sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Os felizes

Maria João Avillez

Mas se um dia, por causa do estado do país, da agonia do ocidente ou da inquietante saúde do mundo, for preciso inverter a marcha e mudar de vida, onde ir buscar o discernimento, o ânimo, para actuar?

1. Fala-se por aí em apatia, letargia, acomodamento, mas em todo o caso, oh quão alegre. Há muito que não me lembro de tanta leveza, quase me apetece dizer “viva tão deslizante felicidade!” Não há preocupações, nem aflicções, não há sombras, nem nuvens, céu limpo, horizonte aberto, bom passadio. Folgada, a vida flui, por entre enganos e equívocos mas que importância se há palpitação, felicidade e “estabilidade”? Enfeitada por de um número astronómicas de automóveis nas ruas, movida, estreias, acontecimentos de “prestígio”, festivais, fama, Portugal na moda. É óbvio que também usufruo de uma cidade que embora desmazelada está mais cosmopolita e sedutora mas o ponto não é porém esse. É a pouca sustentabilidade de vida assim folgada. E nesse sentido vida impossível mas acreditada e praticada como realidade possível: haverá maior irrealidade (e maior desresponsabilização) do que viver com o dinheiro dos outros como se fosse nosso (ou fruto de produção nossa?). Estranhamente é como se o amanhã não fosse connosco, logo se verá. Ou como se não tivéssemos que deixar herança sólida e o futuro – o futuro do país, o da comunidade, o dos nossos – nada importasse. Ou nada significasse ao pé desta onda tão envolvente de facilidades e afectos – traiçoeira até mais não, claro está – produzida, lembremo-lo, pelos timoneiros políticos deste país das maravilhas. Com a viva simpatia com que se evocam “direitos” e a pouca queda com que se cumprem deveres (e responsabilidades e obrigações), como resistir ao suave balanço da onda?

2. O dinheiro parece que circula (mas não é nosso) os sindicatos hibernaram, ou fazem de conta; não há greves, nem manifestações, nem paralisações, exit ameaças e chantagens. As chatices foram riscadas da ordem do dia e não é verdade que até há a tão cantada “estabilidade”? Descobrir alguém que queira trocar este encantador estado de coisas por vida mais responsabilizada é descobrir agulha em palheiro.

3. A “estabilidade” é sui generis, bem entendido. Lembra-me sempre aqueles algodões de açúcar das feiras que parecem resistentes e de repente se desfazem mas faz um jeitão de engana-tolos ao Executivo, que a exibe como um troféu. (enquanto sabiamente “faz horas” para a trocar por modelo mais gerível e digerível, mesmo que diga que não). Enquanto isto, sobre a tal “estabilidade” caiem também as benções do alto, Deus livre Belém de confrontos ou desfechos que exijam ruptura ou fractura. Com o seu verbo compulsivo e aquela alegria demasiado constante, o Presidente prefere ser bonzinho com os portugueses.

E folgazão. (E propósito de folguedos recorde-se – é uma pura questão biográfica – o luxo e o capricho de, à nossa custa e com essa excitação juvenil algo embaraçante, atravessar um oceano para tirar uma foto tropical com um homem indecente ou o diálogo igualmente juvenil mas inexplicável num Chefe de Estado, travado com a Rainha de Inglaterra). Sim, como há-de este estado de permanente “divertissement” tão estimado popularmente pôr alguma vez em causa a “estabilidade” deles? E no entanto…

4. Há um ano, íamos ter crescimento económico à base de doses maciças de “consumo”, uma previsão fantasiosa que nada justificava nem escorava e rematou em rotundo fracasso. Agora aí esta um Orçamento de Estado mais ou menos baseado no (falso) maná das receitas extraordinárias e na armadilha dos “ses”: “se a Economia arrancar”, “se houver investimento”… não se vislumbrando porém razão ou fundamento para uma coisa e outra (mas o inferno está cheio de boas suposições). Julgo porém que mais que estarmos apenas perante mais um orçamento – sempre discutível por natureza e ainda bem – estamos perante um sistema, um viver, uma situação, uma circunstância, que todos os dias vende um pouco mais do futuro.

5. Há um ano a qualidade politica dos governantes, impolutos patriotas, estava assegurada: eram patriotas impolutos. Afinal mentem por causa de licenciaturas, bilhetes de avião, convites indevidos; mentem também sobre o governo anterior, tecendo uma falsíssima narrativa “oficial” de coisas que não houve e algarismos que nunca existiram. Escondem o que dizem aqui ter dito em Bruxelas, e o que em Bruxelas dizem ter dito aqui. (A verdade é uma maçada, de facto.)

6. Há um ano a severidade “punitiva” da linguagem do anterior governo iria dar lugar a uma retórica promissora e luminosa mas o que temos hoje é o uso comum de uma extraordinária oralidade governamental, feita em permanência de chistes agressivos, insultos pessoais, chacotas rascas, má fé, numa espécie de persecutório circuito fechado. Exagero? É só ouvir, repara-se logo. Não lembro, em mais de quatro décadas, de comportamentos políticos assim. Assim tão escancaradamente desqualificados. Mas atroadoramente felizes, sim. Tão felizes que os factos, apesar de reais, concretos, verificáveis, são de imediato negados e substituídos por convenientes ficções, geralmente acompanhadas de maus modos e maus vinhos. Das exportações brandidas como êxito exclusivo sem nunca as relacionar com o turismo, até aos juros da divida, passando pelo assassínio da Caixa ou pela “fluidez” com que se fazem contas e se usam (e abusam) algarismos, estatísticas e outros números é um ver se te avias. Sempre devidamente abençoado.

7. Que poucos se incomodem com o que acima expus, não é novidade: sei que destoo horrivelmente da pintura rosa e se até Carlos Moedas ou Miguel Frasquilho assinam de cruz, o erro só pode ser meu. Além de que, é bem verdade, a vida é bela, há mais estrelas Michellin, houve a Web Summit, Lisboa e o Porto fervilham, está aí o Natal e o subsídio, quem sabe férias a crédito em Cancun ou talvez Cuba (um “sítio” agora surpreendentemente legitimada por Belém).

Mas se um dia, por causa do estado do país, da agonia do ocidente ou da inquietante saúde do mundo, for preciso inverter a marcha e mudar um bocadinho de vida, onde ir buscar o discernimento, a vontade, a força, o animo, para actuar? Não sei. Mas sei que há coisas menos deprimentes de que estar feliz à força.

PS. Miguel Frasquilho acha – e acha bem – que o investimento é amigo da “estabilidade”. Mas então porque não há? Que faltará mais para que ele aterre em Portugal?
Título e Texto: Maria João Avillez, Observador, 24-11-2016 

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