domingo, 24 de maio de 2020

Não há dinheiro que pague a raiz deste pensamento

Tal como acontece com a felicidade o dinheiro ajuda, mas não chega para explicar que o socialismo, ou melhor dizendo, o progressismo, seja o pensamento quase único das redações.

Helena Matos

Enquanto escrevo prossegue a saga dos universos paralelos do governo português. Este é bom porque  internamente avisa que na TAP “Se é o povo português que paga, é bom que seja o povo português a mandar” . Mas é ainda melhor quando exige precisamente o seu contrário aos contribuintes alemães ou holandeses, ou seja, que mandem dinheiro sem condições.

Enquanto escrevo aconteceu mais uma rixa na praia de Carcavelos. Pese as rixas na praia de Carcavelos terem-se tornado um item obrigatório de cada Verão o detalhe noticioso sobre o caso nunca vai além das expressões “grupos rivais” (qual será a rivalidade?) e a “arma branca” (será a faca de fazer sandes?) usada nas rixas entre os ditos grupos rivais.

Foto: Mariline Alves/CM
Vídeo

Enquanto escrevo a Bélgica está a chegar aos 800 mortos por coronavírus por milhão de habitantes. Onde estão as notícias? (Por favor não me venham com a explicação que os números grotescos da Bélgica se devem a uma forma mais rigorosa de contabilizar os mortos porque então o assunto ainda é mais complicado porque isso, a acontecer, pressupõe que de uma forma continuada e sistemática todos os outros países os estarão a contabilizar sem rigor, o que  seria um problema ainda maior).

… Foi preciso o apoio do governo aos media para que isto fosse assim? Não. Há muito tempo que a linguagem dos jornais, rádios e televisões é a versão mediática do socialismo, ou melhor do progressismo. Nesse léxico em vigor nas redações qualquer medida apresentada pela esquerda ou seus derivados, como agora são os ditos ecologistas, chega com o rótulo da opção correta mesmo quando completamente disparatada: recordo que até o Covid ter colocado o turismo a zeros e a economia numa quebra-catástrofe mais que anunciada, éramos inundados com reportagens sobre o turismo que estava a matar as cidades. E agora? Agora fazem de conta que isto nunca aconteceu ou fazem-se eco das declarações sobre a necessidade de uma “nova normalidade” (entendendo-se por “nova normalidade” a imposição do socialismo sanitário) proferidas por atores, milionários e demais gente que usufruiu e usufrui o que há de melhor na velha normalidade.

Enquanto escrevo chegam-me notícias de casais em que ambos se viram de um momento para o outro sem trabalho ou sem receber. Mas as notícias dizem que isto não é austeridade. O que será? Miséria? Ou só existe austeridade quando os ordenados mais altos dos funcionários públicos sofrem cortes?

Enquanto escrevo passo os olhos por sites, revejo programas informativos de rádios e televisões e em todo o lado deparo com essa espécie de Momentos Chuck Norris ,agora na versão Trump ou Bolsonaro. Estou em crer que fazer a notícia do dia sobre os atuais presidentes do Brasil e dos EUA se deve ter tornado num certificado de bom comportamento jornalístico. Não pondo eu em causa que muito há para relatar sobre Trump ou Bolsonaro, não deixa de ser espantoso que esta fixação nestes dois protagonistas seja acompanhada de uma desatenção crescente sobre o resto do mundo e muito particularmente sobre a nossa parte do mundo.

Não há verba em Portugal, e estou em crer no mundo conhecido e por conhecer, que explique que os mesmos jornalistas, sites, rádios e televisões que fumegavam de horror com a transcrição das escutas aquando do escândalo Casa Pia ou com a divulgação das declarações de José de Sócrates ao juiz Carlos Alexandre (na verdade a indignação até ia mais longe pois nem sequer se admitia que pessoas como Paulo Pedroso, Ferro Rodrigues ou José Sócrates fossem alvo de escutas e inquéritos) defendam agora a destituição do presidente do Brasil com base numa gravação.

Enquanto escrevo em várias cidades de Espanha, a começar por Madrid, registraram-se manifestações-marcha automóvel de contestação à política do governo. Onde estão as notícias? Falo de notícias mesmo sobre o que está a acontecer nas ruas de Espanha e não daquelas voltas a mote sobre o Vox. Como a contestação aos governos de esquerda acaba invariavelmente a ser apresentada como obra de radicais, no caso espanhol a responsabilidade por esse gesto contranatura vai para o Vox, partido que os jornais portugueses apresentam como sendo de extrema-direita embora não tenham até agora explicado exatamente o porquê dessa classificação. De qualquer modo a contestação ao governo socialista e comunista de Espanha vai muito para lá do eleitorado do Vox que numas próximas eleições se arrisca até a perder eleitores para um PP em recuperação.

Mais uma vez pergunto: foi necessário o dinheiro do governo para chegarmos aqui? Mais uma vez respondo que não. Muito francamente os governos de esquerda não precisam de pagar para que o estatismo seja o pensamento dominante nas redações. Tudo o que implique maior presença do estado traduz-se jornalisticamente falando nessa palavra sinônimo do Bem no mundo socialista e laico que é o nosso: o apoio. São os delirantes programas autárquicos na habitação traduzidos por apoio aos inquilinos; é o atropelo de regras e direitos elementares nos casos da violência dita doméstica mascarado de apoio às vítimas e sobretudo na fase em que nos encontramos vemos como qualquer contestação a essas medidas ditas de apoio é automaticamente apresentada como sinónimo do Mal. Assim quem contesta os programas de promoção de igualdade de género torna-se machista; quem questiona a razoabilidade da legislação dita de proteção aos animais ou denuncia o seu total desconhecimento do mundo rural vê-se tratado como um maltratador de cães e gatos; quem discorda das políticas ditas multiculturais é apresentado como racista…

Tal como acontece com a felicidade o dinheiro ajuda, mas não chega para explicar que o socialismo, ou melhor dizendo o progressismo, sejam o pensamento quase único das redações.
Título e Texto: Helena Matos, Observador, 24-5-2020, 8h18 

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