quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Podemos falar sobre tratamento precoce?

Foto: Yuri Cortez

Leonardo Desideri

Se há algo que se sabe de forma definitiva sobre o uso de medicamentos para o tratamento precoce contra a Covid-19, até o momento, é que a questão é controversa. E a discussão sobre a eficácia de alguns desses remédios tem sido ideologizada. Um lado exagera de forma leviana ao apresentar a cloroquina ou outros medicamentos como panaceia para a Covid-19 em qualquer caso. O outro busca sufocar qualquer menção ao tema usando histeria e chavões como método de cerceamento.

“Negacionismo nu e cru em POA. Melo vai liberar kit anticientífico com cloroquina para tratamento precoce de combate à Covid-19. Apostar em remédios sem evidência científica comprovada é rasgar dinheiro público”, tuitou recentemente a deputada federal Fernanda Melchionna (PSOL-RS) sobre um kit de tratamento precoce distribuído em Porto Alegre por iniciativa do prefeito da cidade, Sebastião Melo. “Tratamento precoce é negacionismo da Covid”, afirmou o biólogo Atila Iamarino.

Nas redes sociais, até postagens com links para pesquisas publicadas em revistas científicas de grande prestígio têm sido censuradas. Nos veículos de comunicação, a cobertura de estudos sobre tratamento precoce deturpa informações – recentemente, manchetes diziam que o cientista Didier Raoult admitiu a ineficácia da cloroquina, quando, na verdade, ele somente havia reconhecido a necessidade de correções pontuais em seu estudo sobre o medicamento.

As agências de checagem também têm atuado com critérios questionáveis. No dia 20 de janeiro, a Agência Lupa, que se propõe a checar a veracidade de fatos de interesse público, afirmou em um texto: “Como a Lupa já mostrou em diversas ocasiões, a hidroxicloroquina e a ivermectina não são eficazes no tratamento de infecções pelo novo coronavírus. Essas drogas foram amplamente pesquisadas durante a pandemia e diversos estudos descartaram a possibilidade do uso desses medicamentos para tratar pacientes.”

Mas não há, até hoje, um consenso científico sobre a ineficácia desses medicamentos, nem estudos que tenham descartado de forma peremptória a possibilidade de seu uso para tratar pacientes. Mesmo assim, a opinião sustentada pela Agência Lupa como verdade absoluta tem sido repetida com insistência por personalidades da política e do entretenimento, veículos de comunicação e até cientistas brasileiros.

De fato, há estudos que indicam que esses medicamentos não funcionam, como uma pesquisa importante do BritishMedical Journal. Mas também há muitas pesquisas apontando o contrário. Como afirmou o presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), Mauro Ribeiro, em artigo publicado na Folha de S. Paulo no dia 24 de janeiro, existem “dezenas de trabalhos científicos mostrando benefício com o tratamento precoce” e “outros tantos apontam que elas não possuem qualquer efeito benéfico contra a Covid-19”.

Arrogância ideológica sufoca o debate

Peter A. McCullough, cardiologista e professor de Medicina da Texas A&M University, é o principal autor de um estudo sobre tratamento precoce publicado em agosto de 2020 na revista científica The American Journal of Medicine e atualizado em janeiro deste ano. Há cerca de dois meses, o pesquisador foi ouvido em uma audiência pública no Senado americano sobre tratamento precoce. McCullough, que tem mais de 89 mil citações em artigos e publicações acadêmicas, segundo o Google Scholar, sustenta que o tratamento precoce da Covid-19 deve ser feito com uma combinação de remédios, e que nenhum remédio sozinho é capaz de salvar vidas.

Para McCullough, que há alguns dias teve uma pesquisa sua temporariamente censurada pelo Twitter, o problema deixou de ser científico e passou a ser ideológico. “Um dos grandes desafios é a censura, porque o tratamento precoce é uma ameaça em potencial para algumas partes interessadas. Existem médicos, hospitais, grupos médicos, governos e outras organizações que são contra o tratamento precoce. Os cientistas que apresentam informações sobre isso podem ser vistos como uma ameaça para aqueles que não o fazem”, diz. 

O cancelamento desse debate começou nos primeiros meses da pandemia. Por oportunismo, alguns políticos ajudaram a propagar a ideia de que a hidroxicloroquina e outros remédios poderiam ser uma solução fácil para a Covid-19 em qualquer caso. Depois, por arrogância ideológica, grupos opositores sufocaram o debate legítimo sobre a possibilidade do tratamento precoce.

Para o biomédico Jaime Henrique Amorim, pós-doutor em virologia pela La Jolla Institute for Allergy and Immunology e professor da UFOB (Universidade Federal do Oeste da Bahia), a interferência da política foi muito negativa para a ciência.

“Hoje a gente tem uma polarização muito forte na política mundial, e isso interferiu também nessa questão do tratamento precoce”, diz. “Infelizmente, o que aconteceu? O Bolsonaro e o Trump enxergaram na possibilidade de apoiar o uso da cloroquina uma espécie de palanque para se promover politicamente. Eles apostaram muito nisso. Todos os que eram e são contra eles fizeram uma campanha contra essas drogas para poder derrubar a ideia deles. É bem político”, avalia o cientista.

O médico e pesquisador Nicholas White, um dos mais citados do mundo em publicações científicas, com mais de 134 mil menções segundo o Google Scholar, coordena o estudo CopCov, que tenta descobrir os efeitos da hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19. Em um vídeo publicado no fim de julho no YouTube, ele diz que o debate científico sobre os remédios para o tratamento contra a Covid se tornaram extremamente politizados, e isso “interferiu seriamente na condução dos estudos necessários para descobrir se as drogas funcionam ou não”.

O grande marco dessa politização, para ele, foi o estudo publicado em 22 de maio pela revista científica The Lancet, uma das mais importantes do mundo na área de medicina, que usava dados inautênticos para afirmar que o uso de hidroxicloroquina e cloroquina no tratamento contra Covid-19 era perigoso e podia causar arritmias cardíacas e mortes. Em um dos maiores escândalos recentes da ciência, os próprios pesquisadores envolvidos no estudo admitiram falhas graves na coleta de dados. A revista publicou um pedido de desculpas, mas o estrago provocado na opinião pública não pôde ser totalmente contornado.

“Esse estudo foi fabricado, era completamente falso, e foi desmentido. Mas isso criou problemas enormes. Muitas autoridades regulatórias reagiram de forma exagerada, interromperam os testes, e surgiu a percepção geral de que essas drogas eram perigosas e não funcionavam”, relata White no vídeo.

Logo depois dessa polêmica, um estudo – dessa vez autêntico – do UK Recovery Trial, da Universidade de Oxford, trouxe novas informações sobre o uso de hidroxicloroquina, mostrando que pessoas que estão em tratamento intensivo no hospital poderiam ser prejudicadas pelo remédio.

“Isso levou as pessoas a concluírem, razoavelmente, que os remédios não funcionaram. Mas isso não é justo. Está ficando cada vez mais claro que, quando as pessoas chegam ao hospital e ficam muito doentes, é o dano inflamatório ou imunológico que causa os problemas e pode matá-las”, explica White, para quem há grande possibilidade de que, no estágio precoce da doença, a hidroxicloroquina tenha alguma eficácia.

No Brasil, outro marco da politização do debate sobre o tratamento precoce foi a morte de 11 pacientes durante um estudo sobre o uso da cloroquina em pacientes em estado grave com Covid-19 em umhospital de Manaus (AM). Nesse caso, a dose usada foi o principal problema.

“Se você olhar na própria bula, você vai ver que a dose que eles utilizaram é uma dose de envenenamento. Eu não sei nem como passou no comitê de ética esse estudo. E eles não fizeram tratamento precoce. Fizeram tratamento quando o quadro de evolução da doença já estava mais avançado”, explica Amorim.

Para o cientista, é equivocada a ideia de que a hidroxicloroquina e outros medicamentos que vêm sendo testados para o tratamento precoce da doença sejam perigosos. “Toda droga tem um risco se você usar na dose inadequada. Mas o reposicionamento (de drogas utilizadas para outras doenças), quando se faz, pode ser uma coisa extremamente vantajosa, porque a droga já é conhecida, toda a farmacodinâmica dela é conhecida. Se ela pode ser usada contra outras enfermidades, isso é um ganho enorme de tempo, de custo.”

Redes sociais e agências de checagem tratam a ineficácia do tratamento como verdade incontestável

Para figuras públicas, falar sobre tratamento precoce nas redes sociais tem sido como pisar em ovos. Uma simples menção à possibilidade de tratamento precoce pode resultar na suspensão de uma conta.

No dia 18, o colunista da Gazeta do Povo Rodrigo Constantino foi temporariamente suspenso do Twitter por ter feito uma postagem com link para um artigo da revista científica The American Journal of Medicine. No tuíte, Constantino dizia somente que o estudo em questão mostra “aparente eficácia do tratamento precoce”, afirmação que é verdadeira.

A revista científica em que esse estudo foi publicado pertence ao chamado “primeiro quartil” (Q1) na área de medicina do indicador SCImago, que mede o impacto científico de publicações. Para quem não entende muito sobre o mundo acadêmico, ter uma boa classificação neste ranking mostra que a publicação é prestigiada no meio científico pelo alto número de citações e pela qualidade das revistas de onde vêm essas menções. Estar no Q1 significa integrar a elite das publicações acadêmicas no mundo. Só duas revistas de medicina da América Latina pertencem atualmente ao Q1, as brasileiras Memórias do Instituto Oswaldo Cruz e Brazilian Journal of Physical Therapy. Em suma, o prestígio do American Journal of Medicine do ponto de vista científico é inquestionável, mesmo que a revista não seja uma das mais conhecidas no campo da medicina.

A legitimidade científica do principal autor da pesquisa, Peter A. McCullough, também é incontestável. Suas mais de 89 mil citações em artigos e publicações acadêmicas o colocam na seleta lista de pesquisadores com pontuação maior que 100 no índice h, uma métrica de impacto científico muito utilizada no universo acadêmico. Para efeito de comparação, uma das cientistas mais respeitadas do Brasil, Duília de Mello, tem menos de um sexto das citações de McCullough – cerca de 14 mil.

O fato de o artigo ser assinado por um autor como McCullough e estar presente em uma revista científica de grande impacto não significa, é verdade, que todas as suas afirmações estejam definitivamente comprovadas – e isso foi reiterado com certa pompa por agências de checagem brasileiras. Por outro lado, também seria no mínimo cientificamente imprudente menosprezar o que diz um estudo com todo esse respaldo.

Um argumento levantado por agências de checagem contra o estudo é o de que ele apenas reproduziria outras pesquisas, o que diminuiria sua relevância. A afirmação é enganosa. A metodologia adotada pelo artigo, de revisão sistemática da literatura, tem ampla aceitação no universo acadêmico. Um de seus objetivos, como no caso do estudo de McCullough, pode ser o de avaliar o estado do conhecimento sobre determinado tópico, buscando dar sentido e unidade a uma massa de estudos que, isoladamente, são como peças de um quebra-cabeça.

Uma revisão da literatura desse tipo não é somente um artigo de opinião, como chegou a sugerir uma agência de checagem. À parte o fato de que o estudo em questão foi assinado por 23 especialistas da área – o que, por si só, já tem grande peso –, ele precisou passar por um rigoroso processo de revisão por pares para chegar a ser publicado no American Journal of Medicine.

McCullough explica que a ideia do artigo foi reunir tudo o que já havia de cientificamente relevante sobre o tratamento da Covid-19, com o objetivo de oferecer uma espécie de guia para o tratamento precoce. “Havia 50 mil publicações revisadas por pares na literatura médica, 50 mil artigos sobre Covid-19. Nenhum artigo ensinava aos médicos como tratar o problema. Nem um único artigo”, diz McCullough. “Simplesmente reunimos todos esses conceitos.”

Para o cientista, a censura de informação científica “está provocando um grande desastre no mundo”. Ele também responsabiliza os grandes centros médicos, que se recusam a considerar o tratamento precoce como uma opção, e aponta viés ideológico também em alguns setores do meio acadêmico.

“Coletivamente, não houve nenhum investimento em pesquisas sobre tratamento precoce. Eu diria que a comunidade acadêmica não tem interesse em ouvir sobre o tratamento precoce. É muito difícil publicar artigos. Em centros médicos em todo o mundo, não há esforço para tratar os pacientes precocemente. Zero”, diz McCullough.

Na opinião dele, alguns grandes centros médicos terão “uma prestação de contas com a história”. “A gente teve uma doença que atingiu os Estados Unidos, atingiu a América do Sul, atingiu todos os países do mundo, os pacientes adoeceram por duas semanas antes de chegarem ao hospital, e nenhum desses centros médicos fez nada para aliviar os sintomas, para encurtar a duração da doença ou reduzir a hospitalização e a morte. Nada.”

Aversão à ideia de tratamento precoce sai do discurso e chega à Justiça

A aversão à ideia de tratamento precoce saiu do discurso e chegou ao Judiciário brasileiro. Em alguns casos, vale ressaltar, as condutas dos alvos das ações são, de fato, questionáveis.

No dia 16 de janeiro, o PSOL entrou com uma ação na Justiça para impedir a aquisição pela Prefeitura de Porto Alegre de um kit de tratamento precoce para a Covid-19. No dia 20, o mesmo PSOL entrou com um requerimento no Supremo Tribunal Federal (STF) para que os integrantes do governo federal não possam indicar ou sugerir o tratamento precoce contra a Covid-19.

No dia 21, o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) pediu à Procuradoria-Geral da República uma investigação contra o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, por causa do aplicativo TrateCov, que, como afirmou o CFM, assegurava “validação científica a drogas que não contam com esse reconhecimento internacional”.

O Ministério da Saúde causou polêmica pelo mesmo motivo no Twitter, no dia 12, ao fazer uma postagem orientando o público a solicitar o tratamento precoce em uma unidade de saúde quando tenha sintomas da Covid-19. O Twitter sinalizou que o post tinha violado suas regras sobre “informações enganosas e potencialmente prejudiciais relacionadas à Covid-19”, mas não o apagou, com a ressalva de que “pode ser do interesse público que esse Tweet continue acessível”.

Para Jaime Amorim, a postura do governo federal brasileiro na controvérsia acaba politizando a discussão. “Se não tivesse essa polarização, e os estudos pudessem ser feitos com isenção, talvez a gente tivesse uma droga disponível para poder falar em tratamento”, diz. “A falha do governo federal brasileiro em relação às vacinas enfraqueceu ainda mais a questão da cloroquina. Acho difícil reverter isso agora, com toda a polarização que aconteceu”, acrescenta o biomédico.

Amorim ressalta, porém, que a censura ao tratamento precoce no debate público não significa que os medicamentos tenham ficado inacessíveis a médicos e pacientes que queiram utilizá-los. “Embora no meio científico isso tenha enfraquecido muito, no meio médico isso tem força ainda. Tem muito médico que dá, tenho muitos colegas que dão hidroxicloroquina. Tem hospitais inteiros, inclusive, que têm protocolos para receitar hidroxicloroquina, azitromicina e zinco. A questão é que isso fica escondido”, diz ele.

Título e Texto: Leonardo Desideri, Gazeta do Povo, 27-1-2021, 20h24

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