Aparecido
Raimundo de Souza
LARISSA JASPELETA BULBOA, a mulher do doutor Godoy Bulboa, advogado criminalista da pesada, embora estoica e amável, por algum motivo desconhecido, se consolidara extremamente curiosa, a ponto da sua bisbilhotice, em derredor do alheio, se tornar insidiosamente paradigmática demais. Em razão disto, possuía, a bela, um estranho e ilimitado desejo em descobrir algo novo, onde o novo, não tinha nada de interessante em si e, por esta razão, não fazia muita diferença e, claro, além de não acrescentar nenhum sentido prático à sua vida de doméstica, boa esposa e, sobretudo, mãe prestimosa, não levava o seu destrambelhamento à lugar nenhum.
As suas teceduras exageradas, a bem da verdade, ultrapassavam as castidades de berço. Se alastravam para além dos parâmetros do ponderável. Neste chute mal dado em sacos alheios, tudo o que a encantadora morena de trinta e oito anos encontrava pela frente, queria saber de onde viera e qual o real motivo de se fazer presente. Por caminhos disparatados, seguiam, pois, seus instintos bestiais, objetivando desvendar os ocultos que ninguém dispensava uma atenção mais minuciosa ou detalhada. Dava a impressão que seus gestos obesos e esfomeados, trocavam sinais codificados e silentes, por mais insignificantes que fossem às situações germinadas aos acasos dos comezinhos anômalos e triviais.
Chovesse canivete ou fizesse sol ela, Larissa Jaspeleta Bulboa, não desistia da empreitada. Se a curiosidade baixava, carecia trazer a coisa (fosse o que fosse) à tona, até desvendá-la inteiramente, arrancando as suas raízes das mais profundas sombras. O doutor Godoy Bulboa, pê da vida, reclamava e, com assistida razão, os seus queixumes aos amigos mais chegados, companheiros do dia a dia, neles incluindo os promotores, os juízes, os oficiais de justiça, a galera dos cartórios e até às funcionárias engraçadinhas e risonhas que serviam cafezinhos e lanches na cantina do fórum, mocinhas vestidas em uniformes à rigores de um vermelhidão chamativo e cruelmente estrambótico.
— Abelha — falava ele aquela tarde de sexta-feira ao juiz da vara de execuções penais, num restaurante da Avenida Paulista, diante de duas taças de vinho que contemplavam, a ambos, em erupções amenas. — Ontem, a Larissa me perguntou por que a Freguesia do Ó, aqui em São Paulo, é conhecida como Freguesia do Ó e não Freguesia do Zero. Passei a ela um calhamaço de informações que encontrei na Internet, porém, a infeliz cismou com o ‘o’. O que queria dizer, na verdade, o ‘o’?
— E o que você disse à ela?
— Que o ‘o’ viera oriundo do ‘ó do borogodó’.
— Neste ponto, meu caro Bulboa, com todo respeito, tenho que concordar com a sua consorte. Ao invés de você explicar, ou simplificar, complicou. A ponto, perceba, de me deixar, também, boquiaberto e abestalhado. O que venha ser, trocado em miúdos, este borogodó? Ou o ‘ó’, advindo, mais especificamente, deste atrativo pessoal que considero irresistível?
— Até você, Abelha? Faça-me o favor... Me poupe...