terça-feira, 1 de outubro de 2019

[Aparecido rasga o verbo] Frequências de uma chapa gêmea

Aparecido Raimundo de Souza

NÃO DEVERIA SER TRISTEZA, já que é do nada. O nada não vai além do que não existe. Tudo o que é ou vem do nada, virou périplo e não deve ser levado a rigoroso, ou a verídico. Enquanto isso, o muro de Berlim das minhas quimeras sustenta a encosta gramada onde estou neste momento.

Em paralelo, às minhas costas, floresce a trapoeraba.  Não vou, pois, dar uma de “maluco beleza” à moda Raul Seixas, alimentando essas angústias desairosas estouvanadas, pensando em criar metáforas intermediando meus pensamentos como se fosse um Cristo prestes a ser crucificado ao lado de dois ladrões de araque no Gólgota do meu imaginário irreal.

O imaginário irreal faz às vezes a nossa mente rodopiar por uma espécie de desvão abissal e sem volta. Apesar de saber disso, levado por uma agonia intransigente visito meu “eu” de surpresa, num abrupto que até a mim me deixa boquiaberto. Chego sem avisar. No hall da minha chegada um toque de eternidade entre o céu e o meu deslumbramento. 

Passeio por dentro de meu recôndito assim como se caminhasse ao acaso de uma subversão malparida, engendrada de modo mesquinho. Meu íntimo é grande como um campo de concentração perdido num Shangri-Lá qualquer da vida. Por breves momentos, me perco do mundo real feito cego em tiroteio onde reside um não sei o que de múltiplas faces.

De repente me vejo como rima que acabou de perder o sabor do verso. Igual a crônica que deixou de dar à luz ao fim de uma ideia porque a página, num instante fugaz se fez branca sem que se soubesse o motivo. Penso em voltar imediatamente desse passeio esquisito. Aliás, se eu parar para pensar, nem tenho como voltar se nem saí, nem fui para lugar algum.

Mas devo continuar? Sim, devo. Mas para onde? Que lado, que banda? Que rota? Melhor usar a intuição. E o faço marchando em frente, mediado por sendas e becos jamais visitados ou percorridos. Estou propenso a crer (e creio), essa tristeza do nada, sem respaldo nenhum ou coisa alguma explícita, me fez dar voltas e mais voltas em derredor de mim mesmo, como se estivesse num parque de diversões vazio a bordo de um carrossel girando intermitentemente em direção a um oco imensurável.

Embora sufocado e acuado, não posso perder a calma. Menos ainda a serenidade. Sou esperto demais, ladino em excesso, astuto e abelhudo, manhoso e versátil para me dar ao luxo de me ver aprisionado dentro do nada. Desse nada, especificamente. Nada, aqui, se traduz também na figura esquálida de uma tristeza fria, insensata, fora de ordem, destituída do objeto principal, o TUDO.

Essa tristeza do nada, apesar de parecer insana, não é um bicho de sete cabeças que me amedrontará ou me apavorará as ideias. Não será jamais, um tropeço ou motivo que me leve a cair de cabeça num precipício sem retorno. Nada que me tire do sério e me faça pensar em mil loucuras, como por exemplo, pular de uma ponte e mergulhar num mar de águas revoltas.

Nesse relatório de insensatez, não sei se me atenho ao tudo de uma tristeza que não é nada, ou ao nada complexo de uma tristeza que veio de um chão sem prumo e pensou que iria me derrubar se fazendo de poderosa. Em resumo, preciso sair. Fugir me libertar desse aquém do meu coração acelerado, meio que algemado por detrás de portas que se fecharam para mim.

Em circular de meu corpo, de meu espaço, existe um tudo. Tudo é uma tristeza transformada numa xícara de café com leite que bebo a hora que bem entendo... Como se sorvesse um copo de cerveja gelado acompanhado com uma porção de batatinhas fritas. Tristeza do nada, um conselho! 

“Se conselho fosse bom, não se dava, vendia”. Apesar disso, quebrarei a regra existente. Escute. Vá dançar o engano de seus propósitos em outros horizontes. O meu hoje se fez bonito, completo tapeteando o poder divino com um sol de múltiplas cores e facetas. O poder divino está resguardado igualmente de um NADA que se fez TUDO.

Nesse tudo, extirpou a golpes mortais todas às suas investidas para me quebrantar, me decompor e me ver, sobretudo, sucumbido, acamado, prostrado. Imagine só, senhora tristeza: essas acontecência num tempo exato de uma piscadela de olhos entre a ilusão de vedar o eclipse das suas desgraças reverberou no contínuo objetivo de lhe dar um basta e pôr a pique, a sua total e derradeira desaparição.  Portanto, suma, se escafeda. Vase!  Antes, espie. As primeiras gotas da Felicidade plena salpicam em suavidade e avivam expressivamente o meu amanhã. EU VENCI!
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de São Paulo, Capital. 1-10-2019

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