domingo, 19 de abril de 2020

[As danações de Carina] Aquele nosso amigo oculto que aparece nas horas incertas

Carina Bratt

Algumas amigas do meu relacionamento diário, dizem ser o peido uma espécie de tabuísmo. Tabuísmo nada tem a ver com aqueles que são loucos por tabuadas. Tabuísmo, segundo Houaiss, é simplesmente uma palavra chula, ou como queiram, uma expressão de baixo nível.  Jô Soares em seu romance As esganadas, definiu o peido, na fala de uma de suas personagens, como sendo uma locução gostosa de se ouvir: “O peido é o canto da nossa alma saindo por uma boca sem dentes”.



Luiz Fernando Veríssimo, em Sexo na cabeça, é um pouco mais romântico e acha o peido “o sussurro apertado do coração, e, pôr estar numa condição de prisioneiro, vomita o que lhe vem pela frente, escapando, à francesa, pelas pregas”. O peido já foi alvo de muitos autores que se debruçaram sobre ele, cada um trazendo a sua forma de ver essa ventosidade anal como um arroto. Na verdade, se pararmos para pensar no assunto, chegaremos à conclusão de que o peido, de fato, é um clamor soltado em hora imprópria.

Pode ser, ainda, um espirro, id est um outro gás qualquer escapulindo de nosso corpo por qualquer outro orifício. Nosso corpo, se formos ver a coisa pelo lado anatômico, possui uma série de aberturas e buraquinhos, alguns côncavos que jamais pensávamos existir. Nessa linha de peidos, José Saramago passou longe. Preferiu dar vida ao Ensaio sobre a Cegueira, assim como Marcelo Eduardo da Costa Júnior optou pelo Tratado sobre a Imbecilidade Humana.

Diferente da jornalista Camila Bonfim, da revista Textos Inteligentes, que viajou na maionese esmiudando o Tratado sobre a Bunda das pessoas ociosas e seus peidos cavernosos. Voltando ao peido, Pierre-Tomas-Nicolas Hurtaut se uniram para dar vida a uma obra interessante. A arte de dar peidos. Esse maravilhoso livro saiu pela primeira vez em 1751 e, até hoje, mais de duzentos anos depois, serve como roteiro prático para nos mostrar, de uma maneira bastante criativa, que o ato de peidar, não é assim tão escroto ou avassalador.

“O peido sai pelo ânus - , ensina Pierre -  no que difere do arroto, que, apesar de formado de matéria idêntica, mas no estômago, escapa pelas vias aéreas, devido à proximidade da saída, ou porque a dureza e a repleção do ventre, ou quaisquer outras causas, não lhe permitem dirigir-se para as vias inferiores”. Hurtaut vai um pouco além e enumera alguns tipos variados de sopros incomodantes, colocando, inclusive, na berlinda, cada peidorreiro e como a sua característica se insere no contexto de peidar, seja em público, seja em casa, ou entre amigos etc.

Devemos lembrar, que muitas frases que vemos por ai, sobre peidos, não foram “pensadas ou buriladas” em dias atuais, ao contrário, nos chegaram de velhos e antigos carnavais, navegaram no tempo, permitindo que as pessoas e as suas mais diversas profissões, como jornalistas, escritores e curiosos, delas fizessem ou façam uso constante, enunciando pequenas pérolas como se fossem criações nascidas de suas cabeças. 

Longe disso, amigas. Vejamos alguns enquadramentos citados por Hurtaut e percebam, que engraçado, frases com mais de duzentos anos atrás. Apesar dos pesares, são joias autênticas. Já, naqueles idos de 1751, arrancavam o riso e as desventuras de muitos. “O político peida e promete que vai cagar, o malvado peida e põe a culpa nas criancinhas, o viciado peida sente o cheiro e fica doidão. O romântico peida e endossa que seu peido nada mais é que o suspiro de uma bunda apaixonada”.

Diferente do sentimental, que peida e se alenta todo por dentro. O patriota se levanta para peidar, o infantil peida na água para fazer bolinhas, o cínico peida e ainda por cima cai na gargalhada, o artista ensaia antes de peidar, o cara de pau, peida sente o odor e, não contente, reclama. O convencido peida e diz que seu peido é o mais bonito, o intelectual peida e diz que “expeliu” gazes, o egoísta peida debaixo das cobertas para sentir o cheiro sozinho”.

Na sequência, “O indignado peida e não se conforma. O fingido peida e fica sério, o cavalheiro peida e se responsabiliza pelo peido da sua acompanhante. O mentiroso peida e nega tudo, o curioso peida e fica perguntando “quem foi?”. O comodista peida sem se mexer, o corajoso avisa que vai peidar, o tímido tem medo de peidar, o frustrado peida e não se sente satisfeito. O medroso peida com receio do barulho, o insensível suja nas calças e pensa que peidou. O azarado vai peidar baixinho e o peido sai alto demais, o delegado prende o peido, o assassino enforca o peido, o jornalista dá o “furo” e divulga o peido, o morto leva o peido no caixão, o veado dá o peido, o oportunista aproveita o peido dos outros para soltar o seu”.

Em resumo, Thomas diz “amar o peido, cuja causa final pode ser a saúde do corpo desejada pela natureza. Embalado nessa filosofia, Hurtaut corrobora seu colega observando que “o peido é um deleite incomensurável proporcionado pela feliz arte de flatular”. Entre bufos e puns, espero, sinceramente, ter contribuído de alguma forma para que as minhas amigas leitoras sorriam um pouquinho, e se divirtam, sobretudo relaxem até que a pandemia que nos assola, vá embora de uma vez para sempre.
Título e Texto: Carina Bratt, de Vila Velha, no Espírito Santo, 19-4-2020

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5 comentários:

  1. Oh my ... Uma mulher falando sobre o peido...perdão carina ,.mas não consigo imaginar nada mais brochante!

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  2. O PEIDO É O GRITO DE UM RÉU PEDINDO CLEMÊNCIA, OU O ÚLTIMO APITO DE UM TREM RUMO AO PRECIPÍCIO.
    O amor e como um peido se for forçado vai dar merda. ...
    'Filho é igual a peido: você só aguenta só se for o seu.'
    Indireta no facebook é igual peido no elevador.
    Todos desconfiam quem foi, ou para quem foi.
    O PEIDO É UM FILHO DESNATURADO QUE NUNCA VOLTA PARA CASA.
    GOSTEI
    FLY...

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  3. Gostaria de deixar também a minha contribuição aos peidos da Carina, digo, às frases que a Carina trouxe para ilustrar seu texto. Vejo o peido como a filosofia nua e crua de uma bunda aflita, desesperada, impaciente, exatamente por estar situada num lugar estratégico, todavia, estranho. É ela, a bunda, que além do peido que sai rasgando, a bunda, coitada, carece suportar, sem reclamar, da catinga que venta das bandas do cano de descarga. Segundo Danilo Gentile, duas coisas são difícies da gente se livrar na vida. Da sogra chata e da catinga de cu. “A sogra, no pensar de Gentile, gosta de pegar no pé, marcar em cima, e a catinga de cu, nem com o melhor perfume se consegue espantar”. Concordo com Danilo. Por mais que seja feita a higienização dos chamados países baixos, o odor fétido do anel de couro, não desgruda. É pior que o inferno de Dante. O inferno da Divina Comédia, para quem não sabe, tem nove andares, e a catinga do caneco ocupa noventa e dois. De qualquer forma, tirando a frase referente aos profissionais da imprensa, que a linda mocinha dona Carina disse que “o jornalista dá o furo e divulga o peido”, o jornalista não dá o furo, faz furo, e, após entrar pelo furo furado, de lá de dentro divulga o peido. Sempre ouvi dizer, senhorita Bratt, que “mulher bonita não peida, deixa rolar um ventinho”. Para terminar, lembra sempre que “amar é nunca ter que pedir perdão pelo peido que saiu exatamente naquela hora indevida”.
    Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha.

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  4. ANALISEMOS ECA: Estatuto dos Criminosos Adolescentes, ou no dizer de Rita Camata, Estatuto das Crianças Abandonadas. Pode ser também o final do CU (já que os peidos saem dele), atrelado ao Eca, dai ter nascida a palavra cueca.
    Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha.

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