sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

[Aparecido rasga o verbo] A vara de vimeiro

Aparecido Raimundo de Souza

DESCOBRI, RECENTEMENTE, que não é meu rosto que vejo refletido no espelho do meu banheiro, quando paro para me contemplar, envaidecido, depois que saio do banho. Na verdade, é o meu lado negro, que aflora do além, dizendo coisas que odeio ouvir. O mais imbecil dos cavalos, é exatamente aquele que não aprendeu a dar coices. Só relincha e abana o rabo para espantar as moscas. Sou um pedaço do ontem, que esqueceu de nascer para o amanhã e ficou agarrado no anteontem. E agora? Bem, agora aprendi a desafiar o ventiladorzinho escondido no traseiro do meu computador, como se ele fosse um dom Quixote dos tempos modernos.

Meus sonhos não seguem as ideias normais, porém, atormentam os sentidos que trafegam em oposto daquilo que mais almejo alcançar. Igual um moinho de vento girando ao contrário, eu também rodopio ao sabor do vento. Talvez seja por isto que, para se quebrar um prato inquebrantável, seja preciso, primeiro joga-lo para o alto, e depois, com certo jeitinho, esperar que o chão duro faça o papel do martelo nas mãos do eletricista. E por que do eletricista? Só Deus sabe!...

Pelo sim, pelo não, quem muito fala gasta mais palavras que o sujeito que não diz absolutamente nada. Nem todo mudo é aquele que não tem língua. Às vezes, o sujeito que não tem, usa mais palavras (sem palavras), que os 'linguados linguarudos' que nasceram com o órgão do paladar em perfeita condições de uso. Entretanto, permanecer mudo e estático, é igualmente, atestar a própria burrice com diploma assinado por dois sujeitos que não sabem nada de francês. Graças ao Papai do Céu, não sou como as outras pessoas: pela manhã, ao acordar, não me acho horrível, deprimente, abatido, sorumbático ou com a cara amassada. Saio sempre da cama por volta de duas da tarde. Dai estar constantemente de bom humor e de braços dados com a vida. A última vez que tentei ir ao banheiro, o vaso sanitário saiu correndo, desesperado, tropeçando pelos móveis dentro de casa.

Uma loucura! Mamãe largou o papai e papai largou a empregada. Quem veio me dar a bênção foi o seu Chico, da farmácia. Velho desgraçado! Dizem que enriqueceu vendendo medicamentos para provocar abortos em adolescentes desajuizadas. Pois é, meu amor: ao pensar em nós dois, senti falta da Caroline, que formava a trinca de ases e, consequentemente, mantinha vivo o eterno triângulo amoroso que parecia indestrutível. Pelo menos para os olhos dos fofoqueiros de plantão. Por conta disto e, escudado nas proezas e malabarismos da carne fresca e fraca, acabei usando tanto as duas criaturas que acabei com o círculo vicioso e o que existia de bom dentro dele. A nossa história acabou virando um polígono de três lados, todavia, com eles totalmente desgastados. Conclusão: todos os envolvidos ficaram, no final, desgostosos com Sancho Pança.

O fato é que movido por uma loucura momentânea, mordi a cachorra da minha vizinha. Acabei sendo levado às pressas para o veterinário junto com o animal. Estava com o saco cheio de pulgas. Faltava aprender a latir, para perder, de vez, as feições humanas, mas isto significava apenas um detalhe meramente insignificante. Tão insignificante que deixou de ser um detalhe. O pior dos males é exatamente o ‘males sem o afogueamento do pior’. Descobri que aquilo que não deixa a minha vida virar rotina, é que uma hora sou criança inocente, noutra, estou com os tambores traseiros cheios de gases. E o que se faz quando se está com gases? Acertou na mosca, quem pensou em assoprar bolinhas de festas de aniversário. Questiono sempre quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha? Uma voz interior vem em socorro me dizendo, alto e em bom som, que foi o galo. Mas como, o galo?

Assim: o galo chegou, deu uma cantada na pobre da franguinha, quando a dita cochilava com o bico engasgado no pau sujo do galinheiro. Parece esquisito. Pior que é esquisito! Se foi realmente desta forma que as coisas aconteceram, só o Criador sabe ao certo. De qualquer forma, não vale a pena tocar neste assunto. Diz um velho ditado que ‘a merda, tanto fede a bosta, que alguém acaba optando por dar a descarga, puxando, com toda força, as pregas do nariz’. Bumbum não tem olfato, em compensação, possui um monte de transístores no vão do respiradouro central E, pelo que se sabe, estas maravilhas da eletrônica colocadas no respiradouro central são bem apuradas, tendo em vista em se tratar de um simples fiofó pertencente ao amigo de Lula e do miSInistro  Alexongadre de Morrais, Xixi Jinpinga (como bem disse ao mundo, a doutora Li-Não Entendi Manga Yan), vindo, claro, tal fiofó, da pacata e linda cidade de Wuhan, na Vachina.

Pelo andar da carruagem, acabei caindo de quatro pela Pandora de Moraes, a minha psicanalista, filha mais nova de Freud. Um mulherão, diga-se de passagem, nos moldes e nos contornos da garota da propaganda da Motoclick. Há os que a comparam (pelo ar glacial), com a Regiane Alves, não na vida real, mas na pele do folhetim repetitivo da Globo, pela milésima vez (a Regina, na crista da personagem Dóris, em Mulheres Apaixonadas). Este acontecimento não tem importância agora. O fato é que depois da quinta vez em que estive em seu consultório, Pandora passou a analisar a lista das minhas loucuras e descobriu que não havia nada a ser descoberto, ou analisado. Soube, ontem, pelo porteiro (onde ela mantém a sua sala de análises e consultas), que simplesmente a doutora Pandora de Moraes vendeu o divã e, com o dinheiro da tal peça, comprou um lindo e engraçadinho Totó. O nome dele é Narigudo. Pelo amor de Deus, nada a ver com o respirador mal-acabado do Luciano Huck.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Divinópolis, nas Minas Gerais,22-1-2021

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