Uma nova entrevista coletiva desastrada; para o governo, os que protestam são um grande nada! A saída de Dilma é a porta de saída
Reinaldo Azevedo
O ministro da Comunicação Social, Edinho Silva, ladeado pelos líderes do governo na Câmara e no Congresso, José Guimarães (PT-CE) e o senador José Pimentel, ambos do PT do Ceará, concederam uma entrevista coletiva nesta segunda sobre as manifestações de protesto deste domingo. Não tem jeito, não, gente! Eles são arrogantes demais para aprender com a realidade, mesmo quando estão, como agora, na pindaíba.
“[Os esquerdistas] têm a ambição de conhecer o futuro da história e o futuro da humanidade. E delegam necessariamente a partidos e a entes de razão a tarefa de conduzir a luta e a revolução. Quando são obrigados a se confrontar com homens reais, com mulheres reais, com famílias reais, com aquelas pessoas que sustentam a máquina do estado — incluindo a sua (dos esquerdistas) boa vida —, então eles se revoltam e pespegam nos verdadeiros pilares da sociedade a pecha de “reacionários”, de ‘coxinhas’, de ‘golpistas’.”
Avenida Atlântica, Copacabana, foto: Rodrigo Gorosito/G1 |
Avenida Atlântica, Copacabana, foto: Rodrigo Gorosito/G1 |
Brasilia, foto: Cristiano Maris/Veja.com |
Lisboa, Praça Luiz de Camões |
Afirmei ainda mais,
referindo-me aos esquerdistas:
“Esses teóricos da desgraça só aceitam como legítimos movimentos que consideram “disruptivos”, que provocam fratura e trauma na sociedade. A suposição de que reformas possam tornar o mundo melhor e de que se possa avançar também conservando valores é dolorosa para a sua pequena inteligência.”
Pois é… A entrevista concedida
pela trinca me dá razão. Oh, sim, eles disseram respeitar os protestos, que são
coisa da democracia e tal. À diferença dos petistas que estavam reunidos no
Instituto Lula neste domingo, procuraram não minimizar o evento. Foi o
combinado com Dilma em reunião prévia. Mas… Bem, o PT segue sendo o PT. Não é
um partido socialista em sentido clássico, é evidente — a não ser pela
socialização, entre eles, dos bens que são da população —, mas segue sendo
autoritário.
Depois de atribuir as
dificuldades a uma suposta crise internacional e a se negar a reconhecer erros,
o ministro decidiu criticar o pessimismo, sempre reconhecendo, não me diga!, a
importância das manifestações, mas deixou escapar esta pérola:
“O governo se preocupa,
neste momento, muito mais com a construção de uma agenda para o país, de
diálogo com o Congresso, com a sociedade, o empresariado e os movimentos
sociais”.
Entenderam? Os mais de 600 mil
que foram às ruas no domingo, números das PMs dos Estados, são “não pessoas”.
Na categorização de Edinho Silva, não são o Congresso, não são empresariado,
não são movimentos sociais, não são a sociedade. Os pagadores de impostos, que
ocuparam pacificamente o país inteiro, sem um único incidente, estão fora do
radar oficial. Não são nada!
Mesmo dizendo que respeita as
manifestações — e ouso dizer que o ministro não está falando a verdade, ele
procurou desqualificá-las, com a sua conversinha de cerca-Lourenço, buscando
associá-las a grupos que pedem intervenção militar: “Parte dos movimentos
assumiu uma conotação ideológica muito forte. Às vezes, fica até difícil a
presidente conversar com as ruas, porque não tem uma pauta”. Bem, a pauta
existe: é a saída de Dilma e o cumprimento da lei. Quanto à questão da
intervenção militar, dizer o quê? Os que defendem essa proposta são uma minoria
inexpressiva, irrelevante, sem importância no movimento de rua. Grave, isto
sim, foi Vagner Freitas, companheiro de Edinho, ter pregado luta armada dentro
do Palácio do Planalto.
Então ficamos assim, segundo o
governo:
a: a crise por que passa o país veio de fora;
b: os milhares que foram às ruas são excrescências que não interessam ao poder de turno;
c: a pauta das ruas está ligada ao golpe.
Calma! Não acabou. Indagaram a
Edinho se o governo pensava em pedir desculpas. Sabem o que ele respondeu?
Isto:
“Eu penso que, se trabalhar para a manutenção dos empregos no Brasil, trabalhar pela renda da população, principalmente a mais marginalizada historicamente desse país, se trabalhar pela manutenção de programas sociais é um equívoco, então que se constate o equívoco”.
“Eu penso que, se trabalhar para a manutenção dos empregos no Brasil, trabalhar pela renda da população, principalmente a mais marginalizada historicamente desse país, se trabalhar pela manutenção de programas sociais é um equívoco, então que se constate o equívoco”.
Viram?
Para Edinho Silva, na prática, os mais de 600 mil que foram às ruas estavam se manifestando contra a elevação de renda, contra o apoio aos marginalizados e contra os programas sociais.
Para Edinho Silva, na prática, os mais de 600 mil que foram às ruas estavam se manifestando contra a elevação de renda, contra o apoio aos marginalizados e contra os programas sociais.
Voltemos, então, ao ponto
daquele texto desta manhã. Como é que se pode dialogar com alguém que tem a
certeza de que o adversário é necessariamente movido a má-fé? Ou se está com
eles, ou se está contra o povo. Ocorre que o governo, em nome do qual fala
Edinho Silva, é aprovado hoje por apenas 7% dos brasileiros. Nada menos de dois
terços da população querem o impeachment de Dilma. Ninguém representa o povo à
força, não é mesmo?
A fala de Edinho, no entanto,
revela uma das razões do desespero do PT. O partido nunca teve de lidar com a
sociedade civil do outro lado, com o povo do outro lado. A sua experiência
histórica é herdeira do bolchevismo — um bolchevismo de fancaria, mas é… Os
petistas só reconhecem quadros partidários; só reconhecem militantes; só
reconhecem companheiros. Só reconhecem os tais movimentos sociais.
Ora, peguem esse tal Guilherme
Boulos, esse megacoxinha mimado pelas tias que acha que coxinhas são os outros.
Ele apoia e ataca o governo na medida exata do interesse do seu movimento. O
MTST vai ter algum benefício? Ele puxa o saco de Dilma. Não vai ter o que
espera? Ele ataca. É a fisiologia de esquerda. Ele não é diferente de um
deputado que vende o seu apoio em troca de uma emenda.
O povo que estava na rua neste
domingo é gente autônoma. Não depende do governo pra nada — este, na verdade,
só o atrapalha com a sua incompetência e com a roubalheira que acaba, direta ou
indiretamente, patrocinando. Os que protestaram neste domingo não querem nada
de Dilma, não esperam nada de Dilma, não se ajoelham para Dilma.
São indivíduos LIVRES. E o PT
não reconhece o valor supremo da liberdade.
Precisamente por isso, Dilma
não tem saída a não ser a porta de saída.
Texto: Reinaldo Azevedo, veja, 17-8-2015
Texto: Reinaldo Azevedo, veja, 17-8-2015
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