segunda-feira, 6 de junho de 2016

Os filhos da boa gente

Alberto Gonçalves
O livro de um colunista sobre o Alentejo. As atoardas de um cançonetista sobre Trás-os-Montes. Em poucos meses, estas duas trivialidades tão distintas despertaram a fúria de inúmeros naturais de ambas as províncias, incluindo ameaças aos respectivos autores e afirmações de orgulho regional. Tanto o "povo alentejano" (?) como o "povo transmontano" (?) fizeram questão de dizer a Henrique Raposo e a José Cid que não engoliriam palpites alheios, por muito que os do primeiro merecessem um debate adulto e os do segundo nem merecessem comentários.

Não se trata de uma especificidade territorial: caso os alvos fossem minhotos ou algarvios, ribatejanos ou beirões, tenho a certeza de que a reacção seria semelhante. É o velho chavão do "Quem não se sente não é filho de boa gente", que por cá atravessa geografias. Em Portugal, quase todos os progenitores devem ser gente maravilhosa e impecável, já que quase todos os filhos passam a vida a sentir-se, além de que sentem com impressionante intensidade. Desde que, falta acrescentar, se sintam contra um alvo isolado ou fácil.

Não é por nada, mas os valentes portugueses que despejam indignações em cima do Henrique ou do sr. Cid parecem-me, assim por alto, os mesmos que toleram, quando não aplaudem, tudo o que de facto importa. São os mesmos portugueses que acham normal, ou desejável, o PS costurar uma tramóia "constitucional" para tomar o poder e subordiná-lo a estalinistas ou aparentados. São os mesmos portugueses que acham razoável, ou, a acreditar nas sondagens, espectacular, que o governo recupere o prodigioso legado económico de José Sócrates, agora sob orientação sindical e com adornos "fracturantes". São os mesmos portugueses que acham adequado, ou louvável, que um balão sorridente disfarçado de primeiro-ministro brinque com as organizações internacionais que, em última e penúltima instâncias, nos têm aguentado uns furos acima da Roménia. São os mesmos portugueses que acham correcto, ou excelente, o uso das escolas públicas para perpetuar as desigualdades e alimentar a obediência do bom povo. São os mesmos portugueses que acham normal, ou oportuno, que um rapazito que vê na iniciativa privada um sintoma do Terceiro Mundo esteja no Parlamento e não no hospício. São os mesmos portugueses que acham razoáveis, ou "giras", propostas legislativas que deixam as crianças mudar de sexo e os idosos serem abandonados. São os mesmos portugueses que acham compreensível, ou fabuloso, que uma deputada denuncie os inimigos da "laicidade" e a discriminação dos gays enquanto exalta a mesquita que os contribuintes pagarão em Lisboa. São os mesmos portugueses que acham pertinente, ou radiosa, a nova mesquita de Lisboa.

Os insubmissos portugueses submetem-se, mudos ou felizes, a um presidente que confunde a função com um circo de irresponsabilidades. A polícias que lhes explicam o sistema de multas criado para os pilhar. A "estadistas" que os "aconselham" a andar de autocarro, ou a pé, ou de jumento. A sindicalistas que escarnecem diariamente do seu trabalho. A tiranetes colocados em cada esquina ou ministério. E, nas próximas semanas, ao fervor patriótico da selecção da bola, para gritar "Portugal! Portugal" e ignorar que o país verdadeiro se afunda sem remédio.

Filhos de boa gente e de quem calha, os portugueses sentem-se. O problema é que, com as prioridades do avesso, sentem-se mal. E não tarda vão sentir-se pior.

Assinar de cruz

Eis algumas das "personalidades" que assinaram a petição "Em defesa da escola pública", lançada pela simpática Fenprof: Pedro Abrunhosa, Fausto (o das cantiguinhas, não o de Goethe), Baptista Hífen Bastos, Manuel Alegre, Helena Roseta, um escritor chamado valter hugo mãe e, naturalmente, o baterista dos Xutos & Pontapés.

Das duas, uma. Se as referidas "personalidades" frequentaram escolas privadas, ou nelas inscreveram a descendência, trata-se da maior concentração de hipócritas ou alucinados desde que, na apresentação do Trabant, os engenheiros da VEB Sachsenring anunciaram ao mundo: "Ora aqui está um grande carro."

Se, por outro lado, os vultos em causa frequentaram a escola pública, convinha apurar a dimensão dos estragos que esta anda a causar ao país. Uma coisa é darmos por adquirido que a nossa instrução média é incapaz de preparar as crianças para o mundo real: na pior das hipóteses, arranja-se sempre o emprego sazonal no Algarve, a casa dos pais ou um subsídio de "inserção". Coisa muito mais grave é verificar que o ensino estatal é responsável por espécimes como o sr. Abrunhosa ou a arquitecta Roseta, para os quais nem Aristóteles conseguiria descobrir utilidade. A propósito, onde é que "estudou" o sr. Mário Nogueira e porque é que ainda ninguém fechou aquilo? 
Título e Texto: Alberto Gonçalves, Diário de Notícias, 5-6-2016

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