terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

[Aparecido rasga o verbo] Acuado

Aparecido Raimundo de Souza

A MESMA HORA, TODAS AS NOITES, às vinte e três e quinze o telefone fixo tocava na calmaria serena da sala vazia. Miresola pulava da cama, e corria à atender, sabendo, de antemão, o que aconteceria assim que tirasse o auscultador do gancho:
— Alô?... Alô?... Alô?
Do outro lado da linha, como sempre, nada:
—...
— Alô?
—...

O rapaz insistia, mas ninguém dava sinais de vida. Seguia a mudez enervante e pasmacente dos dias passados:
— Alô?
—...
Ouvia nitidamente a respiração descompassada de quem o importunava, do outro lado. Distinguia os dedos da criatura arranhando, com as unhas compridas, alguma coisa áspera, mas voz, que é bom...
— Ora, vamos. Quem é você? Diga seu nome. Sua idade? O que quer? Por que me liga todas as noites neste mesmo horário?

Nenhuma réplica ou contestação se fazia dissipada:
—...
— Fale. Se abra. Acaso se esconde de alguém?
—...
— Tem medo do quê?
—...
— Como posso te ajudar, se permanecer calada?

Miresola perseverava. Prolongava e se empenhava ao máximo. Batalhava na sua obstinação. Tentava, de todas as formas puxar assunto:
— Olha, não vou te machucar, nem morder. Ainda que pudesse chegar até você viajando pelos fios... Só quero saber quem é... E o motivo de todas as noites, nesta mesma hora, ligar para a minha casa... O que quer de mim?

O emperramento em não dizer algo esclarecedor se agigantava:
—...
— Converse comigo... Revele alguma coisa sobre a sua vida. Sonhos? O que gostaria de fazer? Ler, ouvir música, sair, ir ao cinema? Frequenta barzinhos? Amigos? Pratica algum tipo de esporte? Acaso você mora aqui no meu prédio? Já nos vimos no elevador? Qual seu andar? Quer vir até aqui no meu apê para nos conhecermos? Por qual motivo não se mostra?!
—...

Sem mais nem menos, um clique interrompia a ligação. Ficava, no ar, além das reticências das indagações às perguntas formuladas, a taciturnidade do telefone afônico. A afrasia da noite alta, como que magicamente se quadruplicava. Vinha sendo assim, meses e meses à fio. Miresola não sabia mais o que fazer. Ou como agir. De certa forma, chegou a conclusão, se tornara refém de uma situação caótica. Um absurdo que não saberia explicar. Se sentia um idiota e impotente.

Sem mudanças no modus operandi, a mesma hora, na noite seguinte, às vinte e três e quinze, em ponto, o telefone tilintava mais uma vez e ele, escravo desta loucura, levantava da cama pressuroso e acorria à sala. Seguia a conversar, ou melhor dito, a monologar com um ser sem rosto e sem voz. Um fantasma errante e tresloucado, que não sabia quem era e o que pretendia. Se ao menos a pessoa ligasse para seu celular... Ele identificaria o número de onde viera a ligação e retornaria, pondo um final definitivo no mistério. Entretanto, qual o quê!

Veio à mente praticar, uma experiência até então adormecida:
— E se eu não atender? Se fingir que não estou em casa?
Pôs em ação a ideia surgida várias vezes, e o fez experimentando dias alternados. O telefone tocou até cair e, seguiu assim, indefinidamente se esgoelando, numa nova chamada, até que ele se decidisse a entrar no clima e dizer alguma coisa. Com toda certeza, alguém do prédio.

Não havia mais dúvidas quanto a isto. Mas por Deus, quem?! Uma desconhecida que monitorava seus hábitos e o via chegar, e sabia, portanto, quando estava ou, não, em seu apartamento. Miresola, a partir de então, se fez intrigado. Mais que isto, se tornou amedrontado, temeroso, espantado, arrepiado.

Por conta, passou a entrar e sair para o trabalho, olhando, desconfiado, para todos os lados, perscrutando. Decidiu cumprimentar as pessoas no elevador (moças e senhoras que trabalham em lojas de departamentos próximas) tentando capturar algum gesto ou sinal... A mínima coisa ou falha que o levasse a desvendar o incompreensível e a trazer à luz, o intrincado enigma.

Nada mudou. A mesma hora, impreterivelmente, o telefone tilintava e ele, escravo desta loucura, seguia a conversar, ou melhor dito, a monologar com alguém que não sabia quem era e o que pretendia. Se ao menos a pessoa usasse o número do seu celular... Ele identificaria de qual terminal vinha a ligação e retornaria. Qual o quê! Se via, definitivamente metido até o pescoço, numa dificuldade incomum. Um embaraço tão sem nexo e cabeludo, como o bíblico Esaú.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, do Complexo do Presídio da Papuda, Brasília, Distrito Federal. 2-2-2021

Colunas anteriores: 
O fescenino do caráter ruim 
Invenção de espanto 
A vara de vimeiro 
Retrato de um crápula 
Vassouras atrás da porta 
Apesar do tempo, ainda dançando sobre cacos de vidros 

3 comentários:

  1. Bom pelo feito ele sabia que era uma mulher com citado no testo mas em condições muito estranha pois não avia diálogo entre as partes pois assim como Esaú consultou vidente e convocando espirito não obteve êxito em nada pois e desta forma que vemos aí nosso redor todos os dias os mesmos esbarrões as mesmas pessoas até parece que e de propósito mas nós não sabemos se estes esbarrões pode nos tirar do rumo da caminhada que fazemos diariamente mas Pará nós que somos acostumados a muitos destes fatos ocorrerem conosco já não nós importamos com os tapas da vida pois aprender nunca é de mais .... parabéns au autor do testo muito bom pôr ter está misturando um Tok de suspense com realidade parabéns !!!

    ResponderExcluir
  2. Gosto demais destes textos onde o Aparecido conta uma historinha e, no final, deixa a gente na saudade, literalmente a ver navios. O que aconteceu com o pobre do Miresola? Os telefonemas continuaram? Por acaso a estrangeira, que toda noite, a mesma hora ligava e, não dizia nada... Será que tomou coragem e se fez conhecer? Moraria ela no mesmo andar? Possivelmente, pois a desconhecida sabia quando ele estava. Quando chegava. Tanto que 'em dias alternados ele não atendia, mas ela ligava, e insistia, porque sabia que ele estava lá'. Por assim, de algum lugar, Miresola se via vigiado. Num primeiro momento, o texto parece ingênuo, bobo, bucólico. Entretanto, nos leva a imaginar como a pessoa ligava às 23.15, impreterivelmente. Concluo que a personagem levava a sério a sua obstinação. Amaria o cara? Ou o odiaria, por algum motivo qualquer? Um texto simples, porém, repleto de pequenas considerações interessantes que nos levam a parar e pensar que tal atitude pode acontecer com qualquer um de nós. Estamos na pista, portanto, sujeitas a um ataque vindo do nada, de onde menos se espera. Alguém, sempre nos vigia, nos segue, nos observa, ainda que nunca dê as caras. Aparecido instiga a nossa mente nos leva a imaginar o inimaginável. Nos leva também a refletir quem está ao nosso lado, seja no corredor, no ônibus, no elevador, na padaria, no supermercado... Quem, e por qual razão, nos observa, nos vigia nos mínimos detalhes? Pode ser uma pessoa perigosa, como igualmente um alguém desejoso de entregar o coração, de se abrir, de se declarar, mas, por algum motivo desconhecido, escondido, não se faz ou não se deixa conhecer. 'Ele, escravo desta loucura...'. Talvez amanhã, ou depois, eu volte aqui e escreva um comentário com um final à minha maneira, me colocando na pele do personagem fantasma. Será que o senhor Aparecido não brigaria comigo??!! Ou, talvez eu...
    Carina Bratt
    Ca
    De Pompeia, interior de São Paulo.

    ResponderExcluir
  3. O final é mudar o título para ACOADO, um cara que vive assim só falta latir.
    fui...
    MR

    ResponderExcluir

Não aceitamos/não publicamos comentários anônimos.

Se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.

Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-