sábado, 16 de janeiro de 2021

[Aparecido rasga o verbo] Vassouras atrás da porta

Aparecido Raimundo de Souza

PARA VISITAS INDESEJÁVEIS
, nada melhor que uma vassoura em pé, atrás da porta. Seja de pelo, nylon ou piaçava. Não importa. Segundo a tradição dos antigos, a visita não esquentará sofá. Parece que um fogo invisível queima as entranhas mais profundas do fiofó, calcina de tal forma, que a criatura, não se aguentando, enquanto não levantar acampamento e soprar a poeira do assento, não se aquietará. 

Assim foi com a Vivibela que bateu na porta de dona Brancolina, na hora em que a velhota se sentara para ver o Jornal Nacional. Ao ouvir a campainha, acorreu atender. Fez cara de indignação profunda quando espiou pelo olho mágico e vislumbrou a vizinha do 203 com a fuça de sofredora mal amada: — Devo ter jogado pedras na cruz de Cristo. 

A contra gosto, abriu:
— Boa noite, dona Branca. Posso entrar um instantinho? 
— Que se há de se fazer? 
Vivibela cruzou, apressada, o umbral da porta, deu um beijo em cada lado do rosto da anciã e, antes mesmo de ser oficialmente convidada, atravessou a enorme sala e se sentou no sofá defronte a Smart TV Oled 65 UHD 4K LG. 

Esta tela cinematográfica, a boa velhinha havia ganhado da filha, fazia menos de quinze dias: 
— A senhora incomoda se eu assistir a novela? 
— O Jornal Nacional está quase no fim... 
— Mas é que estou acompanhando a trama por um privado que achei na Netflix por pura sorte. Se a senhora não se importar de trocar de canal... 

Antes de dona Brancolina dar o contra, Vivibela apoderou-se do controle e mudou para onde desejava: 
— Hoje a Mariza vai ser salva de morrer assassinada... 
— Seu marido não está? 
— Na sexta-feira o Eduardo chega mais tarde. Vai com os amigos para a pelada. 
— Pelada? 
— Sim, pelada. Uma peladinha distrai, tira o estresse... 
— Creio em Deus Pai! E você deixa? 
— Deixo o quê? 
— Ele sair com outra? 
— Dona Branca, meu marido, às sextas-feiras joga bola. 
— Então não sai com os amigos para ver uma pelada? 
— Pelada, dona Branca, é jogo de futebol. 

— Filha, estou vendo o jornal... 
— Só tem notícias ruins, dona Branca. O melhor que se tem a fazer é viver de sonhos. Novela é sonho, pura ficção. A senhora sofre, ri, chora, se emociona. 
— Com as notícias também. Agora com a pandemia... Quero ver quantos já morreram só hoje... E, se a vacina... 
— ...Qual o quê. A senhora pode sofrer um ataque fulminante, se por acaso receber uma noticia mal passada. De repente, um parente... Um neto... 
— Não sofro do coração. E não tenho neto. 
— Mas é funcionária pública. 
— E daí? 
— Estão brigando feito cão e gato lá em Brasília, para ver se voltam com o auxílio emergencial do governo de R$ 600 reais. Imagine só se os grandalhões não concordarem em continuar com a ajuda? Muitas pessoas vão morrer de fome. 

— Vivibela, escute o que vou dizer: trabalhei trinta anos no antigo IPASE, hoje INSS e nunca me assustei com nada. De mais a mais, o jornal está cobrindo a morte do Genival Lacerda. 
— E quem é o Genival Lacerda? 
— O maior símbolo da cultura nordestina. Foi ele quem gravou Ela deu o rádio. 
— Credo, dona Branca, a mulher deste sujeito deu o rabo? E o homem morreu do quê? Acaso foi em decorrência dos “chifre?”. Saia deste corpo, minha amiga, assista comigo a novela e esqueça o resto. Na sua idade, nada melhor que renovar as boas coisas, principalmente as que passam ao largo e não trazem sofrimento. 

— Vivibela, me escuta. Ela deu o rádio. Rádio, criatura, rádio. Ela deu o rádio. Saiba, um dos mais de duzentos sucessos de Genival. Está vendo o que dá viver de sonhos? Bota os pés no chão, moça. A vida não é como se pensa. No mundo em que vivemos, conturbado, cheio de altos e baixos, e de natureza semítica, não dá, ou melhor, não se pode viver dentro de um dualismo platônico. E ainda por cima, faça-me o favor, revendo um folhetim que passou no tempo em que minha tataravó ainda respirava e andava por ai, pela cidade, de patinete à vapor... 
— Desculpe, não entendi. A senhora falou em semi... Semi o quê, dona Branca? Que negócio é esse de duo... Duo não sei das quantas platônico? 
— Dualismo platônico, criatura. 
— A Senhora poderia traduzir? 
— Dualismo platônico é aquilo que faz do seu ser, do seu corpo uma espécie de cárcere de todas as desgraças, ou a prisão de todas as podridões da humanidade. 

— Puxa, não sabia que a senhora era tão estudada. Sabe das coisas, fala bonito. Olha só: aquele ali é o Oto, o marido da Mariza. Ele acabou de pegar o revólver na cabeceira do criado. Será que é agora que ele vai dar o tiro na esposa? Meu Deus, nem para o Carlinhos chegar com o delegado... 
Dona Brancolina pegou o controle das mãos da atrevida e voltou para o jornal: 
— Droga, dona Branca. Volta lá, volta lá... 

“...Com a morte de Genival Lacerda, aos oitenta e nove anos, a música nordestina e não só ela, o Brasil inteiro, perdeu um de seus maiores expoentes. Um de seus maiores sucessos, Severina Xique-Xique, seguido de De quem é esse jegue, vão deixar...”. 

Vivibela, num ímpeto de raiva incontida tomou o controle das mãos da pobre setentona e posicionou, de novo na novela: 
“...Oto, eu não te amo mais. O amor acabou. Sou feliz com o Toni. Você precisa entender isso. Recomece. Procure alguém. Você é um homem novo, cheio de vida e esperança. Encontrará a felicidade...”. 

A senhorinha não se deu por vencida. Passou os cinco dedos no controle e voltou para o jornal. Quase agredindo a anciã, Vivibela saltou sobre ela e reviu o aparelho: 
— Droga, dona Branca... Chega logo, Carlinhos. Oto vai matar a Mariza. Que droga! Meu Jesus Cristim, isto não pode acontecer, não, não, não... 
Não tendo mais saco para tolerar tamanha intransigência, dona Brancolina saiu de mansinho indo diretamente para a cozinha. Lembrou-se de sua falecida mãe: “para visitas chatas e pessoas indesejadas, ponha uma vassoura atrás da porta. É tiro e queda”. 

Não titubeou, tampouco pensou duas vezes. Passou a mão nas duas únicas vassouras e correu com elas para o quartinho da empregada. Por não dispor de uma serviçal, a peça destinada a uma secretária de serviços gerais se transformou num depósito de bugigangas. Caprichou. Acomodou as coitadinhas com os cabos para baixo. 
— Quero ver se esta coisa é realmente cem por cento, como manda o figurino. Como são duas, quem sabe a sirigaita desenxabida saia de traseiro quente. Fez o sinal da cruz. Mamãe, pelo amor de Deus, de onde a senhora estiver, me ajuda com isto... 

Simpatia, superstição, crendice popular dos velhos tempos ou qualquer outro nome mais apropriado que se queira dar, não importa. Na mosca. A vizinha, do nada, saiu pisando nos cascos, alegando ter esquecido um bolo no forno. Foi embora às carreiras, sem dizer, ao menos, boa noite. 

Livre da intrusa, dona Brancolina voltou à cozinha, passou a mão numa latinha de refrigerante e um saquinho de batatas fritas e se esticou no sofá retrátil. Como se nada tivesse acontecido, Quando acordou, a televisão passava uma série premiada, mas ela preferiu desligar tudo e ir dormir. 

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, Espírito Santo, 15-1-2021

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