quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Conhecer o monstro

João Pereira Coutinho
No outono de 2001, cheguei à Universidade de Oxford para fazer pesquisas sobre o meu tema de doutorado. Instalei-me no colégio (o St. Antony's) e depois fui falar com o meu supervisor, Henry Hardy, então "fellow" de um outro colégio (o Wolfson; nenhum deles, confesso com mágoa, serviu de cenário para os filmes de Harry Potter).
A minha tese lidava com a noção de utopia em política e, em especial, com a crítica que o pensador Isaiah Berlin fizera ao destrutivo conceito. Hardy era (e é) o editor e curador da obra de Berlin. Estava em boas mãos.
A primeira reunião correu bem - para Hardy, não para mim. Uma hora de conversa chegou e sobrou para eu contemplar minha ignorância sobre a matéria, que eu julgava inexistente. Fui anotando bibliografia vasta. E, entre os livros com prioridade absoluta, estava "Mein Kampf", o infame libelo de Hitler.
Rumei à principal livraria da cidade (a saudosa Blackwell's, onde dias depois cruzei com Bill Clinton; outras histórias) e pedi, um pouco envergonhado, o livro de Hitler. Devo ter pronunciado o nome como os homens de meia-idade pedem Viagra na farmácia: "mezzo piano". Quem, em juízo perfeito, compra obras nazistas?
O vendedor nem mexeu uma pálpebra: despachou o assunto como se eu tivesse pedido a última produção de Paulo Coelho. Um livro é um livro é um livro. "Mein Kampf" não tinha nada de especial. Simples fóssil histórico.
E, à primeira vista, o vendedor tinha razão: regressei para o quarto e, durante dois dias, convivi com o cabo Adolf Hitler, em 1924, na prisão de Landsberg, depois do "putsch" falhado contra o governo da região da Baviera.
A prosa é entediante, deselegante, com ocasionais delírios de ódio e megalomania. Mas "Mein Kampf" não é a obra de uma mente inimputável.
Para entender a natureza destrutiva da utopia no século 20, era necessário ler um dos seus exemplos mais viciosos.
"Mein Kampf" era esse exemplo. E o que horroriza no livro, tal como notou Ian Kershaw na biografia definitiva sobre o bicho, é a forma como Hitler apresenta, sem eufemismos, a infâmia moral e estratégica que se preparava para cometer a partir de 1933 -ano em que chega ao poder e, pormenor macabro, "Mein Kampf" passa a ser oferecido a todas as famílias alemãs.
A infâmia moral lida com a "questão judaica". Para Hitler, o "judeu" não era apenas o elemento corruptor da "pureza ariana". "Judeu" e "bolchevique" passaram a ser termos indistintos: exterminar um era exterminar o outro (e vice-versa).
O que nos leva diretamente à infâmia estratégica: a campanha contra a União Soviética de Stálin, violando o pacto de não agressão Molotov-Ribbentrop de 1939, pode ser visto, hoje, como o grande erro dos nazistas na Segunda Guerra.
Mas marchar contra a Rússia sempre esteve presente no pensamento estratégico de Hitler: exterminar os bolcheviques (ou os judeus, tanto faz) implicava alargar o "espaço vital" da Alemanha para leste, ou seja, abocanhar território russo para garantir a subsistência material e espiritual do povo ariano.
As ideias têm consequências, dizia Isaiah Berlin, meu tema de estudo. Em "Mein Kampf", a tese era ilustrada na perfeição: só um otimista antropológico pode imaginar que Hitler era uma mente inimputável. Pelo contrário: a sua monstruosidade é racional e construída sobre premissas teóricas passíveis de leitura e conhecimento.
Por isso aplaudo a decisão de uma revista alemã de publicar excertos da obra em 2012, com comentários eruditos a acompanhar o texto original. Na Alemanha, a publicação de "Mein Kampf" está banida pelo Estado da Baviera, que detém os direitos da obra e se recusa a cedê-los a qualquer editora. O mesmo Estado pondera agora processar a revista por publicar material potencialmente perigoso.
Um erro. O perigo de "Mein Kampf" não está na sua divulgação; está, ironicamente, na sua proibição, transformando-se o livro em objeto de fascínio macabro.
Ler "Mein Kampf" enterra esse fascínio e mostra apenas que Hitler era um exemplar aberrante da nossa humaníssima espécie. Conhecer a sua cabeça é a melhor forma de evitar outra igual.
Título e Texto: João Pereira Coutinho, Folha de S. Paulo, 25-01-2012, via blog de Rodrigo Constantino.
João Pereira Coutinho, escritor português, é doutor em Ciência Política. É colunista do "Correio da Manhã", o maior diário português. Reuniu seus artigos para o Brasil no livro "Avenida Paulista" (Record). Escreve às terças na "Ilustrada" e a cada duas semanas, às segundas, para a Folha.com
Enviado por Gracialavida

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