domingo, 28 de fevereiro de 2021

[As danações de Carina] Tudo passa

Carina Bratt

‘Quando eu morrer, não chorem a minha morte
Porque ninguém a chorará por certo
O mundo para mim é um deserto
E o sofrimento me ensinou ser forte...’

De repente, a gente vai embora, se despede num adeus às carreiras e as pessoas que estão ao nosso redor, fingem descaradamente que sentem, se fecham num mutismo sem precedentes, se trancam numa amargura mascarada, fazem carinhas de tristezas, se descabelam e o morto, coitado, olhando para toda aquela ‘armação’ reboliçosa, suspira num desabafo silencioso e inconformado: ‘Bando de hipócritas. Não estão nem aí para o meu falecimento’.

"Mira que bonita era", por Julio Romero de Torres, 1895 - Museu Reina Sofía
É a mais pura verdade. Num velório, pode se contar, nos dedos, quem realmente se importa ou se importaria com o seu bater de botas. Hipoteticamente, se fosse eu a defunta a sair do mundo dos vivos, a minha mãe estaria acabada, vencida, atordoada e literalmente inconsolável. Derramaria lágrimas sentidas por saber que não me teria mais a seu lado.

Se papai estivesse vivo, não ficaria indiferente e se debulharia em prantos. Por ser eu, ‘a menina dos olhos dele’, por me amar de forma além do normal, ficaria como se costuma dizer por aí, ‘ao deus dará’. Mas papai já se foi deixando por aqui uma grande saudade.

Outro que estaria inconformado. O Aparecido. Tantos anos trabalhando juntos, colado um no outro, feito carrapato, pulga em cachorro, meia em sapato... O meu patrão estaria desolado, fora do chão, pensando como, euzinha, pude fazer ‘uma coisa assim tão marcante’ para ele. E seria, de fato, marcante.

Tirando, portanto, a mamãe, o papai, e o Aparecido, o resto seria o resto. Minhas tias, por exemplo, se reuniriam num canto bem longe do esquife, para colocarem as fofocas em dia. De vez em quando, fingindo o carecimento do banheiro, desfilariam pra lá e pra cá, com os novos visuais que compraram na C&A e na Riachuelo.

Voltariam, logo em seguida, com as caras lavadas e ririam, baixinho (fazendo sinais de silêncio com os dedos nos lábios), para não chamarem a atenção dos demais consternados. Os tios, do outro lado, tagarelariam sobre os últimos lances dos jogos de futebol e deixariam de se mimosearem e de se estranharem, por torcerem ferrenhamente por times de camisas opostas.

Os primos e as primas estariam ou jogando ou falando em seus celulares, enquanto os respectivos namorados e namoradas, amigos e amigas, se ateriam ou se arrimariam em conversas triviais por conta de novas aquisições de pranchas para o campeonato de surf que seria levado a efeito no próximo final de semana.

Talvez, o único que ficasse num canto, amuado, deslocado, envergonhado, sem dúvida alguma, o Moisés, porque aos dezoito, caíra na besteira de se apaixonar por um rapaz mais velho que ele cinco anos e a consanguinidade, em peso, ter odiado esta ideia. Por conta, sequer alguém em sã consciência se lembraria de dirigir a palavra a ele.

A vida, caras amigas, é assim. Passageira como um avião que cortou o céu voando em direção à algum lugar. Ligeira como um trem que chegou na estação, passou os cinco dedos em alguns poucos gatos pingados e seguiu viagem. A vida é vazia como o coração das pessoas, mesmo os mais próximos de nós. A vida é, ainda, muito breve, inconveniente como um piscar de olhos, rápida demais, como o vento, triste e enfadonha, como velar um corpo inerte prestes a ser enterrado para comer capim pela raiz.

Se fosse eu, a morta, se fosse eu, ali, deitada, feito um cadáver sem vida, kikikiki, juro que estaria meditando de dentro do ataúde, apesar das rosas brancas fazendo cócegas em meu nariz e, pior, a epiderme dos pés à cabeça suando em bicas pela falta do ar-condicionado da capela não estar funcionando direito.

Estaria, igualmente, meditando em como os seres humanos perdem um tempo enorme avivando o alheio, rendendo glórias ao banalismo, gastando o melhor que poderia ser o melhor de suas vidas, se prendendo a picuinhas, a coisas banais e fúteis... Bem a calhar, estes versos de Aparecido, publicado em 25 de novembro de 1978, quando a sua vida sorria na casa dos vinte e cinco anos... Faria minhas, as palavras dele:

‘Pelos que amei, fui mal ‘compreendida’,
semeei afeto e colhi ingratidão,
lágrimas amargas guardei no coração,
só encontrei desilusões na vida.

A morte chega e a comédia termina
Depois das lágrimas vem o esquecimento
Da vida que durou como um momento
E que cumpriu a malfadada sina

No palco da vida, representamos cenas:
luz que se apaga e a ilusão se encerra.
Não levo mágoas e nem deixo penas
Do tempo que passei aqui na Terra...’.

Se eu fosse a sem vida, dentro do caixão... Não levaria mágoas, nem deixaria penas do tempo que passei... Agradeceria ao Pai Eterno, pelo tempo que passei aqui na Terra.

Título e Texto: Carina Bratt, da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, 28-2-2021

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2 comentários:

  1. Adoro Ernest Hemingway, ele escrevia aos amigos e no final sempre mandava a mensagem:
    - il faut d'abord durer
    Quando morremos não deixamos nada para trás, apenas fomos o último a sair esquecendo de apagar a luz.

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  2. Tenho, em minha coleção, todos os livros de Ernest Hemingway. Recentemente consegui num sebo, aqui no Rio, ou mais precisamente em Copacabana, perto da Ladeira dos Tabajaras, as 'Cartas de Ernest Hemingway', em dois volumes, da escritora Sandra Spanier.
    Carina Bratt
    Ca
    Da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro.

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