quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Sempre existe um peixe maior

Ana Paula Henkel

Mais um incidente diplomático constrangedor, agora em Tóquio. Trump, sempre ele, mais uma vez obrigou a honestíssima, equilibrada e isenta imprensa a reportar, muito a contragosto, que o presidente americano derramou impacientemente um pote de ração num lago de carpas ao lado de Shinzo Abe, primeiro-ministro japonês. Se isso não é motivo para impeachment, não sei mais o que é.


Agora sabemos que a zelosa CNN, maldosamente conhecida como Clinton News Network, uma emissora de jornalismo assistida por jornalistas e que atualmente serve de decoração digital de paredes de aeroportos e hotéis, editou o vídeo para poupar você das fortes imagens de Shinzo Abe fazendo exatamente o mesmo que Trump alguns segundos antes. No jornalismo atual, engajado, pós-moderno e militante, fatos são cada vez mais um incômodo, uma distração.

Trump cometeu a gafe de repetir o que seu anfitrião havia feito, o que não é gafe. Mas é uma gafe, afinal a CNN disse que é. Para facilitar a sua compreensão, a emissora editou o vídeo, assim o que não era uma gafe se transforma numa gafe e você não terá dúvidas que foi uma gafe, mesmo que não tenha sido. Você entendeu.

A imprensa sempre foi uma preocupação de Lênin, o principal líder da Revolução Russa, evento tão comemorado nestes dias pela imprensa reacionária, golpista e de direita. A imprensa é de direita, mas comemora Revolução Russa? OK, sigamos. O jornal oficial do regime soviético se chamava “Pravda”, ou “verdade” em russo. O vídeo da CNN, editado para dar a impressão que Trump cometia uma gafe, foi uma homenagem que a emissora faz ao mesmo tipo de “verdade” propagada pelo Pravda. Mudam os tempos, as ideologias nem tanto.

Se as carpas de Shinzo Abe estão bem alimentadas, o mesmo se pode dizer de muitos americanos que estão se beneficiando da menor taxa de desemprego em 17 anos. As bolsas já bateram tantos recordes que isso nem é mais notícia. Se é notícia, é para que um especialista, engajado, pós-moderno e militante, possa nos explicar, bem ao estilo do Pravda, que na verdade o mérito é de Barack Obama. Não é verdade, mas é a nova verdade em tempos de pós-verdade.

Com mais americanos trabalhando, não há dúvidas que estão comendo mais, inclusive peixes. Sugiro que a CNN, assim como quase todo veículo de comunicação que repete automaticamente e sem filtro o que sai na imprensa americana, denuncie esse verdadeiro crime ecológico que Trump está cometendo ao colocar mais cidadãos para trabalhar e consequentemente comer mais peixes. Se continuar assim, onde vamos parar? Haja vídeo, correspondente internacional e especialista para explicar que o que você está vendo não é exatamente o que você está vendo.

A imprensa está literalmente preocupada com peixes pequenos. Enquanto isso, os escândalos de Hillary, um verdadeiro peixe grande da política americana, não param de surgir. Quanto mais escândalos, mais matérias sobre carpas. Quanto mais empregos, investimentos e crescimento econômico por aqui, mais mesas redondas sobre gafes que não eram gafes, mas quem se importa? Afinal, o assunto gerou “reações nas redes sociais”. Clicando bem, que mal tem?

A campanha de Hillary Clinton ajudou a financiar a produção de um dossiê com acusações tão baixas ao adversário que não ousaria repetir nem numa exposição do MAM. Segundo o The Washington Post, insuspeito quando o assunto é criticar o Partido Democrata, a campanha de Hillary pagou pelo dossiê que ajudou a fomentar a história falsa de que Trump estaria em conluio com a Rússia na eleição. Era tudo tão inventado e mentiroso quanto a gafe das carpas japonesas, mas há muito mais em jogo. Nessas horas, é preciso escolher bem o peixe.

A quantidade de escândalos dos Clinton faz com que nossos corruptos pareçam peixinhos dourados de aquário, o que faz a participação dos companheiros da imprensa ainda mais estratégica. Até as carpas japonesas sabem o que está por trás de tudo isso, mas os peixes grandes não podem permitir que a opinião pública seja importunada com fatos. Peixe morre pela boca.

Como disse o velho Jedi em Star Wars, há sempre um peixe maior. Enquanto isso, os companheiros da imprensa, que fazem diligentemente as novas versões do velho Pravda, vão nos fazendo de peixe-palhaço. Está servido?
Título e Texto: Ana Paula Henkel, O Estado de S. Paulo, 8-11-2017

Generoso leitor, juro que sentei em frente ao computador decidido a escrever algo sobre a vil e abjeta campanha contra Donald Trump; nasce lá nos EUA e é prontamente papagaiada por redações (preguiçosas, que de ciência de jornalismo nada têm!) do Brasil, Portugal e França.

A França é um caso especial, porque lá existem jornais e revistas, além de blogues e canais de youtube, que se posicionam ideologicamente, sem subterfúgios, desde o centro (hummm...) até à extrema-direita.

Ia escrever sobre o Los Angeles Times, o USA Today e a CNN. Não tanto do Washington Post, nem da Newsweek, nem do New York Times, porque não os sigo no Twitter. O masoquismo tem limite.

A CNN, well... julgo que todos já conhecem e sabem do que ela é capaz. Atenção! Lembrai-vos que ela é a fonte prioritária da Globo e de outras televisões especializadas em tradução simultânea.

O LAT e o USA Today são obcecados contra Trump: tudo vale para escrever uma “matéria” desqualificando-o, denegrindo-o, ridicularizando-o. Por exemplo, veja o tweet abaixo, do mesmo jornal que OPINA que Trump é doente mental, o Trump, não esta senhora. Não! Esta senhora é o farol da juventude norte-americana!




Pois é, como eu ia dizendo, me sentei decidido a escrever algo e eis que me deparo com este artigo de Ana Paula Henkel...

Não é a primeira vez, não é a segunda vez, provavelmente não será a última, que gente mais inteligente, competente e rápida do que eu, se atreve a escrever sobre o que eu andava pensando...

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4 comentários:

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