sábado, 23 de maio de 2020

Todo mundo de que não gosto é fascista

Ao tornar-se um agente político de influência, Felipe Neto tem todo o direito de falar o que bem entender. O bom jornalismo, no entanto, precisa ser responsável e confrontá-lo com a História


Ana Paula Henkel

Bruno Garschagen, consagrado cientista político e autor de dois best-sellers, Pare de Acreditar no Governo e Direitos Máximos, Deveres Mínimos, define o fascismo pela máxima de seu líder, Benito Mussolini (1883-1945), criador do movimento autoritário que deu origem ao Partido Nacional Fascista: “Tudo no Estado, nada fora do Estado e nada contra o Estado”. Garschagen, colunista aqui na Revista Oeste, explica que o fascismo, assim como o comunismo e o nazismo, também impôs um modelo autoritário e totalitário de partido único, tendo em seus pilares ideológicos o desprezo pela democracia e pela liberdade, devendo o Estado estender-se a todos os âmbitos da vida dos indivíduos.

Quando, em 1919, Benito Mussolini inaugurou o Fasci Italiani di Combattimento, o precursor de seu partido fascista, ele não estava inventando a ideia de autoritarismo violento, mas dando um nome a mais um terrível tentáculo dos movimentos tirânicos da História. Sob sua liderança, esquadrões de militantes atacavam, espancavam e matavam outros italianos e, mais tarde, depois de se tornar o governante autoritário da Itália, ele se aliou a Hitler e à perseguição da população judaica local, entre outros crimes.

Nesta semana, o criador de vídeos para crianças e adolescentes Felipe Neto, hoje ferrenho opositor do atual governo, foi o entrevistado de um programa que já foi referência jornalística no passado. Até aí, tudo normal, gosto não se discute. Com enorme influência nas redes sociais, o rapaz tem, como qualquer outro cidadão, o direito de expressar opinião sobre suas escolhas políticas. O problema, no entanto, está quando um influenciador digital, com milhões de seguidores em suas plataformas, obviamente inteligente e capacitado em sua área de atuação, resolve opinar sobre temas sérios e verbaliza, por exemplo, que todos os que apoiam o atual governo são fascistas. Perplexos, assistimos, sem nenhum questionamento por parte da bancada de jornalistas que o entrevistou, a 58 milhões de brasileiros serem chamados de fascistas em rede nacional — repito, sem nenhuma indagação por parte dos profissionais da imprensa presentes.

Felipe Neto também repetiu uma das falácias mais adoradas pela esquerda, a de que a meritocracia é uma ficção liberal.

Foi um mantra marxista reiterado também sem nenhum contra-argumento pelos entrevistadores. Quando o youtuber foi convidado a comentar o espectro político a que pertenceria, o novo ídolo da esquerda e de militantes travestidos de jornalistas explicou que ele se posiciona “entre Ciro Gomes e Amoêdo”. Ou seja, Felipe Neto, o novo representante da intelectualidade política que não gosta de Jair Bolsonaro e de seu governo, gosta mesmo é da mão pesada do intervencionismo estatal e do Estado conduzindo todas as manifestações econômicas, mas também do liberalismo econômico com um Estado mínimo, enxuto e com políticas de mercado aberto. Creio que, se pudéssemos comparar a declaração da posição do rapaz no espectro político a uma posição geográfica no mapa, ele estaria tipo entre o Alasca e a Patagônia. E, se rir, você é um fascista.

Todo e qualquer governo, sem exceção, precisa de nossa vigília constante. Fato. E não é porque a atual administração se aproxima mais do liberalismo econômico com a brilhante equipe de Paulo Guedes que devemos ignorar suas falhas e erros de rota em qualquer pasta. No entanto, fechar os olhos para boa parte do atual jornalismo que insiste em um terceiro turno para as eleições de 2018 é fechar os olhos para o próprio sistema democrático que Felipe Neto e suas cheerleaders da imprensa tanto insistem em dizer que está sendo atacado.

A crítica aqui, e isso deve fazer parte de nossa vigilância, não é apenas ao rapaz que ganha milhões de reais imitando bichinhos e quer falar bobagens sobre política.

Ele tem esse direito. Convém destacar, todavia, os absurdos ditos e a vulgarização da história que deveriam ser questionados por qualquer jornalista com um mínimo de honestidade. O rapaz, voz da razão quando o assunto é videogame, é agora também uma variável política porque repete o sofisma preferido dos inimigos do atual governo de que o atual presidente e seus eleitores são fascistas. Isso é grave.

Além de usar insultos históricos com sua rasa ideologia, Felipe Neto, sagaz para monetizar com um público jovem, é mais uma peça na criação do tipo de histeria que leva a um clima de resistência violenta. A chamada “intolerância do bem”. A doentia comparação com o fascismo funciona em dois sentidos: eleva os oponentes políticos a criminosos homicidas que merecem punição extrema — e, de quebra, pode pavimentar o caminho para “justas” quebras institucionais antidemocráticas; afinal, “precisamos tirar o fascista do poder” — enquanto reduz monstros históricos reais a pouco mais do que pequenos fanáticos partidários.

Os agentes da política torpe e irresponsável que usam exatamente incautos como Felipe Neto, alguém que apenas aprendeu a repetir as platitudes da demonização de seus opositores nesse jogo, não querem democracia. Desejam apenas enfraquecer o potencial de seus oponentes. A relação com a política para essa gente é mera apreciação do poder. Nada mais.

Atestar que oponentes políticos e seus apoiadores são fascistas não é retórica nova.

Felipe Neto é bem grandinho e deveria saber que aqueles que abusam da ausência de senso de proporção, ou do desprezo histórico pelas palavras, desprezam também as reais vítimas dos verdadeiros fascistas. Precisamos ter coragem para quebrar a espiral do silêncio e apontar as consequências desse jornalismo doente, que amplifica invencionices vis, colabora com a infantilização da sociedade e estimula discursos vazios e nocivos. E mais: solidifica os danos do uso irresponsável das palavras.

Diante desses novos agentes políticos que serão alçados a bastiões da intelectualidade moderna pela esquerda, fica mais evidente que o espectro político-ideológico a que pertencem não está interessado na real democracia ou nas justas críticas. Suas teorias não param de pé e não deram certo em lugar algum do mundo, e a relação que desenvolvem com essas influentes figuras é apenas de poder e exploração. Os que, por oposição ou birra política, aplaudem declarações como as de Felipe Neto apenas nos mostram o total afastamento da realidade, inacessível para quem, numa abstração mental, não oferece nada no campo das ideias e se agarra apenas ao ataque ad hominem.

O que assusta não é apenas um jovem e inexperiente rapaz falar bobagens sem pensar nos distúrbios que elas possam gerar, mas constatar o silêncio por parte da imprensa.

O programa que já recebeu ex-presidentes, chefes de Estado, embaixadores, pensadores e juristas consagrados não questionou a banalização da história nem declarações sem fundamento.

A liberdade, palavra sagrada no pilar da fundação da Revista Oeste, é vital também na comunicação e no direito de nos expressarmos. No jornalismo, no entanto, ela precisa estar atrelada à verdade. Por aqui, na Oeste, tenho certeza de que seguiremos o brilhante pensador contemporâneo Thomas Sowell, um norte na honestidade intelectual. Sowell diz: “Jornalistas não podem servir a dois mestres. Se assumem a tarefa de suprimir informações ou morder a língua em nome de alguma agenda política, estão traindo a confiança do público e corrompendo a própria profissão”.

Não questionar o uso do termo “fascista” ou “nazista” para designar qualquer um que não reze cinco vezes ao dia ajoelhado em direção a uma foto de Lula ou Ciro Gomes, nem seja contra o atual governo, é criminalizar todos aqueles que ajudaram a construir os valores de liberdade da civilização ocidental. Liberdade, inclusive, para falar bobagens.
Título e Texto: Ana Paula Henkel, revista Oeste, 22-5-2020, 10h41

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