sábado, 26 de dezembro de 2020

[Aparecido rasga o verbo] Tudo assim, do nada, como se fosse uma segunda chance

Aparecido Raimundo de Souza

MUDEI MEUS HÁBITOS da noite para o dia. E fiz isto, confesso, de forma incontestavelmente radical. Claro que não alterei só as minhas maneiras cotidianas. Adulterei também meus costumes antigos, mexi nas usanças corriqueiras e insignificantes do dia a dia. Substituí pequenas posturas retrógradas, como dizem os antigos, separei a água do vinho, o joio do trigo, o fogo da fumaça, a borra do café do coador, procurando dar um novo colorido às coisas que me cercam. Foi uma reviravolta rápida e rasteira, impulsiva e ansiosa, assim como retirar um cisco incômodo que se alojou no singelo gesto abrir e fechar os olhos.

De repente —, eu que vivia intensamente cada minuto da minha vida, que dormia duas ou três horas por noite —, que amanhecia em farras e regozijos com os amigos, ora tomando cerveja pelos bares das redondezas, ora envolvido em prostíbulos com vadias em busca de gastar dinheiro fácil, entre outras mediocridades, sem que esperasse outra coisa mais séria por esta mudança brusca que fiz por vontade própria, me vi, ou pior, me fiz, me peguei, me flagrei assim, tolhido, cerceado, impedido, acorrentado, preso e atado a um congestionamento inexplicável tal como se enfrentasse um trânsito caótico dentro de uma cidade enlouquecida e não conseguisse encontrar uma rota de fuga viável para escapar para lugar nenhum.

Não só me vi, me vejo ainda agora, meio abestalhado, impedido, ferido na minha autoconfiança, igualmente paralisado, num incidente sórdido, sem saída, encarcerado como um inativo, às portas de um desconhecido trivializado, obscuro, como se tivesse sido agarrado por fortes mãos de um ser misterioso que surgiu do nada e, sem que esperasse, se postou diante do meus passos e caminhos, me impedindo de seguir adiante, de deslanchar, de dar, sequer, um simples salto quântico na compreensão incompreendida dos neurotransmissores dos meus desejos mais prementes e tempestuosos. Cresceu, por conta, um turbilhão de emoções conflitantes e, por causa deles, me rodeiam até agora, imagens de um pavoroso espectro cujo rosto mascarado não me permitiu vislumbrar a sua face.

Que loucura! Eu que beijava bocas e chupava línguas de gostos diferentes, que aprontava com tudo e todos, que jogava bola com os moleques da rua do bairro onde morava, que pegava praia no Arpoador e, a noite, caminhava com a turma de conhecidos de um extremo a outro da Avenida Atlântica, agora estou aqui. Me pego inerteado, deitado feito um babaca, os olhos arregalados, perdidos dentro de um nada vazio e oco, fustigado neste lugar imundo, fétido, asqueroso, vendo as horas passarem, os dias nascerem e morrerem, as noites irem e voltarem, sem que nada de novo ou de normal dentro do anormal que se instalou, simplesmente aconteça.

Meus vizinhos, estes, coitados, parecem empanturrados de uma solidão infame, mais estressante que a minha. Talvez, por isto, os veja assim, como a um bando de fantasmas errantes assustados com a estupidez aguda que os alimenta. Para se ter uma ideia, o cidadão do meu lado direito reclama das cachaças que não poderá mais beber. A jovem do lado esquerdo buzina o tempo todo em meus ouvidos a desdita de ter perdido a perna num acidente de moto. ‘Juro que se meu namorado aparecer aqui, agora, eu aperto o pescoço dele até botar meio metro de língua pra fora da boca’.

A outra criatura que está logo atrás de mim é uma menina de quinze anos e, apesar de muito nova e imatura, passa o tempo todo se lamentando debulhada num vale de lágrimas, maldizendo o homem desconhecido lhe lhe estuprou, quando voltava para casa, depois de passar a noite inteira com as amigas, numa balada. O morador da frente é mais complicado. Meio sádico inconsciente. Trata-se de uma bicha enrustida. Fala o tempo todo se desmilinguindo. Desmunheca pior que largatixa quando cai da parede. Pegou AIDS do companheiro com quem morou cinco anos e meio e, pelas proezas que me conta, o companheiro arranjou outro parceiro e meteu-lhe os pés no traseiro. Pelos impropérios que propaga a altas vozes, o miserento não parece flor que se possa ser cheirada.

Já não quero falar dos que estão residindo em quadras mais abaixo. Na verdade, cada um destes meus prezados, que dividem este espaço não tem lá muitas opções de existência. Aliás, por aqui, a existência é quase abissal. Por esta razão, as particularidades de cada um servem de padrão para os demais. Resumindo: somos todos uma imensa família de cadáveres ambulantes navegando no mesmo barco, à procura da um porto seguro onde descansar a exaustão que nos definha o corpo e, de contrapeso, corrói nossas carnes até a consumação dos ossos.

No entanto, às vezes, me ponho a pensar com meus botões: ontem mesmo... Ontem mesmo a minha vida se fazia boa, alegre, divertida, animada, apesar do trabalho cansativo, dos perrengues que passava, no ir e vir para a empresa. Meu Deus! aqueles ônibus lotados, com pessoas fedendo a suores fortes, exalando ao entorno dos demais que viajavam, odores que davam a impressão de cachorros molhados, hoje me fazem falta. Havia, de contrapeso, uma multidão gritando, outros gatos pingados fumando ou se queixando da sorte, sem mencionarem o salário merreca e os sonhos futuros que pretendiam realizar, porém, nunca sobrava um centavo para fazerem um cego das orelhas cantar qualquer coisa de Roberto Carlos ou Amado Batista.

Pois é! Que mudanças brusca promovi. Hoje estou aqui! Esquecido, abandonado, ao léu. Virei pó. Ontem —, ontem eu podia ver o mar, olhar o céu azul, andar na chuva, correr entremeio aos carros, desafiar a sorte, sentir o vento, a beleza das praças e jardins, podia ouvir o cantar dos passarinhos... Ontem eu conseguia abraçar meus filhos, meus netos, sair com eles para comer pipocas na pracinha do Lido, ou pegar uma seção pornô no cine Odeon, na Alvaro Alvin, na Cinelândia.

Do mesmo modo, visitar meus parentes, muito embora fosse um pouco rejeitado pela família — apesar disto, mesmo me sentido solitário no recôndito dos meus pares, algo me enchia de prazer e acelerava meu coração de alegrias. Apesar de viver com a tristeza colada nos pés e um punhado de melancolias pesando na aba do meu chapéu, ia vivendo, ia tocando, ia aprendendo.

Havia uma luz muito fraca, lá longe. Apesar de distante, ela se revestia de uma ‘meia-esperança’ imorredoura e, por vezes, quando à vontade de acabar com a existência inócua apertava, me atropelavam ideias macabras e mirabolantes, como, por exemplo, dar um tiro de trinta e oito de misericórdia bem no meio da cabeça.

Nestas horas, esta luz tênue quase a se esvair em pesadas nuvens, parecia ter o dom mágico de fazer algo surgir do nada e de transformar tudo em derredor num suntuoso e indescritível clarão divinal. Este clarão batia em meu rosto como uma promessa de dias melhores. No entanto, hoje, bem, hoje, não vejo mais esta luz. Meus dias são eternamente iguais.

Não há futuro, não há presente, não há amanhã. Na verdade, não há exatamente nada. Coisa alguma elevada ao quadrado que opere o milagre auspicioso e restaurador de fazer ficar tudo redondo, justo e perfeito. O grande caso é que estou morto, virei extinto, me fiz cadáver falecido, defunto enterrado neste cemitério à entrada da cidade. Ao meu lado, sepulturas e jazigos com velhos expirados apodrecendo em descomposições que não estancam, as horas esperando, como eu, o milagre de retornar à vida antiga, curtir novamente o mar infinito, o céu azul, o vento calmo sibilando, e rever os momentos felizes que se perderam em algum lugar dentro de mim...

...Talvez... Sentar na mesa de um barzinho de frente para a praia de Copacabana e agradecer ao Pai Maior pelo fato de ainda não estar com sete palmos de terra por cima dos costados. Orar, igualmente a Ele, por compreender que tudo o que pensei estar acontecendo comigo não foi além de um sonho placebo e tresloucado, apenas uma visão apocalíptica embutida num lapso de certa forma meio macabro, um pesadelo esquisito; medonho; sem contar de contrapeso; num futuro terrível que embora incerto; suspeitoso, não chegou a ser verdadeiramente real. Queria por tudo quanto é mais sagrado, queria agora, desejaria, as mãos postas em atitude de prece, almejaria, não chegasse, jamais, a minha vez de partir.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha no Espírito Santo, 25-12-2020

Colunas anteriores: 
Dois Natais completamente distintos....
De ergofóbicos e ergofobias
A garota do trem
E o Paulinho seguiu A Viagem... Pegou o Trem azul...
Inferno
Anjos de asas cortadas

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Não aceitamos/não publicamos comentários anônimos.

Se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.

Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-