terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

[Aparecido rasga o verbo] De Pertuito Estinhar à “Infundibuliforme”

Aparecido Raimundo de Souza

UMA COISA SE TINHA como certa, além da morte. Mário Pertuito Estinhar era feio. Bota deselegância nisto. Mais disforme que briga de foice no escuro. Não. Briga de foice no escuro, certamente fichinha, se comparada ao sujeito. Mais assustador que o filho caçula do Tinhoso, com a sua atual esposa, Dilma Rouboussett.

O capetinha temporão, batizado como Luiz Inácio (em homenagem ao ex-presidente Lula, que prometeu um tríplex ao senhor das profundas, em Guarujá) todo dia, pela manhã, aprendia, com seu pai Rabudo, a fustigar, com um tridente, as novas almas chegadas ao inferno. Isto não vem ao caso.

Mário Pertuito Estinhar, de dezoito anos, queria estudar e ser oftalmotorrinoralingologista. Não dava, pelos poucos recursos do pai. O estudo da matéria, como o nome da profissão, era longo demais. Afora isto, morava em Santa Cruz, final da linha da Central do Brasil. Santa Cruz nada. Croácia. Um bairro perto da casa, ou melhor, mesma avenida do famoso Wellington Menezes de Oliveira (aquele maluco que em 2011 massacrou um monte de crianças na escola municipal Tasso da Silveira, em Realengo, zona oeste do Rio de Janeiro).  Isto também não vem ao caso. 

Nosso objetivo é o Mário Pertuito Estinhar. Feio até dizer chega. Mário nascera filho de Francisco Pertuito (carinhosamente Chiquinho Pertuito) e dona Sebastiana Pertuito Estinhar. O Estinhar, portanto, ascendia da mãe, dona Sebastiana (conhecida na Croácia e adjacências como dona Aninha Bombril) em face de trabalhar com um punhado de coisas diferentes.

Na segunda, por exemplo, dona Aninha lavava e passava, para uma família em Realengo. Na quarta-feira, tomava conta de um idoso em Bangu, e, nos finais de semana, fazia um bico como doméstica em Senador Camará. Logicamente isto também não vem ao caso.

Igualmente feios, o casal tinha um orgulho danado do Mário. Acentuado este orgulho, mais até que a de Maíra, a irmã de Mário, dois anos mais nova. Maíra nascera para ser doméstica, casar, ter filhos, cuidar do marido. Já o Mário... o rapazola se mostrava craque com a bola. Num campo de futebol, não havia quem alcançasse a sua performance, o seu desempenho. Driblava como ninguém. Assemelhava ao Neymar Júnior. Ou melhor, Neymar perto dele, merda elevada ao quadrado. Recentemente o técnico Abel Braga do Flamengo, ao vê-lo atuar numa partida de futebol, em Japeri, fizera um convite para que entrasse para o clube.

Até aqui tudo nos conformes? OK! Por ser um exímio jogador, um quase insubstituível atacante, Mário recebia convites para jogar em pequenos clubes. Assim, pouco parava em casa.  Viajava para cima e para baixo. Filiado a uma galera da própria Croácia, onde o time “Os garotos Croacianos imbatíveis” fosse jogar, não podia faltar o Mário desengraçado. A sua difícil e sofrida feiura chegou a tal ponto que os colegas de bola lhe arranjaram um apelido esquisito, quase desproposital, verdade seja dita.

Entretanto, como a criatura, de fato, não poderia jamais ser comparada a um Cauã Reimond, ou ao Reynaldo Gianecchini. Seria pretensão demais. Para concorrer com ele, o Russo (lembram do Russo?) assistente de palco da Rede Globo, desde a época do Chacrinha, um galã. A alcunha que lhe arranjaram caíra nos conformes. Mário, coitado humilde, ignaro, dócil e manso, pouco se lixava se a turma o achava malparido e desengonçado.


O importante. A feiura, a sua feiura se tornava bonita, linda e maravilhosa quando entrava em campo e arrancava os aplausos da multidão (a turba da arquibancada se polvoroisava e entrava numa espécie de ginge, com a sua atuação excepcional e magnanimamente inquestionável), posto que a sua desenvoltura com os pés se tornara imbatível. O seu requebro, o seu bamboleio, a sua destreza voavam alto e se transvertiam inconfundíveis.

Por ser magro e sem simetria (lembrava um funil espaçoso em cima e magérrimamente afilado do pescoço para baixo) a primeira vista dava medo encarar a figura. Além de ser náfego dos quadris, tinha a voz iscnofônica. Assim, de funil chegaram ao meigo “Infundibuliforme”.

Para aqueles que não sabem, esta palavrinha se traduz, ou se entende, por tudo aquilo que tem a forma de um cone, um utensílio terminado por um tubo de boca estreita.  O epíteto pegou. Por sorte ou azar, se alastrou de tal maneira que o tópico virou febre. Como doença até então desconhecida, se fez aquilatado e cotado num abrir e piscar de olhos.

De repente, o Mário Pertuito (pertuito passagem estreita ou boca miúda) feio saiu de cena e a sua exterioridade passou a ser conhecida pelo novo simulacro. “Amanhã jogaremos na Ilha do Governador. Chamem todo mundo. Não esqueçam pelo amor de Deus, do Estinhar (estinhar significa tirar o mel da abelha desde que ela seja abelha e não um zangão) digo, do ‘Infundibuliforme’”.

Nesse tom, o Mário, ou melhor, o “Infundibuliforme”, se fosse olvidado, o técnico “Arara” virava não uma arara. Metamorfoseava um sugócio leão rugente e rugoso, capaz de devorar vivo, um por um, os atletas sob a sua batuta, e ainda, de sobremesa, comer o Chicozinho (o gandúla) e palitar os dentes com a irmã dele, a Evinha, que, de linda, lembrava a atriz Sabrina Petráglia.

Em pouco tempo, o jovem “Infundibuliforme” virou uma celebridade. Não demorou, o time Croaciano passou a disputar partidas fora do Rio de Janeiro. Da velha Van Sprinter 2010 pularam para um ônibus Marcopolo 1990/1991. Velho, mas confortável. Dava de dez a zero, na Van.

Em seguida, mudaram de mala e cuia para o aeroporto Santos Dumont, centro do Rio de Janeiro de onde partiam voos Brasil afora. Houve um jogo em Porto Alegre, que o time croaciano enfrentou um de Canoas. O locutor da Rede Globo, Cléber Machado, narrou um pedacinho que, diga-se de passagem, ganhou o mundo:

“Lá vai Rimão tentando se livrar de ‘Infundibuliforme’. O carioca de Santa Cruz não dá trégua. Parou, preparou, deixou pra trás Rimão, passou por Tulio... olhou pra frente... olhou pra frente e mandou bala. Goooooooooooool... ‘Infundibuliforme’, ‘Infundibuliforme’ é o nome dele. Espetacular’”.

De fato, “Infundibuliforme” é zafimeiro. Tem muito ustório (não confundir com história). Nada a ver.  Dispensa este moço da Croácia, um bairro de Santa Cruz, qualquer tipo de isagoge.  “Infundibuliforme”, lado outro, está no melhor da sua zina. Seu pertuito não é uma passagem estreita para o nada. Pelo contrário, o jovem ‘Infundibuliforme’ está ligado, direcionado diretamente para o estrelato.

Logo este garoto de dezoito anos alcançará o alcantil do sucesso e da fama. Sua trilha brilhante não é um macróstico. Em breve, todos nós veremos o seu triunfo suscático. Não, não veremos. Ontem o espertalhão do técnico Arara às escondidas vendeu seu passe para a seleção da República Federal dos Balcãs. A partir de março deste ano, ele ‘Infundibuliforme’ passará a jogar na Bosta, perdão, na Bósnia. 
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de São Paulo, Capital. 5-2-2019

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