quinta-feira, 14 de maio de 2020

A canção de Costa

A canção de Costa, a canção que ele não hesita em tocar, é uma canção de hipocrisia e falta de vergonha. Merece ser cantada no festival do Avante! Se fosse a seguir a um elogio a Lenin era perfeito.

Paulo Tunhas

Há pedidos e pedidos. Há os que se podem fazer e os que não se podem fazer. António Costa pode pedir a Marcelo que se recandidate à presidência, tanto mais que ele sabe (quem não sabe?) que é isso que Marcelo quer. Um pedido assim quase não é um pedido: é antes a constatação benevolente do desejo alheio, por mais que tenha tido origem na necessidade de desviar as tenções do “erro de percepção mútuo” entre o próprio Costa e Mário Centeno, assunto que vai ocupar as cabeças pensantes do país nos próximos tempos e que já conduziu a uma muito amiga de Costa manifestação “ética” e “patriótica” de Rui Rio, que, como se tornou costume, logo abriu um abismo debaixo de si.

E há pedidos que, por não poderem por definição ser satisfeitos, não se devem fazer. Dentre estes, o meu favorito, que envolve pessoas sem dúvida mais interessantes do que o anterior, teve lugar em Los Angeles, nos anos trinta ou quarenta, não tirei a limpo, do século passado (esta do “século passado” arranha-me sempre: é ainda o meu século, muito mais do que este). Numa festa em casa de Harpo Marx, a genial Fanny Brice aproximou-se de Arnold Schönberg e lançou-lhe um C’mon, Professor, play us a tune!, que deve ter caído como uma bomba na cabeça do inventor do dodecafonismo, um dos mais intransigentes (como coisa distinta de dogmáticos – isso veio depois, com alguns dos seus herdeiros) compositores que jamais existiu, ambicionando, como diz Thomas Mann no Doutor Fausto, “dissolver a essência mágica da música na razão humana”. A ideia de Schönberg se sentar ao piano e tocar uma alegre melodia para animar um grupo de simpáticos foliões é uma das mais inverossímeis que pode passar pela cabeça de um ser humano, embora vinda de alguém como Fanny Brice seja infinitamente perdoável.

Há ainda, é claro, pedidos que se podem e devem fazer, mas que não poderão nunca ser satisfeitos. Ando justamente com um deles que não me sai da cabeça. Gostaria de perguntar a António Costa: “Vá lá, senhor primeiro-ministro, diga a verdade: fez o favorzinho ao PC com esta história de permitir a festa do Avante! para tentar evitar ainda mais chatices no futuro com a “rua comunista” do que aquelas que vai ter?”. Eu sei a resposta verdadeira: que sim. Mas sei também que Costa o negaria por inteiro. De resto, já o fez: se permite a festa do Avante! é porque se trata de um acontecimento político e não lhe passa pela cabeça proibir acontecimentos políticos, mesmo que envolvam milhares de pessoas aos saltinhos e aos encontrões por causa de umas musiquinhas cantaroladas num palco.

Estas flagrantes hipocrisias passam incólumes nas nossas televisões, às mãos de jornalistas habitualmente doutorados em psicologia lírica, uma curiosa disciplina em que são indiscutivelmente proficientes e que adoram cultivar a propósito de tudo e de nada. Nada do que é humano escapa às suas efusões. E quando a psicologia lírica não chega para passar sob silêncio a enormidade da hipocrisia, há sempre o recurso à tríade Trump-Bolsonaro-Boris Johnson, que funciona como ecrã protetor quotidiano para desviar a atenção das tropelias do governo. Digo isto sem pruridos ou irritações: há muito que me aliviei disso. A exposição habitual ao veneno, ao jornalismo lírico-político-militante, já criou em mim, apesar de um distanciamento social que ultrapassa em muito o governamentalmente recomendado, a tão desejada imunidade de grupo, mesmo que se trate de um grupo de um só.

Mas a verdade é que Costa já anda há muito, e de múltiplas maneiras, a lutar pelos favores do PCP com vista a um pouco de paz nos tempos de austeridade redobrada que se avizinham. Em março já queria condecorar a CGTP pela altura dos seus cinquenta anos, e a proposta deu entrada em Belém: “seria o reconhecimento público do papel e mérito da Intersindical em defesa dos direitos do trabalho e dos trabalhadores”. Não é por isso de estranhar que tenha passado a ordem relativa ao festival do Avante! à ministra Marta Temido e que esta, muito lampeirinha, a tenha transmitido à senhora da DGS. E que Jerónimo tenha aproveitado para se gabar da “criatividade” dos comunistas em matéria de organização de festivais, uma criatividade que lhes é amplamente reconhecida em vários domínios, em especial na interpretação da história, como ainda recentemente se viu nas comemorações dos 150 anos do nascimento de Lenin.

O problema com o beneplácito dado à realização da festa do Avante! não é apenas, nem sobretudo, o extraordinário contraste com o tratamento a que o comum dos portugueses é submetido e que obviamente suscita em muita gente um forte sentimento de injustiça: então nós não podemos pôr os pés numa praia em grupos de dois sem que nos apareça no céu um drone a mandar-nos para casa e eles podem reunir-se em grandes grupos em barraquinhas de comes e bebes e em concertos que juntam milhares? O problema não é sequer a comparação com o 13 de maio em Fátima, em que a Igreja, diga-se de passagem, se comportou impecavelmente, recusando, ao contrário do PCP, projetar-se como uma casta com privilégios distintos do resto dos portugueses.

O problema é sem dúvida isso, mas é mais e mais profundo do que isso. O problema é que assistimos aqui a uma violação em toda a linha de um contrato social implícito que constitui a única garantia substantiva de um comportamento cívico por parte dos portugueses, que aceitaram regras (em vários casos porventura excessivas e atabalhoadamente imaginadas) que fortemente diminuíram a sua liberdade. A violação desse contrato social implícito constitui um inegável ato de prepotência cometido em nome de um interesse de sobrevivência política pessoal que é o único fio condutor discernível na ação política de António Costa e que tem um longo historial: o modo como afastou António José Seguro do PS, a maneira como, tendo perdido as eleições, engendrou a geringonça e até o processo cavaleiro como transformou a sua ignorância do que se havia decidido em conselho de ministros em “deslealdade”, para falar como o utilíssimo Rio, de Mário Centeno. Há quem aprecie estas habilidades, como havia quem se extasiasse com as espertezas mais saloias do entretanto caído em desgraça José Sócrates. Mas elas não são apreciáveis.

C’mon, Professor, play us a tune! A canção de Costa, a canção que ele não hesita em tocar, é uma canção de hipocrisia e falta de vergonha. Merece ser cantada no festival do Avante! Merece mesmo nele um lugar especial. Espero que Jerónimo de Sousa a lembre no seu discurso de encerramento. Se fosse a seguir a um elogio a Lenin era perfeito.
Título e Texto: Paulo Tunhas, Observador, 14-5-2020, 7h28

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