sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

[Aparecido rasga o verbo] Casuais e escaganifobéticas

Aparecido Raimundo de Souza

LARISSA JASPELETA BULBO
A, a mulher do doutor Godoy Bulboa, advogado criminalista da pesada, embora estoica e amável, por algum motivo desconhecido, se consolidara extremamente curiosa, a ponto da sua bisbilhotice, em derredor do alheio, se tornar insidiosamente paradigmática demais. Em razão disto, possuía, a bela, um estranho e ilimitado desejo em descobrir algo novo, onde o novo, não tinha nada de interessante em si e, por esta razão, não fazia muita diferença e, claro, além de não acrescentar nenhum sentido prático à sua vida de doméstica, boa esposa e, sobretudo, mãe prestimosa, não levava o seu destrambelhamento à lugar nenhum.

As suas teceduras exageradas, a bem da verdade, ultrapassavam as castidades de berço. Se alastravam para além dos parâmetros do ponderável. Neste chute mal dado em sacos alheios, tudo o que a encantadora morena de trinta e oito anos encontrava pela frente, queria saber de onde viera e qual o real motivo de se fazer presente. Por caminhos disparatados, seguiam, pois, seus instintos bestiais, objetivando desvendar os ocultos que ninguém dispensava uma atenção mais minuciosa ou detalhada. Dava a impressão que seus gestos obesos e esfomeados, trocavam sinais codificados e silentes, por mais insignificantes que fossem às situações germinadas aos acasos dos comezinhos anômalos e triviais.

Chovesse canivete ou fizesse sol ela, Larissa Jaspeleta Bulboa, não desistia da empreitada. Se a curiosidade baixava, carecia trazer a coisa (fosse o que fosse) à tona, até desvendá-la inteiramente, arrancando as suas raízes das mais profundas sombras. O doutor Godoy Bulboa, pê da vida, reclamava e, com assistida razão, os seus queixumes aos amigos mais chegados, companheiros do dia a dia, neles incluindo os promotores, os juízes, os oficiais de justiça, a galera dos cartórios e até às funcionárias engraçadinhas e risonhas que serviam cafezinhos e lanches na cantina do fórum, mocinhas vestidas em uniformes à rigores de um vermelhidão chamativo e cruelmente estrambótico.

— Abelha — falava ele aquela tarde de sexta-feira ao juiz da vara de execuções penais, num restaurante da Avenida Paulista, diante de duas taças de vinho que contemplavam, a ambos, em erupções amenas. — Ontem, a Larissa me perguntou por que a Freguesia do Ó, aqui em São Paulo, é conhecida como Freguesia do Ó e não Freguesia do Zero. Passei a ela um calhamaço de informações que encontrei na Internet, porém, a infeliz cismou com o ‘o’. O que queria dizer, na verdade, o ‘o’?

— E o que você disse à ela?
— Que o ‘o’ viera oriundo do ‘ó do borogodó’.
— Neste ponto, meu caro Bulboa, com todo respeito, tenho que concordar com a sua consorte. Ao invés de você explicar, ou simplificar, complicou. A ponto, perceba, de me deixar, também, boquiaberto e abestalhado. O que venha ser, trocado em miúdos, este borogodó? Ou o ‘ó’, advindo, mais especificamente, deste atrativo pessoal que considero irresistível?
— Até você, Abelha? Faça-me o favor... Me poupe...

Risos:
— Tente levar na maciota. Invente qualquer coisa...
— Se fosse de vez em quando, Abelha, até que eu deixava passar batido. Porém, é todo santo dia. Às vezes tenho vontade de mandar a filha das unhas às favas:
— Cá entre nós: tem vontade ou já mandou?
— Na verdade, você tem razão. Eu mandei. Com todas as letras...
— E ela?
— Queria saber de onde foi que tirei às tais favas. E por que, exatamente às favas? Não poderia ser (me chamou a atenção com a cara amarrada) para um outro palavreado que ela considerasse mais propício?

— Bulboa, as mulheres são assim mesmo. A minha não foge muito das loucuras da sua:
— Como assim, não foge?
— Seguinte, Bulboa. Apesar destes incômodos todos, pense no seguinte. Raciocine. Por mais chatas e inoportunas que nossas caras metades sejam, sem elas, ao nosso lado, não conseguiríamos viver. Nós precisamos delas. Necessitamos, de seus préstimos, de seus carinhos e afagos. Melhor a fazer, meu caro, é levar na esportiva, na flauta e tirar por menos... Dói menos:
— Você está me dizendo, salvo melhor juízo, que a sua patroa também é curiosa?

— Extremamente. Você nem imagina quanto, Bulboa! Outro dia fomos almoçar no Oba Oba ali na Praça João Mendes, perto da estação e quando saíamos, e resolvemos dar um giro na Praça da Sé, ela viu um homem conversando com uma égua na escadaria do Metrô. Pra você ter uma ideia, ela cismou de saber o motivo do sujeito, em pleno centro histórico de São Paulo, aquela hora do dia, estar batendo um papo acirrado com uma égua. Imagine, uma égua... Ficou tão curiosa, tão antenada, que acabou me pedindo para ir até os calcanhares do cidadão e questionar o que ele, tão acaloradamente tagarelava com o animal.

— Fala sério, Abelha...!
— E não parou aí, meu nobre amigo: me fez prometer que eu indagaria, igualmente da égua, o que ela havia respondido.
— Meu Deus, Abelha. E você, por acaso se prestou a este mico?
— Bulboa, eu tinha outra saída?
— Naturalmente que não. E ai: o que o maluco respondeu?
— Primeiramente me apresentou à cavala. Ou melhor, me fez estender a mão à cavalgadura.

Mais risos:
— Queria estar lá pra filmar a cena. E então?
— Me vi no mato sem cachorro. Diante do inevitável, eu me transformei num perfeito Mané. Virei, de repente, um idiota e apatetado. Entrei na pilha. Educadamente, cordialmente, estendi a mão para a Rosa Weber. E quer saber? Ria, se lhe aprouver. Nos finalmente, depositei um beijo na mão... Digo na pata da xucra. E o público circundante, que assistia, caiu na mais sonora gargalhada.

Godoy Bulboa coçou a cabeça. Estava sem palavras:
— Calma ai, meu camarada. Vamos por partes. Deixa eu digerir a coisa. Rosa Weber... Você disse Rosa Weber, Abelha? Afinal, você cumprimentou a égua... Ou a Rosa Weber?! Não entendi. Seja mais objetivo:
— Bulboa... Se liga... A Rosa Weber... A Rosa Weber era o nome da potranca... Quero dizer, da égua, ou da mula. Neste particular, pelo amor de Deus, escolha o nome que melhor lhe der na telha.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, 26-2-2021

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