quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Meus heróis não morreram de overdose. Alguns dos meus amigos de infância é que morreram no narcotráfico! E foi uma escolha!



Reinaldo Azevedo
Este será um texto difícil, leitores! Avançarei por um trilho que sempre evitei porque tenho tal horror à demagogia que o risco remoto de que nela pudesse resvalar sempre me impediu de continuar. Mas chega a hora, como disse o poeta, em que os bares se fecham. E então restamos com nossas verdades. E elas precisam ser não exatamente anunciadas, mas enunciadas. Chegou a hora de vocês saberem um pouco mais deste escriba. Mas vamos devagar nesta longa viagem noite adentro.
Enganam-se aqueles que supõem que tenho debatido, nestes dias, a formação de chapas para disputar o DCE da USP, da Unirio ou da UFPR. A questão, entendo, é bem mais ampla: trato aqui de regras de civilidade, da democracia e do estado de direito. Espanta-me que seja justamente nas universidades — em particular nas públicas — que direitos essenciais garantidos pela Constituição sejam aviltados; direitos que custaram os esforços de gerações de brasileiros. Modestamente, fiz parte dessa trajetória e corri riscos, desde bem menino, por isso. Constato, não surpreso, mas nem por isso menos indignado, que a defesa da lei no Brasil pode ser, sim, uma atitude perigosa, daí que eu tenha sido obrigado a tomar medidas para a minha proteção. Nem por isso vou desistir. Releiam o título deste post. Eu vou chegar lá.
Ontem, enquanto alguns leitores de Vladimir Safatle, o professor pró-invasão, liam a sua corajosa fuga do debate (ver post abaixo), um panfleto era distribuído na USP, com tiragem anunciada de 3 mil exemplares. Ataca-me com impressionante violência. Mais do que isso: incita o ódio, a agressão. Acusa-me, em última instância, de interferir numa questão que seus autores parecem considerar privada. Isto mesmo: eles privatizaram a Universidade de São Paulo e rejeitam por princípio a crítica. O curioso é que, em sua não-resposta, Safatle me acusava — este rapaz precisa tomar cuidado com seu eventual lado mitômano — de promover a violência retórica. Escreveu em sua “não-resposta” que ele pertence àquela categoria de pessoas que“nunca responderão a situações nas quais a palavra escrita resvala para o pugilato, nas quais ela flerta com as cenas da mais tosca briga de rua com seus palavrões e suas acusações ‘ad hominen‘. Seria, simplesmente, ignorar a força seletiva do estilo.” Bem, noto à margem que o latim de Safatle não é melhor do que seu português, sua filosofia, seus argumentos e seu talento de polemista. O certo é “ad hominem”, com “m”. A alternativa é não recorrer ao latim.
Não, eu não desferi um só palavrão contra este rapaz. Em compensação, aqueles aos quais ele dá suporte — costuma ministrar “aulas” em áreas públicas ocupadas, como já fez em Salvador! — percorrem todo o vocabulário da desqualificação para me atacar, com impressionante vulgaridade e boçalidade. Em suma: acusam-me de promover aquilo que eles próprios promovem. Quando um delinqüente intelectual divulga um panfleto asqueroso, que faz a apologia da pancadaria e da tortura, em vez de pedirem cadeia para o autor, preferem jogá-lo nas costas de seus adversários. É uma gente, parece, para a qual o crime sempre é útil, os próprios  ou os alheios.


Ataques e povo consumidor
Nos ataques que prosperam na rede, as Mafaldinhas e os remelentos mimados me acusam, ora vejam!, de ser um representante da “classe dominante” — ou de estar a serviço dela — e fechar os olhos e tapar os ouvidos ao sofrimento do povo, de que eles seriam os procuradores. Se o povo os ignora e, na verdade, repudia a sua pauta, então é porque está ainda esmagado pela opressão do capital e pelas artimanhas da ideologia dominante, que lhe incute uma falsa consciência que o impede de ter clareza de seu papel revolucionário. É aí que entra, então, o partido — o deles — com o seu papel de vanguarda e de organizador da luta. Escrevo isso e dou um meio-suspiro. Imaginem vocês se Marx estabeleceria esse encadeamento se os “revolucionários” em questão fossem estudantes universitários…
O que essa gente sabe “do povo”, Deus Meu? No máximo, tem notícia dele por intermédio de suas respectivas empregadas, certamente mais “reacionárias” do que eles próprios. Esses radicais, que hoje se querem à esquerda do PT — os petistas assistem aos absurdos da USP pensando apenas em como tirar proveito eleitoral do episódio —, explicam por que foi um operário meio ignorantão, Luiz Inácio Lula da Silva, a empurrá-los para a absoluta indigência intelectual e para o flerte com o banditismo.
Se Lula e seu PT têm promovido o que considero um contínuo rebaixamento institucional do Brasil por conta do aparelhamento do estado e de sua vocação para se estabelecer como partido único, o que certa esquerda considera “progressista”, é fato que o sucesso do Apedeuta, desde quando era sindicalista, se deve justamente a aspectos de sua pregação que esses radicalóides consideram “conservadores”, até mesmo reacionários. Desde quando era presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, Lula prega a uma platéia de consumidores, não de revolucionários. As três campanhas eleitorais vencidas pelo PT exercitaram, todos sabemos, à farta a lógica do “nós” contra “eles” — aquela bobajada tipicamente esquerdista —, mas sempre ancoradas na democratização das conquistas do capitalismo. Há, sim, uma vasta literatura de esquerda que provaria que Lula é um grande “reacionário”.
O ponto, meus caros, é que o povo vive o, como chamarei?, “malaise” da carência, enquanto esses esquerdistas enfatuados conhecem o “malaise” da abastança. PCO, LER-QI, PSOL e assemelhados oferecem “consciência revolucionária” aos pobres, e estes querem é geladeira nova. Os extremistas do sucrilho e do toddynho lhes propõem utopias, e eles estão de olho no computador. Os delirantes, em suma, lhes acenam com o socialismo, e eles só esperam que o capitalismo também lhes sorria. Foi Lula quem conduziu esses delinqüentes intelectuais para o hospício da política. Em certa medida, ninguém foi, segundo a ótica deles, mais contra-revolucionário do que o ex-presidente — o que não quer dizer que ele seja um democrata convicto. Eu não considero.

Desconhecem o povo
Esses extremistas de terceiro grau, sejam alunos, professores ou funcionários, não sabem o que é o povo, quem é o povo, o que quer o povo — e o resultado que logram nas urnas deixa isso muito claro. E então virá a pergunta fatal: “E você, Reinaldo, conhece?” Pois é, conheço, sim! SEM ME CONSIDERAR SEU REPRESENTANTE PORQUE NÃO FUI ELEITO POR NINGUÉM, DEIXO CLARO! E agora começa o caminho um tanto pedregoso, que sempre evitei, porque tenho verdadeiro asco de certas parvoíces sociologizantes. Mais do que isso: a cada vez que vi Lula tentando justificar algumas de suas escolhas equivocadas por causa de sua infância pobrezinha, meu estômago deu alguns corcovos. O Lula que mobilizou os consumidores, se querem saber, merece o meu respeito. O Lula que tenta fazer da pobreza uma cultura merece o meu solene desprezo.
Vamos lá, Reinaldão, coragem! Sabem os meus familiares, sabem os meus amigos próximos, alguns deles jornalistas (sim, os tenho, e queridos!), que fui muito pobre, muito mesmo! E nunca dei uma de coitadinho porque não pode haver poder mais discricionário e asqueroso do que o das vítimas — de quaisquer vítimas — se transformado em categoria de pensamento. A pobreza não existe nem para culpar nem para enobrecer ninguém. Vamos lá ao título. Não! Os meus heróis não morreram de overdose porque isso é luxo que não se consente a determinadas faixas de renda. Essa “overdose” sempre supõe que o tal “herói” foi uma espécie de paladino da luta contra a opressão. Qual opressão? Qualquer uma que possa servir de pretexto para enfiar o pé na jaca.
Se meus heróis não morreram de overdose, tive, isto sim, amigos de infância e pais de amigos que se meteram com a bandidagem e o narcotráfico e que hoje estão mortos. Morreram de “overbalas”. Meu pai trocava molas de caminhão; minha mãe chegou a trabalhar como doméstica. Não me orgulho da profissão que tiveram. Orgulho-me das pessoas que eram — minha mãe, felizmente, viva, forte e ainda mais cheia de opiniões do que eu, hehe. Orgulho-me de seu caráter. Orgulho-me de seu senso de honra. Morei em dois cômodos de madeira até os 5 anos; depois, em dois cômodos de alvenaria até os 15. No fundo do terreno, corria um rio fétido. Nas chuvas, a água invadia a casa. O que isso me ensinou? Digo daqui a pouco. E talvez surpreenda muita gente!

Eu era livre para escolher
Tive todas as oportunidades de delinqüir, às quais alguns sucumbiram, numa periferia aonde o asfalto chegou tardiamente, para ter um “Kichute” novo (ainda existe?), uma calça “Lee Americana”, como chamávamos à época, uma “vitrola” para os bailinhos — faziam-se “bailinhos” então. E sempre disse “não!” E fiquei sem o Kichute, a Lee Americana e a vitrola. Eu tenho uma novidade para esses delinqüentes encapuzados e seus professores picaretas: OS POBRES TAMBÉM FAZEM ESCOLHAS MORAIS. Não são umas bestas à espera da iluminação que vocês possam proporcionar. Aliás, eles as fazem mais freqüentemente do que os abastados porque, de fato, suas carências são maiores e maiores as chances de tentação de encontrar um caminho mais curto para obter o desejado.
Disse “não” muitas vezes — e não vai nisso heroísmo nenhum! Não fui o único. Sempre que leio textos de supostos especialistas a demonstrar como os pobres da periferia são vítimas passivas das circunstâncias, sou tentado a pegar um chicote. Porque essa gente não sabe O que nem DO que está falando.
Não, eu não acho que essa minha origem me qualifique para isso ou para aquilo. Não me liguei a grupos socialistas porque quisesse subir na vida (claro!) ou porque achasse que o estado tinha a obrigação de me dar moradia ou o que fosse. A minha questão, desde sempre, tinha a ver com a democracia. Achava, e ainda acho, inaceitável que um governo possa decidir o que devemos pensar, o que devemos dizer, o que devemos calar. Nem governos nem milícias comuno-fascistas da USP ou de qualquer outro lugar.
A propósito da ignorância dos extremistas. Lembro-me, eu tinha 15 anos, de uma “aula” com um “intelequitual” da Convergência Socialista (que está na pré-história do PSTU) a esculhambar o então apenas “sindicalista” Lula, em começo de carreira, porque este seria um “reformista”, empenhado “apenas” em conquistar salários melhores, o que, entendi, era ruim para a libertação dos trabalhadores. O que aquela gente sabia do povo, Deus Meu? Nada! O que sabe ainda hoje? Nada!
Todos os dias, recebo centenas de comentários mais ou menos assim: “Você, que nunca andou de ônibus…”; “Você, que nunca andou de trem…”; “Você, que nasceu em berço de ouro…” Costumo ignorar porque tenho outra novidade para os delinqüentes encapuzados: a abastança pode ser tão opressora quanto a carência! Os que não sabem o que fazer dos benefícios que herdaram podem ter um destino tão ou mais duro do que os que não sabem o que fazer das carências que herdaram. O ponto, desde sempre, não é o que fizeram de você, mas o que você vai fazer do que fizeram de você, compreenderam?

Ignorância com efeitos trágicos
Essa ignorância do que são e do que querem os pobres tem efeito terrível na vida dos próprios pobres. A cada vez que vejo ONGs nas favelas do Rio ou na periferia de São Paulo ensinando criança pobre a batucar, a fazer rap, a fazer funk (lá vem chiadeira…), vem-me de novo a vontade de pegar o chicote. Por que pobre tem de batucar? Aos 14 anos, eu já tinha lido toda a poesia de Cecília Meireles e boa parte do que sei de Drummond, por exemplo. Ali, na cozinha de casa. Não porque eu fosse um gênio, o que não sou, mas porque há pobres que se interessam por literatura e não estão dispostos a representar o papel de pobres para satisfazer os anseios dos remelentos e das Mafaldinhas revolucionárias. E não estão dispostos pela simples e óbvia razão de que… JÁ SÃO POBRES. NÃO PRECISAM REPRESENTAR!
Eu conheço o povo, aqueles alunos e professores remelentos não conhecem. Para a chateação e a fúria deles todos, conheço também os textos que lhes servem de referência, com a ligeira diferença de que os li. Safatle, aquele rapaz do cinturão do agronegócio, a esta altura, deve estar radiante: “Eu sabia! Esse Reinaldo é um pobre que se tornou reacionário para subir na vida; um arrivista!” E se sentirá, então, pacificado. Ele, das classes abastadas, se regozijará com a generosidade de sua entrega à causa popular, mesmo vindo das camadas superiores. Já eu, vejam que desastre!, em vez de estar na rua, carregando bandeira; em vez de estar empenhado na libertação da minha classe; em vez de estar exercendo o papel que me foi reservado pelo marxismo sem imaginação dessa canalha, eu, olhem que coisa!, estou aqui a dizer para Safatle que sua citação de um texto de referência é descabida. Corrijo também o seu português. Corrijo, para arremate dos males, o seu latim. Pobre reacionário é mesmo uma merda, né, Safatle? É só ler alguma coisinha, já sai corrigindo os ricos progressistas…

Por que isso tudo?
Por que isso tudo? Para tentar ganhar algumas credenciais junto à escumalha moral que anda me satanizando por aí? Eu quero mais é que essa gente se dane. Mas não venha, como se dizia na minha vila, “botar panca” (sim, o certo é “banca”) pra cima de mim, tentando me dar aula do que é povo, do que é pobreza, do que é carência. Eu lhes ensino, seus delinqüentes, como transformar dois ovos e um tomate numa refeição para quatro pessoas, com o acréscimo de farinha de rosca numa omelete sem queijo e sem presunto. A boa notícia para nós é que era gostoso. Fiz Dona Reinalda preparar o prato dia desses. Ficou bom, mas não era a mesma coisa, porque, para citar um trecho que decorei de “No Caminho de Swann, de Proust (só trechinhos, viu? Não quero passar falsas impressões, hehe), “tentamos achar nas coisas, que, por isso, nos são preciosas, o reflexo que nossa alma projetou sobre elas, e desiludimo-nos ao verificar que as coisas parecem desprovidas, na natureza, do encanto que deviam, em nosso pensamento, à vizinhança de certas idéias”. No caso, a omelete de farinha de rosca estava ali, mas as circunstâncias eram outras, como a água do rio que não passa duas vezes pelo mesmo lugar.
A minha história não me faz nem mais nem menos qualificado para coisa nenhuma! Também a pobreza pregressa não é categoria de pensamento. Eu espero que aqueles vagabundos que ficam demonizando meu nome por aí me desprezem ainda mais por isso. Têm a chance de descobrir que as nossas diferenças não estão apenas nas escolhas, mas também nas origens. A pobreza não me ensinou nada de especial. Cabe a cada um de nós o esforço ao menos de tomar a rédea do nosso destino, feito muito mais de opções do que freqüentemente supomos. Mas isso não é uma particularidade da pobreza. Também os ricos, reitero, podem ser oprimidos pela riqueza. “Mas qual opressão é melhor?”, pode perguntar um cínico.
Olhem aqui, minhas caras, meus caros, é claro que governos e políticas públicas têm de se ocupar da melhoria das condições de vida do povo. Com uma escola melhor, uma saúde melhor, uma segurança melhor, aumentam as chances de felicidade. Negá-lo seria uma estupidez. Chances de felicidade, no entanto, não são felicidade garantida. Na pobreza ou na abastança, o que quer que nos faça infelizes sempre está dentro de nós. E não há revolução que dê jeito.
Ah, sim: algum anseio insatisfeito da pobreza ainda me assalta hoje, já que “o menino é o pai do homem”, como escreveu Wordsworth, frase depois retomada por Machado de Assis em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”?
Um ferrorama lindão, gigantesco, cheio de traquitanas. No mais, nada faltou, nada excedeu. Cada vida existe na sua exata medida.
Beijo do Tio Rei.
Título, Imagem e Texto: Reinaldo Azevedo, 23-11-2011

Professor pró-invasão da USP fica dodói e diz que assim não quer brincar. Ah… Mas eu quero!

Vladimir Safatle, professor da USP e articulista da Folha, escreve hoje um artigo intitulado “Sem resposta”. É pra mim. De saída, noto algo interessante em seu procedimento. De tal sorte considera que todos os seus eventuais leitores sabem quem sou e o que escrevi a seu respeito que acha dispensável citar meu nome. Mas eu não tenho receio de citar o seu. Vamos lá, com o seu artigo em vermelho e os meus comentários em azul. Garanto que vocês vão se divertir.
“O estilo é o próprio homem.” Essa frase do conde de Buffon, enunciada à ocasião de sua entrada na Academia Francesa, merece ser levada a sério.
Ela nos lembra como determinados homens sabem que nada lhes é mais importante do que conservar um certo tom, uma forma que aparece, sobretudo, na palavra escrita. Eles sabem que, se perderem tal forma, trairão o que lhes é mais importante, a saber, um modo de ser.
Oba! Eu gosto do discurso de Buffon. O primeiro trabalho na faculdade de que realmente me orgulhei foi sobre esse texto. Vamos ver.
Isso talvez explique porque eles nunca responderão a situações nas quais a palavra escrita resvala para o pugilato, nas quais ela flerta com as cenas da mais tosca briga de rua com seus palavrões e suas acusações “ad hominen”. Seria, simplesmente, ignorar a força seletiva do estilo.Huuummm… Safatle cita Buffon, mas não estou certo de que o tenha lido. Deixo isso para uma nota de rodapé. Compreendo que ele tenha decidido sair correndo para demonstrar seu estilo e sua coragem. Eu apontei já faz algum tempo o seu flerte com o terrorismo numa resenha que escreveu de um livro de Slavoj Zizek — seguindo a trilha da delinqüência intelectual do resenhado. Em seu artigo, Safatle, desrespeitando as lições de Buffon, que recomenda a busca da simplicidade e da clareza, tratou os terroristas como “sujeitos não-substanciais que tendem a se manifestar como pura potência disruptiva e negativa”. Huuummm… Como tenho bom humor, fazer o quê?, afirmei que um pum no elevador também é um “sujeito não-substancial que tende a se manifestar como pura potência disruptiva e negativa”. Ou não?
Fui generoso com ele. Com essa embromação, este senhor estava admitindo no universo das pessoas aceitáveis os facínoras que explodem crianças em Israel ou no Iraque, que destroem edifícios em Nova York, matando três mil pessoas, que interrompem vidas nos subterrâneos do metrô em Madri e que lançaram o mundo numa paranóia que deixou a vida mais triste. E tudo porque eles entendem que terror é política. Com a minha metáfora do “pum”, tentei poupar Safatle de algo muito pior: o seu próprio pensamento.
Ele preferiu não responder. Não se sentiu atingido. O que o deixou magoado foi outra coisa. Safatle decidiu ser uma espécie de animador de auditório da invasão da reitoria promovida pelos encapuzados da USP. Mais do que isso: mostrou-se um crítico severo do restabelecimento do estado de direito na universidade, que entrou com um pedido de reintegração de posse. E está bravo comigo porque sugeri que ele fosse defender os sem-terra que invadiram uma fazenda de sua família em Catalão, em Goiás.
Os Safatles fizeram o quê? Ora, entraram com um pedido de… reintegração de posse! É o normal nesses casos, não? E olhem que não há dúvida sobre quem é o dono da USP: é o povo de São Paulo — logo, ela não pode ser privatizada pelos invasores. Mas há dúvidas sobre quem é o dono da tal fazenda, que está enrolada com o Banco do Brasil. Uma das pichações no prédio invadido recomendava: “Invada a reitoria que existe em você”, num misto, assim, de PCO com Gabriel Chalita; um troço meio “socialismo da auto-ajuda”. O que direi a Safatle, um estudioso, consta, de Lacan? “Conteste o reitor que você tem em casa”. Eu tambémdemonstrei que ele cometeu um erro de matemática na análise que fez do ranking das universidades. É uma questão de conta. Dois mais dois serão sempre quatro, pouco importa a ideologia de quem soma.
“Palavrões”? Quais palavrões? Não há nenhum nos textos em que interpelo o “intelectual” Safatle! Neste momento, circula um panfleto xexelento na USP que só não me chama de santo. O resto vale. Foi redigido e impresso por aliados do professor, gente que ele paparica. Eu não xingo ninguém. Em primeiro lugar, não é do meu feitio. Em segundo, a VEJA Online não permitiria. As opiniões que expresso aqui são minhas, não do site, mas há regras.
Argumento “ad hominem” por quê? Não contestei suas idéias porque ele é feio, careca, míope, tem barbicha ou mimetize os terninhos de outro Vladimir, o Lênin. Não o faria nem que eu fosse o jovem Alain Delon. Infelizmente, não sou. Eu o convoquei a vivenciar, na prática, as suas idéias revolucionárias, como fez, por exemplo, o jovem Trotsky, que abandonou o pai latifundiário. Que mal há nisso? Por que uma pessoa que defende invasores da reitoria da USP não defenderia sem-terra invasores da fazenda da família? Que justiça social bastarda é essa que pula o próprio quintal? Nessas coisas, eu sou severo, sabem? Cansei de ver bacanas comprometidos com a justiça social, mas que se negam a registrar em carteira suas respectivas empregadas domésticas, como a minha mãe foi um dia. Como se vê, eu tenho compromisso de classe. Pelo visto, Safatle também!
Ah, sim, na linha “o estilo é homem”, professor Safatle, lembro que o certo, no caso do seu texto, é “por que”, não “porque”. Lembre-se de Buffon: é preciso prezar a língua.
Ele aproxima certas pessoas, mesmo que suas ideias sejam radicalmente antagônicas, assim como afasta definitivamente outras.
O “ele”, aí, é o estilo. Bem, eu não quero me aproximar nem me distanciar de ninguém. Sigo uma regra básica: as pessoas dizem o que pensam, e eu digo o que penso. O problema, em certos círculos, é que você só é considerado gente “do bem” se escrever o que eles pensam. Aí não dá!
Houve uma época, não muito distante, que o pensamento conservador teve mais estilo. Há de se reconhecer que, para alguém de esquerda, seria uma experiência de aprimoramento discutir com conservadores como Daniel Bell, Leo Strauss, Isaiah Berlin ou mesmo com o anarcocapitalista Robert Nozick, entre tantos outros de inegável inteligência. Ganha-se em precisão quando ouvimos oponentes sem precisar reduzi-los a caricatura.
No Brasil, atualmente somos obrigados a ter certa nostalgia da época em que o pensamento conservador nacional conseguia produzir alguém como José Guilherme Merquior, mesmo que este tenha terminado como ghost-writer de Fernando Collor. De toda forma, ao menos ele realmente lia os autores que criticava, o que parece ter se tornado algo supérfluo nos dias que correm.
Vamos lá, com Buffon: “houve uma época em que…”; “reduzi-los à caricatura”. Notem: eu faço essas observações de língua porque quem, de saída, escolheu Buffon foi Safatle, não eu. Não se faz uma citação como essa para sair, em seguida, atropelando a base material do discurso. Agora vamos ao que ele diz, já que o modo como diz se mostra, e não é a primeira vez, sofrível. O estilo é o homem.
Os leitores mais jovens não sabem e os que não acompanhavam certos embates intelectuais também o ignoram. Quando vivo, José Guilherme Merquior era impiedosamente esculhambado. Era chamado de “fascista” pra baixo. Os esquerdistas passaram a prezá-lo depois que morreu, evidenciando, mais uma vez, a sua moral torta: “direitista bom é direitista morto”.
Merquior cometeu a grande ousadia de PROVAR que o livro “Cultura e Democracia”, de Marilena Chaui, mestra de Safatle, era um plágio de um texto de Claude Lefort — era evidente, vexaminoso, escandaloso. Sabem como a esquerda reagiu, naqueles tempos pré-Internet, pré-Facebook? Com um abaixo-assinado contra… Merquior! Adivinhem do que foi chamado… “Fascista”, “direitista”, “reacionário”… O próprio Lefort, que mantinha, à época, relações muito próximas com Marilena, veio a público para dizer que se tratava de uma tentativa da “direita de desautorizar um pensamento de esquerda”, como se a opinião do plagiado mudasse o que estava à vista de todos: o plágio.
Ora, Safatle… A direita já foi melhor? É possível! Jamais me ocorreu emular com Merquior, por exemplo. Ocorre que a esquerda também já foi melhor! Teve Caio Prado Junior, por exemplo, e hoje tem Vladimir Safatle. Ele era, na origem ao menos, até mais latifundiário do que você — sei: você não gosta do meu senso de humor, né? Que pena! Se formos pensar numa escala maior, já teve Trotsky, um facínora realmente talentoso; hoje, tem Zizek.
Os esquerdistas nativos são de tal sorte pretensiosos e autoritários que acham que podem escolher com qual direita é possível discutir: “Ah, com essa, não! Eu quero outra…” Entendo. De todo modo, essa condição de “representante” da direita me é outorgada por ele. Eu apenas digo o que penso. Eis o meu crime.
Na verdade, hoje tem-se a impressão de que os conservadores rumam para transformar Glenn Beck, com sua finesse intelectual de comentarista político da Fox News e seus fieis leitores de Oklahoma (ou qualquer outra província perdida no interior dos EUA), em ideal de vida. Ou seja, seu ideal de discussão é aquele dos radialistas rasos da América profunda. O mínimo que se pode dizer é que sofrem de um problema radical de estilo.Ah, não! Safatle, antes de qualquer outra coisa, escreve mal e argumenta mal. Se lhe disseram o contrário em algum momento, foi por amizade, afinidade ideológica ou piedade. Ou porque ele está sempre incensando a causa de radicais mais ignorantes do que ele próprio. Também é possível que as suas tias de Catalão o considerem um gênio. Não caia nessa, viu, Safatle. As minhas também me acham o máximo… Ele falar de “estilo” como se fosse autor de um grande texto… Aí já lhe falta senso de ridículo.
Que coisa, este rapaz! Num ato ILEGAL em defesa da candidatura de Dilma Rousseff na USP, de que ele foi um dos destaques, evocou as suas origens goianas para demonstrar a sua disposição de luta: “A gente dá um boi pra não entrar numa briga e uma boiada pra não sair”. Uma metáfora bastante rural, não é mesmo? A propósito: nesse ato, afirmou, como se fosse algo criminoso, que a oposição havia vencido no “cinturão do agronegócio”. O que fiz no texto que o deixou tão ofendido foi mostrar a sua proximidade com o… agronegócio, que ele estava criminalizando politicamente.
A propósito, Safatle: você é contra o direito de voto também para o povo de Catalão, incluindo os sem-terra que ocuparam as terras que seu pai reivindica (e também o Banco do Brasil), ou você é contra o direito de voto apenas para o povo de Oklahoma que eventualmente ouve Glenn Beck?
Eu não me ofendo de ser chamado de “Glenn Beck”, não! Chego a lamentar que isso seja falso por um monte de razões. Ele é um exemplo da força da democracia americana, ainda que eu não goste do seu estilo. Se esse professor tivesse o mínimo de compromisso com o ofício para o qual é pago — o pensamento, não a militância política —, tentaria estudar os motivos de a gente não ter nada parecido no Brasil. Não sou o Glenn Beck daqui, reitero e lamento. Um apresentador de TV que pusesse no ar a imagem do presidente da República e o atacasse com a virulência característica dos apresentadores da Fox News seria demitido no mesmo dia. Se não fosse, os patrocinadores todos sairiam correndo.
Sabe por que isso, Safatle? Porque, infelizmente, a sociedade civil brasileira é mais fraca do que a sociedade civil americana! Nos EUA, é simplesmente inconcebível que alguém possa ser punido ou sofrer retaliação por divergir do poder, não importa com que intensidade. O Brasil tem todos os puxa-sacos do poder que tem a CNN, mas se tem por inconcebível  que possa haver o outro lado, os “conservadores” da Fox News.
Por sinal, que existam “fieis leitores” a validar tais procedimentos, eis algo que não deve nos estranhar. Quando um pensamento chega perto do fim, ele tende a gritar de maneira desesperada e violenta.Ele pede a adesão incondicional e tal pedido ressoa, principalmente, na mente daqueles cujo último riso é apenas o sarcasmo da autoglorificação e do ressentimento.Não sei o que faz aí esse “por sinal” (né, Buffon?), mas deixo pra lá. Como bom esquerdista, Safatle me acusa e aos meus leitores daquilo que ele próprio promove, com o apoio dos seus seguidores. Sou alvo de uma campanha feroz na Internet e no campus da USP — coisa que eu esperava. Por isso, anuncio, denuncio, mas não reclamo. Tanto os encapuzados das universidades como os fascistóides assumidos deixam claro que me detestam. E eu não posso censurá-los por isso. Eles, sim, xingam, fazem acusações, atribuem-me intenções sub-reptícias… Acusam-me até, imaginem que absurdo!, de receber salário!!! Quanto ao “pensamento perto do fim”, dizer o quê? Julguem os senhores se o que morreu foi o “socialismo” de Safatle ou o, vá lá, “capitalismo” de Reinaldo Azevedo — se bem que não devo me esquecer de que falo com alguém que pertence ao “cinturão do agronegócio”.
Tudo o que se pode desejar a esse respeito é que seu riso seja bem pago. Amém. Outros preferem ver esse espetáculo em silêncio.Safatle tem a ligeira desconfiança de que não vivo de vento. Sim, eu ganho pelo meu trabalho. E sou bem-pago. Comecei a trabalhar com 15 e não reclamo de salário desde os 18.  O “proprietário” Safatle deve achar que esse negócio de “começar a trabalhar com 15″ faz os ressentidos. Pode ser… Você viu, né, Safatle?, o que fez Stálin, o filho do sapateiro… Agora uma coisa é certa, rapaz: desde os 15 vivo com o meu próprio dinheiro, sem a ajuda do Banco do Brasil. Mais: desde os 15, trabalho na iniciativa privada, e jamais pedi que o estado financiasse a minha vagabundagem. Desde os 15, exponho-me ao risco da concorrência, sem esperar que os impostos pagos pelos desdentados sustentem o meu radicalismo. Se e quando eu apoiar invasores da USP, não terei de explicar por que não apóio os invasores da fazenda de papai.
PS - Convoco aqui especialistas em literatura — e ainda os há no Brasil — para atestar que Safatle dá mostras de não ter lido  o discurso de Buffon. Ou, se leu, não entendeu. A íntegra do texto está aqui. Buffon censura o arrevesamento das idéias simples, é verdade, mas adverte: ” (…) ceux qui écrivent comme ils parlent, quoiqu’ils parlent très-bien, écrivent mal”: os que escrevem como falam, ainda que falem muito bem, escrevem mal”. Logo, entende que o texto escrito, com efeito, difere da fala — o que, convenham, é, como se diz em Dois Córregos e se deve dizer lá em Catalão, uma idéia carne-de-vaca. Mas não é só isso: Buffon só assegura que o “estilo é o próprio homem” porque faz uma digressão sobre o que eu chamaria de “caráter do texto”, que é uma metáfora, para ele ao menos, do caráter do próprio autor no que diz respeito ao compromisso com a verdade, com a correção, com o apuro técnico. Leia ou releia o texto de Buffon, Safatle! Ali ele dá algumas dicas de como casar a firmeza do conteúdo com a forma. Não é um texto de fuga.
É besteira tentar me assustar, rapaz! Você quer o aplauso dos seus eventuais leitores apenas gritando: “Olhe como esse Reinaldo Azevedo é bruto”. Os meus até podem me aplaudir  — às vezes, brigam muito comigo —, mas é porque DEMONSTREI a ruindade dos seus argumentos. De fato, à parte o seu flerte intelectual com o terrorismo, o que é inaceitável e perigoso, eu o considero mais bobo do que bruto. Mas digo por quê.
Texto publicado originalmente às 18h51 desta terça

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