quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Independência (exceto para gestão florestal) ou morte!

José Diogo Quintela

Esta campanha contra o lítio é bizarra: estas pessoas desejam energias renováveis, mas não admitem que se extraia o lítio necessário para as baterias que vão, lá está, renovar a energia.


O primeiro registo de fuga aos impostos está na Teogonia, de Hesíodo. Escrito no séc. VIII a.C., narra, entre outras, a história de Prometeu, o titã que enganou Zeus com o conteúdo da oferta sacrificial que lhe era devida. Depois de morto e desmanchado o boi, Prometeu embrulhou a chicha em desagradáveis vísceras e os ossos em apetitosa gordura. Colocou os dois pacotes à disposição de Zeus que, ludibriado, escolheu o de aspecto mais tentador. Irritado com o logro, penalizou os homens, retirando-lhes o fogo. (É provável que tenha sido aí que, com boa alcatra, mas sem fogo para a cozinhar, a humanidade tenha inventado o bife tártaro. Estranhamente, Hesíodo não se debruça sobre o tema culinário).

Uma pena desproporcional, a confirmar a minha velha suspeita de que a Autoridade Tributária tem origem na Antiguidade Clássica: não só pela ressonância mitológica das punições, mas por todas as comunicações da AT serem grego para mim.

Entretanto, Prometeu não se fica e recorre da decisão de Zeus. Mas, sabendo da morosidade da justiça, principalmente a administrada por imortais, resolve roubar o fogo e devolvê-lo aos homens. É aqui que Zeus se irrita à séria e condena Prometeu a ser acorrentado a uma rocha, onde uma águia vem, todos os dias, para lhe comer o fígado. De noite a isca é regenerada, para que a águia a possa voltar a papar.

É um castigo duro demais. Sempre achei que Zeus tinha exagerado e que Prometeu não merecia tamanha condenação. Até hoje. Agora, já acho que a pena é leve. Se Prometeu não nos tivesse devolvido o fogo, hoje não tínhamos de aturar esta confusão na análise de incêndios, em que, se há fogos em Portugal, a culpa é do aquecimento global e falar em responsabilidades do Governo é aproveitamento político; e, se há fogos no Brasil, a culpa é do Governo e falar em aquecimento global é estúpido.

Nós já dizemos “talho”, “rebuçado” e “telemóvel”, enquanto os brasileiros dizem “açougue”, “bala” e “celular”. Agora, há mais uma diferença entre o português de Portugal e do Brasil: nós dizemos “incêndio causado pelas alterações climáticas, sem que haja nada que o Governo possa fazer”, e eles dizem “incêndio causado pelo Governo, sem intervenção das alterações climáticas”.

Prometeu precipitou-se. Nós não estamos preparados para falar do fogo, quanto mais tê-lo. Esta incoerência faz-me dores de cabeça. Prometeu merece bem as dores de fígado. Trata-se, ainda por cima, de uma incoerência que gera ainda mais incoerência. Neste momento, é normal ver grupos de pessoas que costumam vociferar contra a opressão do heteropatriarcado ocidental cis supremacista branco racista colonial (não sei se é o termo correto, limito-me a usar todas as palavras que costumo ler, uma macedónia de jargão identitário), a defenderem a ingerência num assunto interno do Brasil. É gente que acha que o grito do Ipiranga tem um asterisco. “Independência* ou morte!” (*exceto para gestão florestal). Se a Amazónia é o pulmão do planeta, estes grupos são o apêndice do planeta: não servem para nada e, quanto mais inchados ficam, mais aborrecem.

São estas pessoas que desejam energias renováveis, mas não admitem que se extraia o lítio necessário para as baterias que vão, lá está, renovar a energia. Esta campanha contra o lítio é ainda mais bizarra por ser também um medicamento usado no tratamento do transtorno bipolar e estes ativistas tanto estarem excitados com a transição energética, como deprimidos com o que é preciso para a fazer.
Título e Texto: José Diogo Quintela, Observador, 27-8-2019

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