terça-feira, 23 de abril de 2019

[Aparecido rasga o verbo] Enquanto círculos incompletos devoravam o absurdo...

Aparecido Raimundo de Souza

EU ESTAVA BRABO, INVOCADO, pê da vida. Enfurecido, colérico, chateado, entristecido, tipo uma aeronave envelhecida, cheia de voos interrompidos, tudo porque não havia encontrado o bairro, tampouco a rua da casa dela, nem o ponto indicado como referência. Num descompasso de agonia, dei meia volta decidido a ir embora, a sumir de vez. Apagar o nome daquela infeliz, esquecer que ela nunca existiu em meu pensamento.

Foi quando me veio à lembrança um fato que até aquele momento não havia colocado em prática. Estanquei os passos, meio que pasmado, atarantado, depois de andar por quase uma hora a pé. A trezentos metros da estação que me levaria para casa, resolvi jogar com essa carta, aliás, a derradeira que me restava na manga. Carta de feição amarga, como um cálice de fel. O celular. Eu não havia ligado para o número que ela havia me passado. Quem sabe!...

Se esse recurso falhasse, jogaria fora minha onda de ódio junto com o aparelho celular na primeira lata de lixo que encontrasse pela frente. De roldão, o currículo vitae com tudo de bom que havia lido a respeito da vida pregressa daquela jovem desconhecida. “Menina difícil – pensei comigo – essa ilustre sem rosto”. Contudo, para meu espanto, a sumida atendeu na hora, com um “alô!” que me acendeu a esperança! 

Finalmente! Expliquei, em rápido discurso, que não havia encontrado o endereço e concluí quase implorando que viesse ter comigo o mais rápido possível. Em resposta ela se abriu em mesuras esclarecendo que tomaria um banho, trocaria de roupas e pegaria uma UBER. Não daria para vir de trem. A estação ficava muito longe de onde estava. Segundo seus cálculos, no máximo em quarenta minutos nosso encontro seria consumado. Passei a ela a minha localização e me postei, à espera. Enquanto aguardava, me restou a ideia de comer alguma coisa.

Aliviado por ter obtido uma resposta favorável, me acomodei numa lanchonete.  Optei por uma das mesinhas dispostas numa espécie de varandão em formato de semicírculo. Desse espaço, assistiria ao vai e vem intermitente da avenida que cruzava frontal às escadarias da estação do Metrô justaposteadas a uma praça de nome engraçado. Vigiaria também, de contrapeso, o movimento das calçadas.

Mesmo tom, quem saía e entrava no estabelecimento. Na verdade, meu empenho não outro senão o de bisbilhotar a pessoa que aguardava. Eu a veria primeiro, sem que me enxergasse logo que saltasse do carro. Solvendo o refrigerante (acompanhado de um sanduiche de queijo quente), permaneci por quase duas horas como um menino bobo, no aguardo da nobre donzela. Como seria? Branca, preta, loira, morena? Alta, baixa, feia, bonita, desdentada? Simpática, chata, meiga, nojenta? Dócil, pegajosa ou apetitosa como esses docinhos de banana que a gente come de sobremesa nesses restaurantes sofisticados das grandes metrópoles?

No meu devaneio, passei a desenhar a criatura com pinceladas rápidas e objetivas, na angústia descontrolada de obter uma imagem da sua misteriosa figura. Nessa vasca desenfreada, viajei um pouco na maionese, atropelando os pensamentos que iam e vinham numa celeridade voraz. Seria essa estranha mais uma, ou uma a mais -, que pintaria no pedaço, a pleitear o cargo de musa e dona do meu coração?

Bateria somente um papo informal e depois me viraria às costas e voltaríamos cada um com seu vazio interior de regresso para nossos mundinhos particulares? À bem da verdade, nessa procura, me sentia enfastiado e deprimido. Quase certo regressar com as desilusões cotidianas para meu canto de origem carregando mais um fardo pesado para juntar aos outros na vasta coleção das frustrações de sempre. Contudo, algo no fundo do meu eu, me animava. Um não sei o que dizia que essa coalisão não redundaria inepta como as anteriores.

Sob o signo da esperança, a encantada chegaria triunfal, simplesmente não se esbarraria comigo como uma manequim desfilando etiquetas dentro de uma vitrina repleta de luzes de neon. Meu olhar, impaciente, buscava a sua silhueta em todos os cantos da tarde. Meu coração pulsava mais forte em cada rosto que cruzava. Em cada ser que atravessava, fosse indo ou vindo, ou saltando de um automóvel ou taxi. Nessa voracidade inexplicável, eu encorajava uma agonia pesada, um incômodo que machucava por dentro. Uma dor forte que se fechava, de repente e traçava rumos indomados dentro da multidão deflagrada.

Em paralelo, meu “eu” interior, como tentando decifrar uma imagem real e palpável, aproveitava a deixa e criava expectativas, ou melhor, abrigos onde agasalhava a presença dela, embalada por cores vivas em matizes jamais sonhados. Para deleite de meus olhos, para encanto de minha alma, a estrangeira, finalmente, agraciou. Diria que realçou, resplandeceu. Notei nela, logo que saltou e se pôs de pé, o semblante preocupado, quase intransponível, sob a pesada maquiagem que me recordou, num rápido relance, uma deusa egípcia.  

A cândida veio vindo se achegando meio temerosa, meio “será que é ele, será que devo perguntar antes?!”. Como se adivinhasse esses seus pensamentos me antecipei atrevido e correndo ao seu encontro, indaguei pressuroso: “é você, é você, a pretendida que procuro?”. Um sim vibrou como o som de um teclado de órgão ensaiando uma canção suave, impregnada de quimeras desconhecidas, famintas de muitas palavras. No instante seguinte, meu peito se contraiu.

Minha alma em ebulição festiva se ajoelhou diante da sua beleza. Estarrecido, eu homem vivido, de muitos anos nas costas, me desmoronei num labirinto sem volta, para alcançar o tamanho da sua magia. A satisfação que corria ligeira fustigou tudo dentro de mim. Aflorou por inteiro. Saltou, pulou e encheu de variadas cores, os meus olhos esbugalhados da sua meiguice ímpar. Ali, ao meu lado, finalmente, a minha metade que tanto procurava. As muitas faces por mim desenhadas: a menina flor, a rainha, a fascinação se materializando em arroubos e donaires. Igualmente essas afabilidades se transformaram em tenros botões de rosas se abrindo ao mesmo tempo cheio de efeitos especiais.

Como passarinhos inventados com penas vermelhas e amarelas voando no azul do meu infinito e fazendo refletir no meu espelho da alma, o arroubamento de me soltar por espaços nunca pisados, em troca de horizontes desconhecidos e jamais imaginados me adoidei. Saí do chão. Tantos anos depois, ainda a vejo assim. Imutável, inimitável. Pura como no esbarro da primeira vez. Sinto seu medo se formando dentro do carro branco. Recordo seu perfil tímido, meio que oscilante, quieto, refugiado ao lado do motorista que a trouxera para o nosso bate papo.

Apesar do tempo passado, palmilhado, ainda consigo trazer à tona, como num desses filmes de curta metragem, o deleite, a mesma galhardia da animação poética que nasceu quando a vi naquele longínquo inicio de março, faltando alguns dias para as velinhas do meu aniversario. Essa deidade ainda tem o toque certo, o gracejo que me agitou e me fez tremer desde a base à raiz dos cabelos. Ainda agora ela carrega no conjunto que compõem o seu corpo, a nota musical que acolheu e agasalhou a minha alma e a deixou em regozijo de festa. Essa mulher incrivelmente preserva intacto o recheio perfeito que guardo a sete chaves, num lugar que só eu sei e mantenho esse segredo todo para que ninguém ouse imaginá-la como eu a afiguro.

Apesar da nossa disparidade de idade, a minha metade da maça docinha continua a irradiar a juventude no êxtase dos vinte e nove, em contraste com meus sessenta e seis, lembrando que a diferença entre nós – em nada influiu no carinho que a cada dia parece se tornar mais gigantesco. Destoado dessa lacuna enorme, a áurea do meu amor persiste encantada. Transpira num boom de pratos orquestrais ao tempo em que cria em torno de nós, um instante mágico e único, uma enchança repressão de expectativas prontas para explodir ao menor toque da sua voz. Ela é, pois, como o sol que se espalha. Diria sem medo de errar, como o alimento divino que mata a minha fome em todos os sentidos.

Meu amor é um porvir repleto de sensações nunca sentidas, de emoções jamais vividas. Ela é poesia de arrebol. Mais que isso, um elo plural ligando o hoje ao super amanhã. É ainda, num momento mais complexo, meu horizonte bordado por asas aladas, a essencialidade do meu agora dentro de um ontem magricelo, mas perfeito, como o côncavo e o convexo. A minha amada não é só uma flor em botão. É mais que um nome ao acaso. É o licor das harpas, o vinho doce temperando vontades. São, por fim, numa derradeira visão, os sons e os barulhos de todos os enfeites. As noites e dias. As fantasias de passeios distantes. Um amontoado de loucuras quebrando o próprio mimo.

Essa mulher é a sensação do infinito lá em cima, dançando assinaturas corpóreas no caderno louco da minha vida insana. Ela é a fêmea completa, a criança grande, a estrela de minhas brincadeiras. Ela é, igualmente, a dona dos lábios rosados como seda aquecida pelo sol mormacento. Eu a vejo, ainda, mais bela, a cada dia. Às vezes, nas minhas divagações, como um natal com flocos de neve. Nessas horas, ela revolve meu estômago que se contrai em pequenos nós de excitação. Ela é, ainda, o eco do meu grito desesperado clamando incansavelmente por nosso AMOR.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Sertãozinho – Interior de São Paulo. 23-4-2019

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