terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Esquerda está fadada a ser bolha da elite

Kim Kataguiri

Bobagem é sempre bobagem, não importa quem a diga. Porém, quando a besteira é dita por alguém que se vende como especialista no assunto, ela acaba convencendo alguns incautos – como bem ensina Schopenhauer em "A Arte de Ter Razão" –, mormente quando é divulgada no maior jornal do país.

Em entrevista a esta Folha no último sábado (31), o "professor na Fundação Getúlio Vargas e do Ibmec no Rio" Jorge Chaloub afirmou que, hoje, a direita possui um discurso que "divide o mundo entre bem e mal" – que ele, por desconhecimento ou mau-caratismo, classifica de "moral" em vez de maniqueísta. Será mesmo?

Historicamente, a direita sempre se preocupou em defender valores, em atingir fins nobres por meios corretos. A esquerda, por outro lado, atuava no campo econômico – Marx, por exemplo, sustentava que a política e o Direito eram meros reflexos das relações materiais de opressão.

Após os fracassos dos países comunistas, as coisas se inverteram. A esquerda passou a atuar nos campos cultural e moral, e a direita, achando-se muito esperta, tomou conta do debate econômico. Resultado: enquanto a direita pregava para seus próprios convertidos em palestras fechadas e entediantes sobre coisas como taxa de juros, inflação e swap cambial, a esquerda ditava o certo e o errado por meio do politicamente correto e tomava o poder.

Prova disso é o fato de que, até recentemente, os petistas eram intocáveis. Se você criticasse as atitudes de alguma figura do partido, era rechaçado e rotulado como uma espécie de leproso moral. Criticou o governo Dilma? Machista! Criticou Lula? Coxinha que odeia ver o filho da empregada andando de avião!

Agora, se você é da turminha e chama feministas de "mulheres do grelo duro", aí tudo bem. Desde que você seja um guerreiro da justiça social, não um neoliberal a serviço do mercado malvadão, pode tudo. A esquerda, que tanto critica as falhas do capitalismo, criou um monopólio que não está disponível no mercado: o das virtudes.

Voltando à "análise" do professor: sim, a direita brasileira tem falado muito sobre moral, sobre certo e errado, e isso é ótimo! Antes de se preocupar com o que é economicamente eficiente, as pessoas se preocupam com o que é justo. E essa é uma das razões pelas quais a direita, até pouco tempo atrás, vivia numa bolha de ar-condicionado e gravata borboleta.

Isso está bem longe de significar que a direita é maniqueísta. O argumento que o professor usa para sustentar essa afirmação é o de que a direita retrata "todas as posições que se assemelhem a esquerda como patologia, como exposto pelo termo 'esquerdopata'".

Antes de alicerçar uma tese numa única palavra, é preciso, ao menos, saber o que ela significa. Quem inventou o termo "esquerdopata" foi o jornalista Reinaldo Azevedo. A definição do termo é, nas palavras dele, "alguém que está sempre justificando os malfeitos daqueles da sua turma" e que tenta "nos convencer de que o crime atende aos anseios dos 'oprimidos' e tem uma função libertadora. A exemplo do psicopata, seu padrão moral é elástico o bastante para justificar qualquer coisa, desde que concorra para atingir seus objetivos ou os do grupo."

Aí está a definição. Esquerdopata é um tipo muito específico de esquerdista: aquele que tenta justificar atrocidades em nome de um suposto ideal de igualdade. Não se trata, portanto, de uma palavra usada para caracterizar todas as esquerdas. Sendo assim, a afirmação de que a direita é maniqueísta é tão válida quanto a de que um mais um é igual a três.

Chaloub ainda afirma que a direita é adepta de teorias da conspiração e que sua ascensão se dá em razão da organização em torno de think tanks vinculados ao empresariado e à mídia.

Não faço ideia de qual empresariado ele está falando. Infelizmente, a maior parte dos empresários brasileiros se acovardou diante da política. Os que não foram para Miami ou se corromperam ou se omitiram. "Ah, mas e a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) que apoiou as manifestações contra o governo Dilma?". Apoiou como? Colocando um pato gigante plagiado para promover a imagem do seu presidente?

Isso sem falar na "mídia". Como é que a mesma imprensa que exalta deputados como Jean Wyllys e Chico Alencar, ambos do PSOL-RJ, elegendo-os como os melhores do Brasil no prêmio "Congresso em Foco", age em conluio com think tanks de direita?

No fim das contas, a tese do tal professor se resume a rótulos preconceituosos somados a uma, vejam só, teoria da conspiração, ainda que expressa de maneira sutil.

É a mesma mentalidade que estava por trás do ódio despejado nas redes sociais quando Marcelo Freixo (PSOL) foi derrotado no Rio, e Fernando Haddad, em São Paulo. Na cabeça deles, a população, pobre e mal informada, se deixou levar pelo populismo de uma direita que finge representar algo novo.

O fato é que ideias novas estão, sim, sendo trazidas pela direita. Não são novas para o mundo, mas o são para o Brasil. Nosso país sempre teve uma cultura de idolatria ao Estado, uma crença de que todos os problemas podem e devem ser resolvidos pelo governo, o que é característico da esquerda.

É por causa desse tipo de militância barata e intolerante, travestida de análise acadêmica, caro professor, que a esquerda está cada vez mais se limitando a uma bolha de elite.
Título e Texto: Kim Katiguiri, Folha de São Paulo, 3-1-2017

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