorial que simboliza, no fundo o episódio é positivo. Até agora, uma pessoa via cinco minutos de um noticiário ou abria um jornal (exercícios hipotéticos) e contorcia-se de vergonha ao contemplar tamanha bajulação do poder. De agora em diante, uma pessoa compreende que a bajulação não é impressão sua, fruto do acaso, favores fortuitos ou mera imbecilidade: é o resultado de financiamento direto, com valores discriminados e proporcionais às vénias que se cometem.

Está no Diário da República. Todos os diários, semanários e estações são afinal da República, a República que os socialistas ocuparam perante a indiferença ou a conivência da boa parte da população. A parte da população que sobra, e que quer aceder a jornalismo autêntico, por oposição a contorções subservientes a Costa, o Magnífico, sabe onde procurá-lo. Na verdade, já sabia. Mas agora é oficial.
Título e Texto: Alberto Gonçalves, Observador, 23-5-2020, 0h01

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