domingo, 12 de janeiro de 2020

Conservadorismo reformista contra a brutalização dos costumes

Num par de gerações, a indisciplina nunca parou de ascender até se tornar a maior ameaça ao ensino, fenômeno que saltou portões e muros das escolas para crescentemente brutalizar a vida social.

Gabriel Mithá Ribeiro

Há pelo menos meio século que a massificação da escolarização fez da sala de aula o espaço, por excelência, onde se decide o destino das sociedades, o mesmo ciclo histórico em que a esquerda a tomou de assalto. Pior só mesmo o arrastar da incapacidade cívica de resgatar a sala de aula, o que mantém as sociedades do mundo ocidental subjugadas à miséria moral e material dos ideais socialistas. A incapacidade ficou espelhada, em 2019, nos mais de oitenta autores que colaboraram em “Linhas Direitas – Cultura e Política à Direita”.


Do livro fica o consolo de um pensamento intelectual, cultural, político ou estratégico que se revitaliza pela valorização da autonomia da sociedade na sua relação com o Estado. Manifesta-se na defesa de valores e princípios sociais e políticos não-socialistas, da liberdade de criação cultural que inclua as tradições identitárias e cristãs do mundo ocidental, da dignificação do mercado e reforma do Estado social, da regulação da imigração, da NATO ou do combate ao politicamente correto ou à ideologia de gênero, entre diversos temas.

Porém, sem uma reforma do ensino condizente tais ambições assentarão em pés de barro, a estafada tentação suicida da direita. Nada se sustenta sem um suporte social sólido e renovável.
Estando presente no livro e nos variados discursos, propostas ou programas do campo político em causa para a educação, todavia esgotam-se no acessório, no contexto de funcionamento da escola, e passam ao largo do essencial, dos bloqueios quotidianos da intimidade da sala de aula e da sensibilidade dos profissionais que aí trabalham.

Alimentar ambições reformistas implica impor a si mesmo o derrube desse muro mental, atitude que obriga a direita a assumir a causa do ensino contra a causa da educação, a desastrosa «paixão pela educação» socialista. A rejeição de um ministério ou política de educação, por troca por um ministério ou política de ensino, garante uma posição de princípio de despolitização da sala de aula. A razão de fundo é a de garantir que escola e sociedade jamais serão confundíveis, limitando-se a primeira a ser uma das muitas instituições da última.

A função social específica da escola é a de ensinar conteúdos científicos, académicos, técnicos ou analíticos, e o valor destes depende da sua capacidade de funcionarem como escudos protetores contra saberes de natureza distinta que corrompem o ensino, em particular os provenientes das ideologias laicas, religiosas ou místicas. Assegurar essa fronteira é travar os riscos crescentes de, no ensino, o médico ou astrônomo se confundirem com o curandeiro ou astrólogo.

Desde a segunda metade do século XX que o bacilo corruptor reside na generalização da mente holística que tudo hiperpolitiza e estatiza, a mente incapaz de conviver com o princípio das instituições terem de ser necessariamente autônomas umas das outras. Como no resto, foi a esquerda quem contaminou a sala de aula ao impor a educação socialista das sociedades, isto é, a subjugação da instituição-ensino às instituições de poder e, bem pior, a subjugação do conhecimento escolar à ideologia política. Nem as ciências ou a matemática hoje escapam, além das disciplinas das humanidades, todas dominadas por um facciosismo ideológico omnipresente nas escolhas pedagógicas, programáticas ou curriculares.

Não é fruto do acaso a dignidade, qualidade e vitalidade do corpo docente e do ensino terem resvalado para um longo e penoso ciclo de erosão, tendência inevitável quando se fragilizam as fronteiras de funcionamento habitual, por um lado, entre a escola e a sociedade e, por outro, entre a escola e as demais instituições, sendo as do campo político as mais nocivas (sindicatos partidarizados, partidos e ideologias progressistas, toda a sorte de ativismos).

Se o ensino contempla uma inevitável componente de educação, a última compete em igual medida a outras instituições. Destacam-se as famílias, igrejas, comunicação social, clubes desportivos, organizações diversas, partidos políticos, por aí adiante. Constituindo obrigação de qualquer instituição regular as atitudes e os comportamentos dos seus membros, pressuposto da sua legitimação social, insistir em remeter a educação para as instituições de ensino é continuar a fazer das últimas, em especial do seu corpo docente, burros de carga de responsabilidades alheias. Não existem instituições capazes de suportar tamanho fardo.

Num par de gerações, a indisciplina nunca parou de ascender até se tornar a maior ameaça ao ensino, fenómeno que entretanto saltou portões e muros das escolas para crescentemente brutalizar a vida social em hospitais, lares de idosos e demais serviços públicos, regressão civilizacional que tem de se reverter onde se iniciou, na intimidade da sala de aula. O problema seria residual se o ambiente ideológico incentivasse, desde a primeira infância, as famílias a cumprirem as suas obrigações educativas, razão para depois exigirem o mesmo às famílias incumpridoras cujos filhos partilham salas de aula.

A sociedade está forçada a ter de se reinventar a partir de um ensino em torno do ensino (dever específico da instituição), passo a redundância, e não de um ensino que seja educação (dever partilhado por outras instituições e pela sociedade no seu conjunto).

Em qualquer dos casos, é indispensável regular atitudes e comportamentos dos indivíduos que depende de bons exemplos, mas acima de tudo da existência de interditos de consciência, as fronteiras simples e claras que os indivíduos antecipam não poder ultrapassar sem consequências penalizadoras efetivas. É esse princípio que institui qualquer ordem moral, evidência magistralmente tipificada há três milênios nos Dez Mandamentos do Antigo Testamento.

As tutelas políticas e acadêmicas andam, há décadas, a forçar os estabelecimentos de ensino a rumarem na direção contrária. Primeiro, foi-lhes imposta a relativização da autoridade dos professores, o que foi deixando os alunos, desde a infância, libertos de referentes comportamentais básicos como terem de estar sentados, quietos e calados na sala de aula. Juntaram-se pressões para a relativização dos deveres de estudo, realização de trabalhos de casa, chegar a horas, não faltar às aulas. Sempre em crescendo, os chumbos pertencem ao rol do que tem de ser relativizado. A autoridade regulatória das direções das escolas também acabou relativizada, e soçobram a cada dia os escudos protetores que permitem a resistência, na intimidade da sala de aula, de um número em si residual de docentes. A bola de neve vai chegando às universidades.

Os interditos que serviam de diques de regulação de atitudes e comportamentos continuam a ceder, o que faz do ensino o retrato mais-que-perfeito da caminhada para a anomia de sistemas que entraram em falência mental (moral e intelectual). Tais processos jamais são fruto do acaso ou de inevitabilidades históricas, antes consequências objetivas de imposições em que a esquerda é imbatível.

Qualquer projeto de renovação social, cultural, econômica, política partirá condicionado pela inevitabilidade de ter de refundar a moral social, o ideal de como devemos ser ou para onde devemos caminhar enquanto coletivo. O caminho é o da moral social da autorresponsabilidade e, em função da sua missão social específica, cada instituição deve orientar as suas respostas.

No caso crucial da sala de aula, a sua funcionalidade depende de valores como ordem, autoridade, tranquilidade, silêncio reflexivo ou introspetivo. Eles dão garantias históricas e empiricamente verificáveis de serem eficazes na promoção da leitura, escrita, cálculo, pensamento, assim como no contributo do ensino para uma vida cívica saudável. Daí que a reforma tenha de ser de sentido conservador, também contra a mais abjeta das ditaduras, a do politicamente correto progressista, a ameaça mais perversa à liberdade intelectual.

Enquanto a direita renegar essa sua missão que implica o comprometimento na defesa intransigente do poder hierárquico e da dignidade do corpo docente (a direita antiga não hesitaria), as sociedades, muito em particular os seus segmentos carenciados, continuarão a pagar o preço da instabilidade, insegurança, falta de coesão e de prosperidade.

Para desfazer dúvidas, a escola não se resume à sala de aula (existe o recreio), muito menos a sociedade se resume à escola. Os valores conservadores referidos (ordem, autoridade, tranquilidade, silêncio reflexivo ou introspetivo) não vivem da ambição de ser hegemônicos na vida social. É nessa condição que asseguram a mais nobre defesa das democracias e das sociedades livres, a preservação e qualificação de contextos institucionais nucleares. É o caso das salas de aula, das salas de audiência dos tribunais ou das instituições religiosas e militares. Mais um ou outro núcleo circunscrito.

Jamais o conservadorismo institucional no sentido referido coloca em causa a legitimidade de espaços e momentos sociais, culturais ou de rua de exposição pública de atitudes e comportamentos alternativos ou de instintos primários toleráveis (correr, saltar, gritar, dizer palavrões, usar boné em espaços fechados, altercar sem controlo, embriagar-se, estar meio-vestido, colocar os pés em cima da mesa, jogar ao telemóvel, atirar objetos, estar liberto de regras, não reconhecer a autoridade, sujar, cuspir, arriscar rituais iniciáticos, entre outros). Numa sociedade livre, é também para permitir isso que as instituições nucleares não foram concebidas para funcionar em modo de carnaval permanente.
Título e Texto: Gabriel Mithá Ribeiro, Observador, 12-1-2020

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