terça-feira, 15 de dezembro de 2020

[Aparecido rasga o verbo] Inferno

Aparecido Raimundo de Souza

O MOLEQUE SE VIROU
para o pai, assim que chegou da escola e perguntou, de chofre:
— Pai, como faço para chegar ao inferno? 
Pego de surpresa, e sem saber o que responder, de imediato, o pai procurou ganhar tempo: 

— Para que você quer saber, meu filho? 
— Curiosidade, pai. 
— Essa ‘curiosidade’ tem nome? 
— Sim senhor. 
— E qual é? 
— Professor Molejo. 

— Que mal pergunte: quem é esse tal de professor Molejo? 
— Meu professor de Educação Física. Ou pelo menos, era...
— Não entendi. Como assim, era? 
— Tivemos uma pequena discussão na hora em que ele estava dando a aula para minha turma: 
— OK. Por qual motivo vocês discutiram? 

— Pai, eu pisei na bola. Juro para o senhor que foi sem querer: 
— Como assim, pisou sem querer? Falou ou fez alguma coisa que não devia? 
— Não, pai. O que aconteceu foi que chutei a droga da bola de forma errada. E a desgranhenta, ao invés de ir para o gol, desviou a rota, no meio do caminho e foi direta numa das janelas da diretoria: 

— Tudo bem, meu anjo. Acontece! De outra feita procure não incorrer na mesma falha. Certos acidentes são inevitáveis. Uma vez, eu sem querer, confundi a sua mãe com a irmã dela, a sua tia... Deu um bafafá danado. No fim... 
— No fim...?! 
—...Tomei, de ambas, uns bons tapas no meio das ventas. Apanhei pior que burro fujão. Depois tudo acabou sem maiores consequências... Desde então, aprendi a distinguir, de longe e até no escuro, quem é a sua mãe e quem é a irmã dela, a danada da sua tia Luciana: 

— Entendi. Também penso como o senhor, pai. Acidentes acontecem. Só que no meu caso, o professor Molejo me mandou para o inferno, e antes de ir para o inferno, me encaminhou direto para a sala da diretoria... 
— ... E? 
— A diretora, dona Amaralisa, antes de eu vir para casa, me mandou a conta... 

— Conta, filho? Que conta? 
— Do vidro da janela que eu quebrei. Olhe aqui o recibo com as despesas do rapaz que foi lá e fez a troca: 
— Inferno! 
— Foi o que eu disse à diretora: 
— Deixa eu ver... 
— A parte mais dolorida vem agora, pai. Tenho que levar o dinheiro amanhã. Ou não assistirei às aulas: 
— Inferno! 

— Foi o que também disse quando sai da sala da professora Amaralisa: 
— E qual foi a reação dela? 
— A jararaca me disse para eu ir primeiro... 
— Seja mais claro, filhote. Ir para onde? 
— Pro inferno, pai. Onde mais? 
— Que vadia, essa sua diretora. Deve ser uma mal amada: 

Dia seguinte, logo que meteu os pés na escola, o moleque se viu direcionado por uma funcionária que parecia estar à espera dele, plantada feito um ás de paus no portão principal. A professora Amaralisa pegou o dinheiro, escreveu um recibo, carimbou com seu carimbinho de coordenadora. Entregou ao guri: 
— Aqui está. De outra feita, procure ter mais cuidado ao chutar. Agora desapareça daqui. Sua professora de Português, a exatos cinco minutos, deu inicio à sua aula: 
— Obrigado, dona Amaralisa. Desculpe o incômodo: 
— Vá para o inferno, fedelho. Suma da minha frente, de uma vez, seu imbecil. E quando sair, por favor, não bata a porta. Detesto barulho. 

*** 

Antes de fechar, de vez, a porta para se livrar do mau humor e da fúria da coordenadora, o menino completou: 
— Se Deus quiser pretendo seguir seu conselho. Irei para o inferno. Nos veremos lá. Beijos, sua chata mal amada. Tenha um bom dia. 

No término das atividades escolares, a mesma funcionária que o encaminhou à diretoria, quando do ingresso, lhe esperava, de olho comprido, no portal da saída. Logo que avistou quem procurava, pulou na frente do garoto com um sorriso sem graça e entregou uma cartinha endereçada a seus pais. Curioso, como toda criança, o piá não se aguentando, abriu e leu-lhe o conteúdo: 

— E o que dizia a carta, meu filho? 
O menino retirou a mochila das costas, tirou de dentro dela um envelope branco e o entregou ao pai: 
— Veja, pai. É um comunicado simples, ligeiro e direto para o senhor e para a mamãe, avisando que tomei três dias de suspensão. 

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de São Paulo, 15-12-2020 

Colunas anteriores:
Anjos de asas cortadas
O sublunado da poça de água suja
Lados opostos
Tarja com caveira
Mala sem alça
Encaixe perfeito

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Não aceitamos/não publicamos comentários anônimos.

Se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.

Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-