terça-feira, 25 de setembro de 2018

[Aparecido rasga o verbo] Salto no escuro

Aparecido Raimundo de Souza

- Boa tarde, amigo. Ia passando... posso dar uma cheiradinha?
- Boa tarde, jovem. À vontade.
- E aí?
- Legal.
- Gostou?
- Muito.
- Cheire mais... 
- Não se importa?
- Nem um pouco.
- Você é nova aqui no pedaço?
- Sou.
- Pra falar a verdade, esta é a terceira vez que passa por aqui.
- É?
- É.
- Por acaso está me vigiando?
- Em absoluto. Conheço todo mundo aqui do bairro. Você é casada, não é?
Enquanto pensa numa resposta, a linda reúne palavras na estrutura da fumaça que vem do cigarro do vendeiro. Num descaso a forjar neutralidades, se abre faceira. Concorda:

- Não propriamente. Enrolada, eu diria.
- Entendo. Seu cacho faz o quê?
- Meu o quê?
- Seu marido... o que ele faz?
- Ah, o Evilásio é vendedor.
- E o que o Evilásio vende?
- Não ria, por favor. Meu marido vende tampas para bacias de privadas.
- Cara, tampas pra bacias de privadas?
- Prometeu não rir. Antes ele negociava ímãs para portas de geladeiras.
- E o que dá mais?
- As tampas. Vende, em média, umas cinquenta por dia.
- E quanto custa cada tampa?
- Depende...
- Como assim, depende? Depende do quê?
- Da marca.
- Ah tem isso?
- Tem. Se for da boa, R$ 25 reais. Se não for, R$ 15.
- Se eu fosse adquirir uma, compraria da mais barata. Pra sentar o rabicó a gente acomoda o traseiro em qualquer coisa.
- Engano seu. A de R$ 25 é melhor. Não machuca a bunda, desculpa, não machuca as polpas traseiras. Na de R$ 15 a gente costuma sair com os fundilhos doendo.
- Bem, isso depende muito do tempo que se leva no trono.
Em meio ao bate papo disfarçado, o ignorado se desfaz das engrenagens num tempo que parece revogar o impossível. Ela ataca quase retrátil, dando uma deixa sinuosa. E o moçoilo, fora de si, vai à onda o ferro no pedal do agora renascendo impertinente:

- Não se importa mesmo?
- Do quê? De cagar?
Risos.
-Desculpa o palavrão. De evacuar.  O cagar saiu sem querer. Toma, sinta esse aroma...
- Obrigada. Estava mesmo precisando sentir algo novo. Como é seu nome?
- Taborda. E o seu?
-Míriam.
- Belo nome. Míriam. Então, quer levar alguma coisa pra cheirar mais tarde?
- Bem que gostaria, mas sabe como é: estou dura.
Um impasse parece querer escancarar a porta e andar sem pressa na carreira do que acontece inesperado. Taborda adultera o momento e se desfaz lisonjeiro. Aquiesce pressuroso:

- Não seja por isso. Depois você me paga...
- Agradeço. Melhor não.
- Qual o problema?
- Não gosto de ficar devendo.
- É tão pouquinho...
- Eu sei, mas se meu marido descobre...
- E quem contaria?
- As paredes têm ouvidos.
- Não estou vendo nenhuma por aqui.
- Maneira de falar. Alguém pode estar nos espiando agora e contar pra ele.
- Olhe em volta. Ninguém nos observa.
- Mesmo assim. Prefiro não arriscar. Não querendo abusar da sua bondade, me deixa cheirar um pouco mais?
- Pegue esse aqui. Eucalipto. É dos bons.
Miriam fica parada no ar, como se flutuasse sobre escamas de nuvens passadas. Tem a sensação momentânea de concrescer em uma facada enfiada direta no coração solitário. A caverna da sua alma se abre e num piscar, sem sentir, sem querer, querendo, vê surgir à chave de uma porta inesperada que se escancara para o acaso. Lugar no seu mundinho outro, até então nunca visitado:

- Uau! Estou vendo.
- Não. Está sentindo.
- É fato. Estou sentindo.
- Então. Leva?
- Não.
- Seu marido é contra?
- Se souber me come viva.
- Eu também no lugar dele comeria...
Mais risos.
- E você, Taborda, é casado?
- Igual a você. Amasiado. Moro com uma menina.
- Parece tão moço!
- Tenho vinte e um.
- E ela?
- Bárbara Vitória acabou de completar quinze.
A harmonia lenta acolhe as notas de uma música suave que toca ao longe. Miriam sonha aunada, em tentativas da existência na consciência de um novo porvir. Explode:

- Caraca! Quinze? Você é um tremendo papa anjo...
- E você quantos anos tem?
- Quantos anos me dá?
- Uns vinte e cinco.
- Nossa!
- Acertei?
- Errou feio...
- Mais, ou menos?
- Menos. Dezenove.
- Meu Deus, nem parece. E o cobertor de orelha?
- Chuta.
- Prefiro não.
- Sessenta e cinco.
- Pombas! Com essa idade o velho dá conta do recado?
- Nem te conto. Um verdadeiro garanhão. Quer todo dia...
Nessa hora, ao se lembrar do companheiro, uma vontade se faz redemoinho em sua flor da idade, como ventos quérulos. Miriam se sente, então, desejada, assediada, comível, pronta para o abate, mossoró interno deixando à mostra suas partes secretas em pândegas carniças. Taborda capta no ar a mensagem e se enleia febril. Atocaia:

- Fala sério! Todo dia?
- Sem falhar um sequer.
- E você aceita numa boa?
- Naturalmente. Gosto de me vestir de oncinha. Quase mato o velho. Mas ele é duro na queda...
- Ele toma algum remédio pra ter todo esse fôlego?
- Nada. Não toma nada. Simplesmente pega a espingarda e vem me caçar.
Taborda sente o coração bater mais forte no peito arfante. Disfarça:

- Sinta a fragrância desse aqui. Não quer levar alguma coisa para casa? Depois você me paga.
- Ummmmmm! Adoro esse. Você acertou na mosca.
- Fico feliz em saber.  E atente para um detalhe. É puro. Sem mistura. Cheira mais um bocadinho...
Nessa hora, o nariz de Miriam se encosta aos dedos trêmulos de Taborda numa espécie de amplexo sígio como se pequenos gestos apalpassem o inusitado. Foge, num repente, a escuridão da incerteza escondida num pélago sem fundo. Ela anui e se esbata numa lentidão vivificante:

- Tá legal. Você me convenceu. Vou levar. Não deveria... mas...
- Se gostar, promete virar minha freguesa. A clientela, por aqui, é enorme.
- Já percebi. Posso então abusar da sua bondade?
- Sempre...
- Me deixa, de fato, pagar depois?
- Com certeza, por favor, fique a vontade!
A moça passa a mão num dos vários recipientes de plástico contendo desinfetante puro, de pinho. Em seguida aponta para um vidro de hortelã.
- Meu marido adora hortelã. Tenho certeza irá se apaixonar por esse aqui. Vou jogar no banheiro e passar por todo chão da casa. Legal. Amanhã acerto contigo. Tchau, Taborda!
- Tchau, Miriam. 
Quando Miriam se afasta fica no ar um perfume diferente. Num primeiro momento, parece incitar tremendamente duas almas até então entrelaçadas por caminhos desconhecidos. Pássaros de asas atrevidas, ambos fendem os fios do tempo, num espaço imperfeito que se faz voraz.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, jornalista. De Vitória, no Espírito Santo. 25-9-2018

Colunas anteriores:

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Por favor, evite o anonimato! Mesmo que opte pelo botãozinho "Anônimo", escreva o seu nome no final do seu comentário.
Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente.
Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-