sexta-feira, 30 de setembro de 2016

O fim de um partido?

Paulo Tunhas
O manifesto radical de Michael Foot, em 1983, foi descrito como “o mais longo bilhete de suicídio da história”. Corbyn levou a coisa a outro patamar e o seu destino arrisca-se a não ser muito longo.

Entretidos que andamos com as desgraças caseiras e com as eleições americanas, ninguém parece dar muita importância ao que se passa no Partido Trabalhista. A Inglaterra, por estes dias, resume-se na comunicação social portuguesa ao Brexit e a pouco mais. E, no entanto, tudo o que aconteceu desde que Jeremy Corbyn ascendeu, em Setembro de 2015, à chefia do Labour, uma chefia renovada no passado dia 24, arrisca-se, aos olhos de muita gente, a conduzir à perda definitiva de relevância do Partido Trabalhista, à semelhança do que aconteceu, nos anos 20 do século passado, ao velho Partido Liberal de Gladstone e de Lloyd George.

Corbyn representa, como se sabe, a “esquerda dura” do trabalhismo, no seguimento do seu mentor Tony Benn, que, de resto, começou na ala direita do partido. As tradições são o que são, e a “esquerda dura” trabalhista tem uma longa tradição e sempre foi mais ou menos activa. Mas esta nova encarnação vegetariana, abstémia e pacifista oferece um radicalismo que não parece ter tido antes uma tão plena oportunidade de se manifestar na chefia partidária. E Corbyn anda bem acompanhado, como por exemplo por um seu importante e muito próximo ministro-sombra, John McDonnell, que recentemente se recusou a pedir desculpa por ter apelado ao linchamento da deputada conservadora Esther McVey. McDonnell tem de resto uma longa história no capítulo: em 2003 elogiou, lembra a Economist, “as bombas, as balas e o sacrifício” do IRA.

O velho radicalismo da “esquerda dura” trabalhista – nacionalizações extensas, desarmamento nuclear unilateral, eliminação das bases americanas, anti-europeísmo manifesto ou mais ou menos disfarçado, etc. – encontra-se devidamente complementado em Corbyn por outras posições próprias ao presente. Tal como o antigo mayor de Londres, Ken Livingstone, Corbyn elegeu Israel como o seu ódio de estimação. Defendeu, por exemplo, os autores do atentado bombista de 1994 à embaixada israelita em Londres. E, naturalmente, é dotado de uma vasta complacência para com o islamismo radical. Corbyn, de resto, e só superficialmente há incoerência nisto (é unicamente Israel que se quer atacar), não vê grande diferença entre Israel e o Estado Islâmico.

Não é, portanto, muito estranho que vários trabalhistas judeus tenham declarado a sua intenção de abandonar o partido. Os episódios de anti-semitismo, com ou sem o disfarce do anti-sionismo, multiplicam-se. E esta é apenas uma das razões pelas quais muitos trabalhistas, entre os quais três-quartos dos deputados, se encontram em absoluta oposição a Corbyn e pedem a sua demissão e o seu governo-sombra se torna dia-a-dia mais ténue. Ao mesmo tempo, Corbyn, como o comprova a recente vitória esmagadora que permitiu a sua reeleição, está de pedra e cal. E os seus apoiantes podem-se gabar de o Labour se ter tornado o partido com o maior número de filiados na União Europeia.

Esta situação propriamente esquizofrénica tem obviamente uma razão de ser. Corbyn abriu as portas do partido à extrema-esquerda, nomeadamente a um grupo denominado Millennium que por ele vota activamente. Claro que houve, no passado, muitas infiltrações no Partido Trabalhista. Michael Foot e Neil Kinnock, enquanto chefes do partido, tiveram de lidar com a infiltração de um outro grupo, Militant, o primeiro com mansidão, o segundo em clara oposição. Mas nunca aconteceu, creio, que fosse o próprio chefe do partido a fomentar a invasão. Uma invasão que, é claro, permite a sua sustentação no poder.

É tudo menos de estranhar, portanto, que se preveja a mais extraordinária das derrotas eleitorais para um Labour completamente fechado no seu próprio radicalismo, um radicalismo que os britânicos não apreciam. E, mais do que uma derrota eleitoral, a mais vasta condenação à irrelevância do partido por uma pequena eternidade. Com efeito, quem se arriscará a confiar, durante muito tempo, num partido que se deixa comandar por um doido fanático que tudo arrasa à sua volta? A partir daqui, há quem diga que isso pode significar algo como a passagem ao estatuto de primeira força de oposição dos Liberais Democratas, herdeiros do defunto Partido Liberal. E há quem diga que, pura e simplesmente, e talvez mais provavelmente, os conservadores poderão governar por muitos e bons anos como se não houvesse, para todos os efeitos, oposição.

Esta história de uma aventura do radicalismo deveria fazer-nos meditar um pouco. Não digo que o monstro compósito Costa+Catarina, com o apêndice Jerónimo, seja igual a Corbyn. Apesar de algumas coalescências, as partes podem ainda ser separadas. Nem asseguro que o longo hábito da coalescência acabe por inspirar ao PS o triste destino que muitos vaticinam para o Partido Trabalhista. Portugal não é, sem dúvida, a Inglaterra. Mas, para quem quiser olhar com cuidado para o que se passa no Labour, uma lição parece clara e dotada de toda a evidência necessária: o arcaísmo ideológico extremo conduz ao fanatismo, à perda de contacto com a realidade e, em sociedades civilizadas, geralmente, à auto-destruição. Não se perde nada em estar atento ao que diz e faz o socialismo revolucionário.

Um manifesto eleitoral radical de Michael Foot, em 1983, foi descrito por alguém como “o mais longo bilhete de suicídio da história”. Corbyn levou a coisa a outro patamar: já não é só um bilhete e arrisca-se a não ser muito longo assim. O PS de cá ainda está muito longe disso, apesar de vários sinais aqui e ali. Mas se, por uma razão ou outra, esses sinais se multiplicarem muito e a coalescência com o Bloco se aprofundar para além de um certo limite, não sei, não sei. Parece impossível? O provável destino do Partido Trabalhista não parecia, ainda há muito pouco tempo, inimaginável? 
Título e Texto: Paulo Tunhas, Observador, 29-9-2106

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