sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

[Aparecido rasga o verbo] A garota do trem

Aparecido Raimundo de Souza 

UMA GAROTA LINDA E MARAVILHOSA
aparentando vinte e poucos anos, entra no luxuoso vagão de passageiros. Faz uma breve parada antes de seguir adiante. As pessoas que ali estão, num total de quase cem, viajam confortavelmente com passagens de primeira classe. Com um sorriso bonito e calmo, bailando no rosto claro, volta a caminhar. A passos curtos, segue pelo corredor espaçoso, se detendo aqui e ali, olhando de um lado e de outro, espiando atentamente, como se procurasse por alguém em especial. 

Quase final do vagão, no finito de romper para o carro seguinte, estanca a marcha. O trem segue a sua trajetória indiferente ao que as pessoas estão fazendo. A viagem está normal. Pelas janelas amplas, a velocidade do comboio continua no mesmo balançar e no mesmo ritmo. O que faz toda a diferença é o sol radiante enfeitando a paisagem linda e impecável, com lugarejos indescritíveis se descortinando maviosos de um lado e de outro da linha, fazendo, com isto, que o barulho produzido pelas rodas de encontro aos trilhos de ferro se torne ameno e acolhedor. 

A formosura se detém por um breve instante e, em seguida, gira sobre o próprio eixo, como se fosse voltar pelos passos dados até ali. Neste momento, todavia, fixa seus olhos verdes claros num rapaz de estatura mediana, aparentando uns trinta anos, sentado à janela, agora visto pelo lado direito. Ela para, e o encara da cabeça aos pés: 
— Oi Alessandro, bom dia... 
O mancebo se assusta ao ouvir seu nome sendo chamado e só então gruda seu espanto na preciosidade que lhe convoca pelo patronímico: 
— Bom dia, senhorita. Desculpe, quem é você? Como sabe meu nome? 

Em resposta, a moça envia outra pergunta: 
— Está gostando da viagem? 
— Sim, bastante. Adoro trens. Sempre que posso... 
— Qual seu destino, Alessandro? 
— Pedra do Cristal. Um bocadinho longe.... Ainda faltam umas três ou quatro paradas antes do meu destino. Por quê? Você me conhece?! 
— Até agora, acredite, não tive este prazer. Na verdade, acabei de conhecê-lo. 

Alessandro procura, dentro da mente, lembrar de onde foi que viu aquele rosto desconhecidamente indescritível. Seus esforços redundam em vão Parece que assim, sem mais nem menos, a sua mente perde o fio tênue das ideias: 
— Honestamente, devo confessar, não lembro de você. Me perdoe. Pela sua beleza inimitável, se antes de agora a tivesse visto, ainda que por um breve segundo, por certo não me esqueceria. Sou bom de memória. 
— Eu sei. Acredito em você! 
— Então...? 

A estrangeira, ao invés de responder objetivamente, consegue apenas deixar o pobre rapaz mais perplexo e atrapalhado, mais aturdido e atribulado que nunca. Ordena: 
— Por gentileza, pegue as suas coisas. Você ficará na próxima. Pegue tudo, não esqueça nada. 

Neste momento, dentro de Alessandro cresce uma inflamação interior deveras assombrosa e, sobretudo, algo clandestino e anfigúrico. Algaraviado Alessandro contesta: 
— Não, minha princesa. Deve estar havendo um engano, apesar de saber meu nome. Eu moro, desde que nasci, em Pedra de Cristal. Conheço este trecho como as palmas de minhas mãos. Sem precisar olhar ao redor, vejo que ainda tenho, pela frente, umas quatro paradas: 
— Também sei disto. De qualquer forma, passei para lhe avisar que ficará na próxima. Como sua amiga, sugiro que pegue as suas coisas e vá direito ali para o hall de saída. Beijos, meu querido. Fica em paz! Nos veremos lá fora. Tchau! 

Aterrado com aquele papo estranho, vindo daquela donzela incógnita, seios pequenos e quadris elegantes, metida numa sainha curta e pecaminosamente chamativa para os prazeres do amor ele fica na dúvida. E ai? O que fazer? Atende aos apelos dela, ou deixa pra lá? Tudo parece bom demais para ser verdade. O espaço pequeníssimo da situação que vive o deixa mais embaraçado e embrulhado num turbilhão de pensamentos. Chocado, lhe atormenta o medo carinhoso de uma criança abandonada, com a terna preocupação de um homem muito jovem despertando para as delícias dadivosas do coração, ao mesmo tempo que o ir em frente, lhe parece monstruoso, incerto como se estivesse prestes a enfrentar um pavoroso instrumento de tortura. 

Açoitado, chicoteado e seviciado com as palavras dela, antes de tomar uma decisão, corre os olhos ao seu entorno. O senhor que viaja na poltrona a seu lado, dorme à sono solto. Os outros dois, no banco da outra janela, também se quedam inertedos e entregues a um cansaço ofegante. A jovem —, com o mesmo sorriso no rosto, sorriso de princesa —, sem dizer mais nada, finalmente retorna ao ponto de origem se detendo no lugar de onde antes saíra. Lasciva e libidinosa, delonga uma última olhadela para Alessandro. Como se dissesse ‘adeus’, assopra com a mão, um beijo para ele. Na verdade, acena uma espécie de ‘até daqui a pouco’ dos tempos modernos e, de novo, sinaliza para que ele vá se encontrar com ela. Como um golpe certeiro na sua emoção, uma pancada forte faz explodir estrelas coloridas diante de seus olhos. A partir dai, seu corpo todo estremece em espasmos e engasgos. 

Alessandro, por fim, sem saber como, sem entender bulhufas, se levanta. Curioso, apressado, se sentindo entre feliz e amedrontado, mais acuado que venturoso, pensando mil coisas ao mesmo tempo, se põe a caminho, nos calcanhares da majestosa. Não imprimindo mais delongas ao seu embasbacado de dar o próximo salto, passa a mão em sua pequena malinha e corre. Dispara, afoito, em direção para onde a alienígena some de sua visão. O sistema de alto falante informa a próxima parada: — ‘Santa Saudade’. O pobre rapaz volta a gritar atarantado, para que ela espere por ele, e que esclareça, de onde o conhece e, como sabe seu nome. O trem diminui a marcha. A estação finalmente deixa visível a enorme plataforma repleta de criaturas que evidentemente estão à espera para seguirem para outras paragens. 

Em face do número de pessoas que pretendem descer, e outras a embarcar, Alessandro, num abrir e piscar de olhos, perde o rastro da deusa que o chamara. Quando, finalmente, galga o compartimento de descida, topa com um funcionário todo de preto, um bonezinho engraçado acabando de liberar a escada de desembarque. A primeira a pôr os pés no piso da plataforma é a jovem que lhe cativara a alma deixando a em festa desconhecida. Mais uma vez ele, na apertura de cair fora do carro-vagão, se atrapalha, querendo, a todo custo, se livrar da multidão e alcançá-la. O dilúvio de gente, braços e pernas entrando e saindo, o faz perder o rastro dela. 

A pérola nacarada, não sumiu. Está agora, relativamente um pouco longe. Em meio a outros transeuntes que se dirigem aligeirados à saída da estação: 
— Ei, espere — berra, entrementes — Moça, me espere... 

O inesperado sai das coxias e entra em cena. Ele cai. Despenca numa topada única, num amontoado de bagagens Tudo à sua volta vai, aos poucos, escurecendo. Rostos e caras, olhos e semblantes arregalados e os mais variados zumbidos de vocês soltando impropérios cruzam com ele, outros tumultuam, colidem, tropicam. Funcionários da estação chegam de todas as partes, impacientes. Ouve mais vozes. Alguém solicita, urgente, uma ambulância. Tarde demais! Quando Alessandro volta a enxergar a moça bonita, de olhos verdes claros, ele se dá conta de que está... Se dá conta de que jaz, morto. 

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha Espírito Santo, 18-12-2020 

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