sábado, 21 de dezembro de 2019

A máfia portuguesa perdeu a vergonha

Ao contrário da máfia siciliana, o Estado “social” (desculpem) não avisa nem visita nem explica: limita-se a assaltar as pessoas até à falência destas. Se, entretanto, as avisar, é para efeitos de coima

Alberto Gonçalves

Pouco depois da criação da “geringonça”, uma daquelas Irmãs Metralhas do Bloco estabeleceu o mote para os tempos que começavam: “Temos de perder a vergonha de ir buscar dinheiro a quem está a acumular”. Claro que os socialistas, na versão assumida ou na “moderada”, nunca deixaram de “ir buscar dinheiro a quem está a acumular”. A influência dos comunistas, a partir de 2015, traduziu-se apenas no descaramento com que se passou a roubar. E no montante do roubo.

Não quero com isto comparar o atual Estado à máfia. É muito pior. A máfia detecta os cidadãos que conseguem juntar uns trocos, providencia-lhes uma simpática visita e explica-lhes com doçura que seria uma pena um negócio próspero ver-se comprometido por, digamos, “acidentes”. No final, estabelece-se um “donativo” a troco de “proteção”. O “donativo” permite que o comerciante ainda continue a amealhar qualquer coisa. A “proteção” é eficaz.

Ao contrário da máfia siciliana, o Estado “social” (desculpem) não avisa nem visita nem explica: limita-se a assaltar as pessoas até a falência destas. Se, entretanto, as avisar, é para efeitos de coima. Se, entretanto, as visitar, é para fechar-lhes o estaminé. Se, entretanto, explicar, é mentira. Aqui, o “donativo” é incomportável. E a proteção é nula, tão nula quanto a proporcionada por um SNS a cair aos bocados.

Também não quero comparar as inspirações da Irmã Metralha às do dr. Costa. Aquela rege-se pelo velho motor da História marxista, a inveja: perceberem que alguém vive razoavelmente do próprio trabalho provoca justa indignação em espécimes que vivem do trabalho alheio. O dr. Costa rege-se pela sobrevivência. Parecendo que não, ou parecendo muito evidentemente que sim, o assalto generalizado aos otários que imaginavam conseguir poupar dinheiro honesto em Portugal dá uma folga sofrível aos cofres públicos. Para o próximo ano, o assalto atinge tais proporções que a propaganda do regime fala em “excedente orçamental” e volta a incensar o “Ronaldo das finanças”. Na prática, o “Ronaldo das finanças” – analogia que devia suscitar um processo do futebolista por calúnias – é um feirante especializado em enganar pategos e que, sem a ajuda de um poder arbitrário, seria incapaz de gerir a tesouraria do condomínio.

Apesar disso, alguns condôminos, perdão, alguns pategos aplaudem a proeza “excedentária”. Uns porque são genuinamente estúpidos e julgam que a quadrilha que manda nisto gasta euros com mais sabedoria do que os infelizes que os ganharam. Outros porque são genuinamente oportunistas e contam beneficiar do saque. Os segundos têm razão, além de terem a cegueira dos primeiros a legitimá-los. A maior extorsão de sempre, ou a maior carga fiscal de sempre, ou a maior viragem de página de austeridade de sempre permite ao governo proceder à tradicional redistribuição da riqueza entre os amigos, os amigalhaços, os compinchas, os grupos de interesses e os “sectores estratégicos” necessários à manutenção do poder. Não se compram votos de mãos vazias.

A fim de encher as mãos, e de cumprir o desígnio de patrocinar o que não presta e taxar o que funciona, no Orçamento de Estado de 2020 o governo volta a atirar-se ao que, sabe Deus, ainda vai funcionando. No país da “vanguarda tecnológica” (falem com o prof. Marcelo), tão avançado no combate à “emergência climática” que se desconchava inteiro a cada chuvisco, ou lucramos com o turismo ou não lucramos com nada. E onde há lucro há um socialista gordo e babado, a afiar os dentes. No caso do OE, o apetite incide sobretudo no alojamento local, cujos proveitos os socialistas tencionam recolher de modo literalmente exaustivo.

É mau para todos? Longe disso. É bom para o PS e suas metástases. É bom para a Associação de Hotelaria de Portugal, presidida pela mulher do ministro que tutela o turismo. E não é mau para empresários do ramo como o marido da dona Catarina Martins, que vê os seus “projetos” turísticos financiados pelo QREN e pelo FEDER em centenas de milhares. Estudos mostravam que a máfia não teria sobrevivido se hostilizasse toda a gente. Aos socialistas basta agradarem às criaturas certas, na quantidade certa. No que toca aos restantes, o saque vai prosseguir. E só terminará quando os restantes perderem a paciência ou o último tostão. Nesse dia, o socialismo terminará também. Ninguém o chorará, por não haver motivo. Ninguém festejará, por não haver dinheiro.

Nota de rodapé
Muitos comentadores transformaram a censura de Ferro Rodrigues [foto] a André Ventura num deslize de uma alta figura da nação que serviu para promover um populista. Acredito que o dr. Ventura seja um populista, mas se o dr. Ferro representa a nação, coitadinha desta. Nem falo do currículo democrático do dr. Ferro, que culminou naturalmente neste recente e grotesco ato. Falo daquilo de que sempre evitei falar: a aparência da personagem. Olhem para qualquer imagem do dr. Ferro. Atentem nos pormenores, depois no aspecto em geral. Sei que estes não são os critérios fundamentais da avaliação política. Sucede que há limites. O dr. Ferro ultrapassa estes com o mesmo empenho com que ultrapassou os outros. É exato que, no invólucro e no conteúdo, o dr. Ferro representa o regime – e sobretudo o estado em que o regime se encontra.
Título e Texto: Alberto Gonçalves, Observador, 21-12-2019

2 comentários:

  1. Cipião Numantino

    Um artigo demasiado cáustico até para os cânones com que o nosso estimado AG nos habituou.
    Por mim consigo perceber o que aflige AG. Que será aliás extensivo a todas as pessoas que pensam por si próprios no que os antigos filósofos gregos apelidaram "que o conhecimento contém, em si, o desespero".

    E como isso é verdade, meus caros!

    Todos conhecemos tanta e tanta gente que numa reedição de vida de coelho, nunca se ausentaram da área onde nasceram e vivem de tal forma a sua vida singela, em que o conhecimento só vem mesmo atrapalhar. É desta massa disforme e intelectualmente repulsiva que é feita, geralmente, o povo português. Videirinho, madraço e trapalhão, vive tão só esperando que alguém lhes trate das suas simplórias vidinhas. Acreditam e seguem agora os Costas, os Ferros e os Ronaldos das Finanças, como certas gerações que os precederam seguiram as hordas assaltantes dos Zés dos Telhados ou dos Remexidos. Sem uma crítica e uma mera avaliação do sentido ético e do dever. Uma canalha estulta e ignorante que se prostitui por mais 10 simples euritos nas suas miseráveis reformas.

    De tal entulho intelectual e psicológico só poderia medrar a fina flor desse mesmo rebotalho. E é aí que desaguamos nos governantes que Deus ou o diabo nos deram e a que permanentemente temos direito. Seres que até parece que foram escolhidos a dedo para encimarem esta coisa repulsiva que um dia já foi o primeiro império global da História.

    Vê-se bem, AG, é uma mente inquieta. Como aliás o são todos aqueles que pensam por si e formulam perguntas que de todo não conseguem compreender e ainda menos aceitar. E claro, esta prática semimafiosa do regime, provoca-lhes de tal forma uma tão grande frustração que os leva a gritar do sítio mais recôndito das suas almas, que o rei vai mesmo nu. E eles, tal como eu, onde tantos apregoam as excelências do Ronaldo mago das Finanças, só conseguimos mesmo vislumbrar a velha e relha tática da dona de casa que corta nos dias da semana, para ficar um pouco mais folgada no respetivo fim. Ou seja, onde preside a lógica caricatural de uma sopeira, a canzoada amestrada marxista, vê as excelências mágicas de um prestidigitador. E isso chateia, claro que chateia, como dizia o RAP!

    Quanto ao Ferro Rodrigos, já quase foi tudo dito. Não me alongando muito, acho que está no lugar que merece. Não terá certamente culpa pelo seu ar físico um pouco repulsivo. Mas já terá, isso sim, imensa culpa por bancar a própria ideia da repulsa em si mesma contida!

    Meus caros concidadãos, como costumo dizer o país está a saque! Que era isso, aliás, mesmo que eu ouvia a familiares mais oposicionistas ao ancien regime e que me ajudaram a moldar o pensamento e o sentido crítico que tenho para estas coisas da política e do social.

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    1. Definitivamente, a Abrilada que eu vi com tamanha esperança, é uma autêntica fraude. Dela só nos vai restando a iniquidade e a injustiça, ainda mais ominosa e abjeta que a dos tempos da outra Senhora.

      Quem campeia, rege e tripudia é uma cambada de videirinhos permanentemente escoltados por uma vasta trupe de oportunistas, especializados nas práticas da inveja e no mais abjeto e permanente oportunismo.

      Este país já era. E sigo mesmo a pensar que isto se deve tratar de uma espécie de stress pós-traumático pela perda do império e por nos vermos reduzidos a esta coisa de nada a que se convencionou chamar de retângulo.

      Vivemos numa espécie de marginalidade europeia, prenhe de ideias xuxualistas que nos hão de aportar a mais que certa desgraça.

      Como tão bem exemplificou AG a prática que nos rege é eminentemente mafiosa.

      Um país de mão estendida à caridade internacional que pouco ou nada produz e onde esta desgraçada geração já hipotecou a vida de seus filhos, netos e bisnetos.

      A tonteria campeia, a vigarice medra e ninguém vai preso.

      Ainda hoje li que Ricardo Salgado reclama vários milhões de euros por se considerar mais um dos lesados do BES!!!

      Isto não é um país. Isto é um recanto espúrio onde pouco ou nada já faz sentido.

      Os homens do leme (Marcelos, Costas, os Ronaldos das Finanças e Ferrosos) já nem sequer escutam a voz do gajeiro que do alto do cesto da gávea nos vai alertando que o barco vai encalhar.

      Só com bastante sorte vamos escapar desta.

      Quem acredita em milagres talvez ainda faça um compasso de espera.

      Por mim, não vejo mais que o desastre! Um estrondoso e explosivo desastre!...
      Cipião Numantino

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