quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Com representantes destes os taxistas não precisam de inimigos

Paulo Ferreira
Os líderes associativos dos taxistas são, claramente, uma parte dos problemas do sector e nunca farão parte de uma solução digna, de uma evolução concertada que equilibre todos os interesses em jogo.

Às primeiras horas desta terça-feira assisti, através dos directos televisivos, à forma como acabou o protesto dos taxistas em Lisboa que tinha levado ao bloqueio de acessos ao aeroporto da cidade. Já escrevi várias vezes – aqui e aqui, por exemplo – o que penso deste conflito e do essencial das reivindicações dos taxistas: não fazem sentido e são tão eficazes como tentar travar o vento com as mãos. Acresce a isso a violência e a boçalidade a que muitos recorrem para tentar conseguir o que não conseguem com a força dos argumentos, que afastam da sua causa mesmo os que acreditam nela.

Mas ao ver como acabou aquela “jornada de luta” e o desalento de muitos dos que fizeram centenas de quilómetros, em vão, para se juntar ao protesto, não pude deixar de partilhar alguma daquela tristeza pessoal e de sentir-me parcialmente solidário com eles. É que os taxistas – vamos deixar de lado os arruaceiros, que são ou deviam ser um caso de polícia – estão a passar por dois abalos ao mesmo tempo: o primeiro são as mudanças tecnológicas que estão a criar, pela primeira vez, concorrência ao seu negócio e a desafiar a forma como sempre se habituaram a operar; e o segundo, talvez mais importante, é a desastrosa incompetência de quem os representa nas associações do sector, em especial a de Florêncio de Almeida [foto]e a ANTRAL.


Foi penoso ver como nesta madrugada, depois de sair do Prós e Contas da RTP, os líderes associativos tentaram convencer os colegas que a ocupação da Rotunda do Relógio tinha que acabar, porque a polícia ia começar a bloquear ou a rebocar os táxis. E como alinharam ali as “vitórias” que já tinham conseguido para justificar a desmobilização, as mesmas que antes serviram para manter e prolongar o protesto.

Foi penoso confirmar que quem os levou para este beco reivindicativo, prometendo-lhes uma luta sem precedentes até às últimas consequências não tinha, afinal, pensado numa estratégia de saída digna, ponderada e honesta em função do que se viesse a passar nas ruas e nas conversas de gabinete com o Governo.

Foi penoso ver que o mesmo que dias antes incitava à violência garantindo que “vai haver porrada” estava ali agora supostamente preocupado com a violação à ordem pública que o bloqueio de acessos ao aeroporto manifestamente era.

Os honestos e legitimamente preocupados com o seu futuro, que para ali foram convencidos da justeza da sua indignação, viram assim ser-lhe tirado o tapete dos pés pelos mesmos que antes lhes garantiram que isto era caso para sitiar uma cidade.

Há muito que percebemos que os taxistas são os principais inimigos de si próprios. Pela forma como muitos operam, com comprovadas aldrabices, má educação e preocupação alguma com os clientes, mas também pelos que elegem para os representar.

Foto: Nuno Pinto Ferreira/Global Imagens
Não há ali uma visão, uma antecipação das tendências do mercado, uma estratégia clara de concertação e negociação, uma separação entre o essencial e o acessório. Tão depressa querem o encerramento das plataformas electrónicas como a seguir reivindicam a possibilidade de eles próprios passarem a operar com elas. Queixam-se da concorrência dos preços mais baixos feitos pela Uber ou pela Cabify e a seguir o que exigem é o aumento da bandeirada e da sua tabela de preços durante alguns meses do ano. Defendem mais regulação hoje para amanhã protestarem contra o excesso de regras a que estão sujeitos – sem nunca perceberem que alguns benefícios que têm resultam tambem dessas obrigações.

Com lideranças destas os taxistas não irão longe. Hoje são uma classe profissional desacreditada, mal vista, sem qualquer base de apoio social e popular. A eles próprios o devem, por terem permitido que os maus profissionais e as más práticas com clientes sejam hoje vistas como representativas de todo o sector, o que é injusto, acredito, para a maioria deles. Foram décadas de complacência e de defesa dos trapaceiros em nome do cego corporativismo que recusa qualquer exigência e a expulsão da actividade dos que não cumprem um mínimo de regras.

Em anos nunca se viu uma acção ou ouviu uma palavra condenatória da máfia que opera no aeroporto, dos que enganam e maltratam clientes, dos que apedrejam carros concorrentes. Uma complacência que voltámos a verificar ontem mesmo.

E isto serve tanto para os taxistas como para qualquer outra actividade: o melhor começo para fazer vingar a razão que possam ter é expulsar os que estão dentro pelas razões erradas e com práticas erradas. Sei que a ética, a exigência e a honestidade são hoje vistos como valores em saldo, mas o caso concreto dos taxistas talvez nos alerte para a precipitação desse julgamento. No fim do dia, e quando tudo é evidente, a generalidade das pessoas recusa ser cúmplice de prevaricadores permanentes.

Os líderes associativos dos taxistas são, claramente, uma parte dos problemas do sector e nunca farão parte de uma solução digna, de uma evolução concertada que equilibre todos os interesses em jogo, a começar pelos dos cidadãos que querem legitimamente serviços de qualidade ao melhor preço possível.

É por isso que os sérios e honestos, que fazem desta profissão o seu sustento, que cumprem as regras e não estão ali para dar o golpe ao primeiro cliente que lhes entre pela porta do táxi, têm que começar por pensar se se sentem dignamente representados.

E se quem os representa o está a fazer por um altruísta amor a uma causa em que acredita ou se está, sobretudo, a tratar da sua causa pessoal.

Eu, por mim, fiquei esclarecido quando há um ano vi esta reportagem da Visão. A última coisa de que gostaria era ser representado por alguém com o tipo de práticas e de discurso que são descritos neste artigo. E num país a sério talvez Florêncio de Almeida nem pudesse ser mais taxista.
Título e Texto: Paulo Ferreira, Observador, 11-10-2017

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