sábado, 20 de fevereiro de 2021

A miséria das mentes binárias

Mim progressista, tu conservador, ou vice-versa, como se diria na diplomacia do Tarzan

Guilherme Fiuza

A falsidade da dicotomia direita x esquerda ou conservadores x progressistas ou congêneres não é só perda de tempo. Ela hoje atrapalha bastante a vida real. Por isso não é um capricho repudiar a mania geral de enfiar tudo nesses rótulos toscos. Eles estão servindo para alimentar autoritarismos e corrupção intelectual.

Na época do Plano Real essa neurose era mais branda — até porque o Muro de Berlim tinha caído apenas cinco anos antes e, com o fim da Guerra Fria, o mundo achava que estava livre também das mentes binárias. Pobre mundo. Mal sabia ele quanto a humanidade ama mentes binárias. As patrulhas da época — que eram brincadeira de criança perto das atuais — resolveram dizer que o Plano Real era de direita, neoliberal etc.

O problema foi que o Real melhorou todos os indicadores sociais, elevou a renda dos mais pobres. Problemão. Aí virou o quê? Um plano de esquerda? Progressista? A solidariedade não é, segundo as mentes binárias, monopólio ou pelo menos bandeira desse suposto segmento ideológico? Ainda por cima veio a privatização da telefonia — também rotulada como uma medida neoliberal, de direita etc. — e ampliou os ganhos para a população em geral, especialmente a de baixa renda. E agora?

Não mudou nada. Os hipócritas continuaram chamando aquilo de “privataria” e o Real de estelionato eleitoral, porque o truque você já entendeu qual é: manter-se numa trincheira imaginária para poder praguejar contra os “poderosos” em favor do “povo” ou coisa que o valha. Desmascarar hipócritas é “conservadorismo”? Com todo o respeito aos fanáticos por esse álbum de figurinhas, por que isso não poderia ser chamado de “desmascarar hipócritas”?

Porque aí você tira todo mundo das trincheiras imaginárias — inclusive as do outro lado. Nesse caso jamais poderia surgir um paraquedista como Wilson Witzel (o governador do RJ afastado pelo Covidão) se apresentando como um representante da direita contra a esquerdalha. Indumentária ideológica distingue picaretas? Não. Só protege.

A praga politicamente correta — moralismo cosmético que não ajuda ninguém — virou um ativo mercadológico. O que está acontecendo por exemplo com as grandes plataformas de rede social — que foram e continuam sendo uma inegável revolução democrática — é típico desse supermercado de virtudes. Não tem nada a ver com ideologia. Aliás, as formas de vida e de comportamento nas sociedades nunca estiveram tão parecidas e até harmonizadas — em parte devido às aproximações propiciadas pelas próprias tecnologias de comunicação. O mundo foi se conectando e resolveu brincar de segregar.

Mim progressista, tu conservador, ou vice-versa, como se diria na diplomacia do Tarzan.

O governo Trump, por exemplo, foi benéfico para todas as minorias, sem exceção — tanto em termos econômicos quanto de liberdade —, e isso precisa ser omitido para não estragar a caricatura do vilão reacionário, que alimenta os libertários de proveta. O banimento de Trump de redes sociais foi um troféu “pacifista”. Mas a violência de grupos que fazem demagogia racial é tolerada pelos que dizem combater a onda de ódio. E o que protege essa hipocrisia? O rótulo.

Mim progressista, portanto, mim pacifista, empático etc. E o sujeito que só quer trabalhar e levar a vida sem parasitas no seu cangote cai na armadilha e reage: mim conservador do bem, tu progressista do mal etc.

Rasguem essa fantasia. As coisas mais importantes e urgentes que a humanidade precisa fazer hoje não dependem dessa dicotomia tola. Rompam o pacto de hipocrisia das mentes binárias. Elas conseguiram transformar a ideia de “salvar vidas” em vídeo game retórico. Precisa mais o quê?

Título e Texto: Guilherme Fiuza, revista Oeste, nº 48, 19-2-2021

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