domingo, 21 de fevereiro de 2021

[As danações de Carina] Ponto cego

Carina Bratt

Havia um sol de olhos azuis que me espiava lá do alto. Ele me aquecia todas as manhãs, me alimentava a temperatura térmica do corpo, de uma maneira muito intensa e aconchegante, como se quisesse transformar o relógio da minha existência, em segundos e, os minutos, por sua vez, em horas e horas de prolongadas felicidades plenas e imorredouras. E conseguia...

Esse sol imenso como lâmina afiada cortando a mata, me mostrava, no obscuro, o desvio para se chegar à cachoeira. O barulho ensurdecedor das águas se despencando de uma nascente distante, se fazia próximo, muito próximo. Eu sentia no rosto, na pele, o amor incondicional do Criador, ao tempo em que as batidas do meu coração, de forma tresloucada, ultrapassavam as raias do impossível.

O Altíssimo me seguia silencioso pelos campos imensos e verdejantes, à medida que eu acelerava os passos. Me embalava, me acariciava os sonhos, me abraçava em cada novo caminho que se descortinava à minha frente. Com ele, aprendi a andar libertada. A levar a minha alma para bem longe, onde tristeza alguma pudesse me alcançar.

Eu era feliz, completamente realizada, dona de mim, dos meus desejos mais 'doidivanos', porque esse sol nunca me deixava, nunca ficava longe, tampouco me permitia ir em frente sem a sua presença marcante. Havia, também, umas nuvens da cor do leite, cantando em coros e eu imaginava que fossem para mim.

Então eu me ansiava. Apertava, pressurosa, os passos pelo trilhar escolhido, a cabeça erguida e confiante, voava solta, avançava como se asas tivesse, subia ao infinito sem medo, progredia 'desreceosa’, porque sabia que aquele sol, lá em cima, de olhos azuis, me contemplava com um sorriso encantador.

Apesar da pouca idade (mal chegada aos quinze), sentia como se o mundo que se descortinava a cada movimento que eu fazia, reverenciasse a minha decisão e me empurrasse para novas conquistas de um porvir melhor, cada vez mais intocável e sagrado.  O sagrado, nessa hora, se duplicava. Fazia maior os meus madrigais.

Os meus lisonjeiros poéticos sempre foram majestosos, augustos e inusitados. Em derredor, solidários, ventos e pássaros, pássaros e ventos pairavam solícitos e prestativos num companheirismo indescritível. Euzinha, menina e indefesa criança, habilitada do agora que se emparelhava comigo, me fazia sentir aqui dentro do peito que o amor se remontava.

Se retocava e se aquilatava, cada vez mais forte e indestrutível. Na verdade, meu mundinho de mocinha não totalmente desabrochada, se resumia num amontoado de quimeras auspiciosamente alvissareiras e promissoras. Minha visão de tudo, abraçada ao gosto das coisas, sobretudo atrelada ao gosto do agora, indubitavelmente anunciavam boas novas.

Nesse tempo, eu não entendia que o Amar não excluía a solidão degradante. Apenas se fazia ocioso, pacato, sem causar prejuízos. Hoje, mulher feita, no adulto e do alto da sã consciência que me esmaga, que me definha, compreendo perfeitamente e entendo, sem sombras de dúvidas, que o Amar... O Amar é um sujeito de obstinações obscuras.

E mais ainda: o Amar é louco das ideias, é pirado e insano. Quando menos se espera, ele se transforma num irreparável e indivisível fardo. O tempo passou. Passou, inexorável. Se fez distância. Deitada, agora, na relva seca, em outro jardim, sigo calada, atônita, espiando longamente para o céu sem nuvens.

Todavia, apesar dos pesares, ainda tendo a alucinação de ver e de sentir os olhos azuis do sol. Me sinto como uma abandonada. E como tal, quero saber, a qualquer custo: de que lado ficou escondido o meu amanhã? Durmo. Suspiro, descanso. Havia um sol de olhos azuis que me espiava lá do alto... O Altíssimo me seguia silencioso...

Apesar da pouca idade... De que lado ficou escondido o meu amanhã? Enquanto me aquieto, 're-a-pren-do' a velha e batida lição da abelha. Lição, aliás, que serve para a nossa vida inteira. E que lição é esta?! Afável, adocicado e delicioso é o mel. Entretanto, incredível e doloroso, o seu ferrão.

Título e Texto: Carina Bratt, de Petrópolis, Região Serrana do RJ, 21-2-2021

Anteriores: 
Maria, carnaval e cinzas 
Negativos revelados com imagens diferentes 
Qual a nossa concepção de liberdade? 
O violento silêncio de um novo recomeço 
Quando os cartões de crédito nos deixam na rua da amargura 
O eterno dilema de ter que esperar 

3 comentários:


  1. MB!
    Que mulher rara!
    Ou seria, que ser humano sensível!
    Difícil não gostar... Impossível, não admitir!

    ResponderExcluir
  2. Gosto da criatividade desta jovem secretária, ha mais de dez anos trabalhando comigo. Seus textos me fazem pensar... Me fazem refletir. E viajar. Reparem que coisa linda: "Havia um sol de olhos azuis"; "o relógio da minha existência";"Habilitada do agora"... E mais: que coisa imaginosa "O Amar é um sujeito de obstinações obscuras...". Quando eu iria imaginar um sol de olhos azuis. Nem sabia que o sol tinha olhos. E que eram azuis. O relógio da minha existência. Meu Deus! Tenho que concordar. E me curvar ante a sua criatividade ímpar. Esta jovem vai longe. Carina, que Papai do céu lhe proteja sempre. Seu fã.
    Aparecido R. de Souza, da Lagoa Rodrigo de Freitas, Rio de Janeiro.

    ResponderExcluir
  3. Amigo Paizote, que saudade!
    Obrigada pela paciência de ler meu texto e deixar a maviosidade da sua presença.
    Carina
    Ca
    Lagoa Rodrigo de Freitas RJ

    ResponderExcluir

Não aceitamos/não publicamos comentários anônimos.

Se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.

Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-