terça-feira, 12 de janeiro de 2021

[Aparecido rasga o verbo] Apesar do tempo, ainda dançando sobre cacos de vidros

Aparecido Raimundo de Souza

A MINHA FILHA de número cinco está namorando. Luana arranjou um adereço para xavecar o dia inteiro no pé do ouvido. Um brinco. Brinco, aqui, no sentido de indicar aquele trocinho que fica dependurado nas orelhas (no sentido figurado, aquela porcaria que não dá folga, que não desgruda). Faço referência, logicamente, a um namoradinho chato, um sujeitinho que me olha como se eu fosse um animal pronto para devorá-lo ao menor descuido.

Meu Deus! Ontem mesmo a minha mocinha não passava de uma menininha frágil, que usava fraldas, que chupava chupeta e eu precisava pegar na mãozinha para atravessar as ruas. Que brincava com um monte de bonequinhas Barbie, que eu precisava renovar o 'kit-estoque' de roupinhas e calçados toda vez em que íamos ao shopping.

Hoje, Luana anda sozinha, pra todo lado. Vai e vem à cidade, pega ônibus, não se aperta, não se enrola. Sabe o valor do dinheiro que leva na bolsa e o troco a receber de volta, do trocador, ao passar pela roleta. Age, na verdade, como se fosse dona de si, do seu nariz, senhora incontestável do seu destino.

Devo ter parado no tempo, estancado, de alguma forma inconsequente, regredido à era dos homens das cavernas, sem a visão beatificante do futuro que estava bem ali, ao meu lado, me agredindo, me mostrando que o mundo girava incontestavelmente a mil por hora e não ao entorno do meu umbigo.

E mais que isto: eu não tinha nenhum controle sobre ele. Sinto ter estancado no espaço, a ponto de não enxergar o progresso bater às portas e transformar o marasmo do meu ontem, em novos caminhos com perspectivas de um porvir cheio de horizontes ainda não fecundados. Eita cara retrógrado...

Minha filha cresceu. Cresceu, desenvolveu e se tornou um ser independente. Embora viva o albor dos quinze anos, noto na emoção da sua eloquência, o futuro palpitando sem amarras, sem pedras, sem empecilhos, num trilhar de múltiplas formas que paira risonho sobre a sua cabecinha.

Apenas eu não progredi, não deslanchei, não me espichei, não vislumbrei outras formas de sobrevivência para ela dentro da minha burrice mórbida, do meu medo de pai atolado no ontem, a querer proteger o filho, a cria, por toda a vida das malhas do incerto que se expandiam além do portão do quintal, como se a vida destas criaturinhas fosse ficar a mercê do meu direcionamento o tempo inteiro.

Embora seu olhar seja de pura bucolicidade, de inocência, há muito, a pureza se esvaiu, se dissipou, se consumiu, dando lugar a uma evolução com tecnologia de ponta. Na verdade, uma engenharia inovadora que parece ter vinda de berço, como se nascidas juntas, desde a cortada do cordão umbilical e crescidas coladas, uma na outra, como pulgas num animalzinho de estimação e estado o tempo todo ao seu lado, ditando ordens e regras, conceitos e normas contrárias às minhas vontades de pai.

Minha filha Luana cresceu. Ficou moça. Hoje toma banho sozinha, sabe escolher as roupas que vestirá, os sapatos, o batom, o perfume... Imagine, até menstrua, como a mãe e as demais irmãs. E mais que isto: tem pleno conhecimento de coisas que até Deus duvida.

Sabe, a danadinha, ir e vir, chegar e sair. Creio, diante deste quadro que se me apresenta, estar a minha princesa completamente pronta, literalmente preparada para seguir a sua jornada. Foi eu, compreendo, quem parou no meio do caminho e aqui estou, ainda meio atordoado, como se dançasse sobre pequenos e quase invisíveis estilhaços de vidros.

Porém isto não importa. Ela está apta, bem sei, pronta, aparelhada, competente para enfrentar os percalços, como se as dificuldades, as intempéries, os altos e baixos não existissem e representassem, apenas, velhas sombras difusas, confusas, na minha cabeça tacanha, que não seguiu em frente, que emperrou aferrada ao tempo, aquele tempo em que se caçava moscas com mel e cachorros vadios com pedaços de linguiças feitas de tripas de porcos.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, ES, 12-1-2021 

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