terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

[Aparecido rasga o verbo] Presença

Aparecido Raimundo de Souza

As pessoas não morrem, ficam encantadas”.

NÃO SEI POR QUAL MOTIVO, assim sem mais nem menos, me veio, à memória, esta frase do celebre autor de ‘Sagarana’, o saudoso Guimarães Rosa. Talvez tenha sido pelo fato de estar sendo comemorado hoje, o aniversário do falecimento de Martinha Maciel, minha avó querida que partiu faz tempo, do meio de nós. Lembrando dela, de repente, senti no peito da recordação adormecida, o despertar incontido de uma saudade imensa.

Um sentimento melancólico e nostálgico, do tempo em que, menino de calças curtas, fazia assaltos às casas circunvizinhas, com quintais ricamente cultivados. Nessas ocasiões, roubava mangas, chupava cana, comia jabuticabas, soltava papagaios feitos de jornais velhos, tocava a campainha nas portas alheias e fugia correndo para não ser apanhado em flagrante delito.

Aos domingos, pela manhã, trabalhava de freteiro, na feira da travessa da agência do correio, carregando as sacolas das madames que faziam compras, salvava uns trocadinhos para um caldo de cana com pastel na lanchonete do japonês, colado na pracinha da estação de trem e, depois, ia tomar banho no rio e andar de carrinho de rolimã. Pela tarde, corria livre com a molecada da periferia, em busca de novas emoções para acabar de passar as horas do dia que parecia ser maior que o infinito do céu que nos contemplava lá do alto.

Gastar a infância de sonhos e de mil e um devaneios e encantamentos nos deixava eufóricos. Quanta saudade! Saudade daquele sentimento nostálgico, dos idos em que jogava bola nas ruas cobertas de lama e depois tomava um banho de mangueira, no tanque pra ficar de butuca na Lucinha, a filha de dona Godóia (da mesma idade que eu), namorando a pequena lindeza de longe, escudado pelas árvores copadas, algumas delas velhas e feias, outras corroídas pelos anos que vinham se curvar, exauridas, nos troncos desgastados pelo cruel dos anos.

E aquela boa velhinha, minha avó, cujo colar de sofrimentos, nesta vida tão esmagadoramente envolvente, não lhe tolhia o direito de sorrir aquele sorriso franco, enfeitando as maçãs salientes do rosto. Ralhava comigo quando me surpreendia espionando a menina e me botava pra dentro de casa com umas palmadas nas pernas, que sequer chegavam a deixar marcas. Vovó Martinha Maciel tinha um sorriso largo e aberto. Seu cartão de visitas. Para mim, se constituía na candura viva em forma de flor se abrindo botão.

Vovó Martinha sempre foi uma mulher diferente das outras. Não bonita, nem feia, nem gorda, nem magra, nem loira, nem morena. Simplesmente era, e isto, realmente, se constituía naquela magia que contava e importava. Ela procurava enxergar sempre além das aparências, buscando a essência das pequenas coisas nos mínimos detalhes. Gostava de sondar as pessoas. Penetrar de mansinho, no âmago dos corações. Nesse mergulho, extraia deles a compreensão, o carinho e reinventava a sua felicidade.

Daí surgia a razão clara e concisa para explicar a sua verdadeira realização interior como ser vivente. Talvez fosse por essa razão que eu a amava demais e tão fortemente. Talvez fosse por essa razão, igualmente, que eu nutria nas fibras do meu 'eu interior', um amor forte, um amor muito grande e profundamente verdadeiro. No fundo, ela representava a minha vida. Dava um colorido especial aos meus dias de criança sem pai. Diria até, sem medo de errar, que nutria, por ela, um amor maternal.

Em verdade, ela não fazia parte da minha família. Todavia, significava mais que aquela avó emprestada, ou avó de criação. De sua parte, por não ter meu sangue em suas veias, não carecia maiores obrigações para comigo. Não iam, seus deveres, além de uma estranha em casa. Contudo, a sua meiguice, em relação a mim, criava asas enormes e ela voava alto e, nesse voo, se abria em carinhos e mesuras, o que para mim, se consubstanciava numa fortaleza grandessíssima demais.

As atenções, o carinho na hora certa, as palavras de conforto no momento exato. O perdão pelas coisas mal feitas que eu aprontava. A compreensão, sobretudo as palavras certas e precisas, quando tudo se via tomado pelo torpor do ódio, ou pela grandiosidade da tristeza sem par. Também, lado igual, pela densidade febril da agonia que, a cada dia, parecia aumentar de forma degringolada. Tudo isso e muito mais, eu encontrava naquela criatura frágil e meiga - , no fundo -, minha vovó emprestada, sem dúvida alguma, uma santa.

Hoje tantos anos passados, afastado de seu caminho pela frigidez árida da morte incomplacente e austera, me pego pensando nela... Martinha Maciel foi tudo o que existiu de bom no mundo. No meu mundo, principalmente. Dentro de mim, havia, para ela, um cantinho bem escondidinho. Ficava bem aqui, no oculto do meu peito. Este lugarzinho, ainda hoje, conservo como relíquia viva de sua presença distante.

Para vovó, a devoção não se apagava. Brilhava como uma luz sempre acesa na escuridão das sendas tortuosas e desertas. Com essa criatura, aprendi a descobrir a verdadeira Fé interior. A necessidade imutável de acreditar e aceitar um Ser Superior, divinizado, chamado Deus. Para ela, o tempo não existia, se fazia etéreo numa transcendência espiritual movida pelas mãos do Onipotente. Dessa forma, ao fechar os olhos para esta vida, vovó Martinha deixou um punhado imensurável de relíquias e afetividades que logo em seguida se tornaram eternas e imperecíveis.

Pequenos atos e gestos que perdurarão enquanto vida eu tiver. Viverão em mim, pulsantes e febris, não só no meu recôndito, mas em todos aqueles que conviveram com ela e aprenderam a amá-la na acepção verdadeira da palavra. Guimarães Rosa, tinha por demais razão: 'As pessoas não morrem, ficam encantadas'. Certamente de onde se encontra agora, vovó Martinha deve estar encantada em algum lugar qualquer do espaço ou, quem sabe, aqui perto de mim, agora, enquanto escrevo este pequeno texto falando da minha enorme lacuna que a saudade da sua ausência deixou.

Vovó, certamente, se acha por aqui, ao meu lado, ou lá fora, em algum desvão do jardim, ou, quem sabe, ajudando a colorir de esperança e Fé, os caminhos de outros tantos entes queridos que também a amavam e a respeitavam. Do fundo da minha imaginação, penso, neste momento, ela está por aqui, eu a sinto próxima, aconselhando a alguém carente e falando do amor incondicional do Altíssimo. O mesmo que a levou para junto de si e a presenteou com um reino bonito onde nunca morrerá a tranquilidade.

Fico imaginando, em devaneios, com meus botões, como deve ser lindo esse Édem florido onde ela vive agora. O vergel, cujas flores não perdem a cor natural da vida, e a beleza do Criador se faz cada vez mais imorredoura e maviosa. E não lhe enfenecem o brilho e o fulgor, tampouco a luminância, porque sempre estarão sendo regadas por uma plêiade de anjos de branco, com as águas puras e límpidas retiradas da cachoeira sagrada. Vovó Martinha, a senhora não imagina como daria tudo para estar aí, ao seu lado, de mãos dadas. Poder voltar a dormir em seu colo. Ouvir, de novo, as histórias das fadas, dos príncipes e anões dourados. Sentir, enfim, a sua presença...

Aquela presença pujante e robusta, que tanta falta está fazendo na minha vida agora, neste momento. Seria tão diferente, se a senhora pudesse estar aqui!... É pena que este encanto não se desfaça. Tenho convicção, se tal ocorresse, a senhora sairia de onde está e viria correndo. De braços abertos... O coração em festa. Os olhos em regozijo. E, num grande abraço... Num apertado abraço, me estreitaria, me beijaria os cabelos, e me faria novamente ser feliz e realizado.

Sabe de uma coisa, vovó? Descobri que por onde a senhora passa, a sua voz declama a poesia que fará mais bonito o meu despertar de amanhã. Lembra quando, na minha inocência eu falava que a senhora se parecia com uma lagarta? Fingindo ficar braba, a senhora me perguntava: ‘seu pirralho, logo com uma lagarta? Não tinha um troço mais bonito? E por que uma lagarta?!’. Naquela época, eu não sabia explicar o real motivo. Hoje sei: Breve, a senhora terá outra vida se renovando nas asas coloridas de uma borboleta.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, da Avenida Paulista, Centro de São Paulo, Capital, 92-2021

Colunas anteriores: 
Distorções de um cotidiano diário 
Acuado 
O fescenino do caráter ruim 
Invenção de espanto 
A vara de vimeiro 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Não aceitamos/não publicamos comentários anônimos.

Se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.

Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-