terça-feira, 21 de janeiro de 2020

[Aparecido rasga o verbo] E depois dos gritos, queijos e robôs

Aparecido Raimundo de Souza

EMBORA ME CONSIDERE UM HOMME EXPÉRIMENTÉ, não sei precisar se andei depressa demais ou se foi um simples ‘unfollow’ que dei em minha própria Inteligência. Talvez, por esse motivo, pelo sim, pelo não, ou entre a esperteza e a ignorância momentâneas, eu tenha me perdido de tudo de bom que me cercava. Nessa corrida desenfreada pelo incerto, não permiti que fluísse a meu favor, a ventura das afeições corriqueiras do dia a dia, notadamente as do círculo doméstico, sustentação basilar dessa nossa carcaça, a contar do instante mágico em que abrimos os olhos para o universo que nos contempla lá do alto. 

Em vista disso, se foi para as cucuias, pai, mãe, filhos, netos, amores oportunidades as mais diversas, e, de roldão, centenas de chances de ser um bocadinho mais feliz. Corri tanto em busca de sendas tresloucadas, esperançado de esmiuçar aventuras sem fundamentos… Nesse naipe, como carta fora do baralho, passei por horas aziagas, me meti por estradas incertas sem as emergências felizes, me embrenhei, igualmente, por desvãos que não me levaram à lugar nenhum. Não sei se me abalei depressa demais, e, nessa viagem meio que sem giro de retorno, nem vi que o tempo do meu tempo avançava, consumava, corria, acepilhava numa linhagem como se plainasse a céu aberto num voo supersônico...

Em verdade, me esqueci que o tempo não se restitui, não retroage, não dá marcha-a-ré, a, não ser para nos mostrar, de uma forma geralmente drástica e insuportável, o que de ótimo e de magnânimo estava tão próximo, tão ali, tão colado e à vista de todos, quase em atropelo, porém, eu, cego, sem visão de amanhã, vazio, perdido, enlouquecido, fora de mim, do mundo real, me recusei, ou dito de forma mais abrangente, não quis enxergar. O meu tempo agora se faz rápido e rasteiro. Incerto e despropositado. Sombriamente tenebroso e abstruso. Os cabelos esbranquiçaram, a epiderme, do rosto aos pés, enrugou, os gomos da visão passaram a ver menos.

O peso-massa do corpo vigoroso se fez mais desatlético e pusilânime. Ficou a dúvida cruel: não sei se andei depressa demais… Se me fiz célere e dinâmico em grau além do normal. O que tenho consciência (e isso é tão certo como a morte de Jesus no Calvário), toda essa agilidade, agora percebo, me tornou cativo, encarcerado, detento submissado a um ser estranho e antipático que desconheço as linhas do semblante. Acabei virando escravo. Dele, claro. Em dias de agora, sei e tenho domínio  pleno de que alguma coisa não se realizou, ou não se materializou, mudando sistematicamente o rumo-fadário do que se fazia certo e real, e por se fazer descoeso, por algum motivo alheio, literalmente se desmantelou… Virou pó. 

Em algum momento, em algum estágio dessa paranoia, final das contas, nada do que eu queria, do que almejava, chegou às minhas mãos. Não sei dizer, insisto, não sei dizer ou mesmo explicar quem se perdeu de quem. Quem se extraviou, ou se divorciou de mim. Quem me roubou das coisas boas?!  Apenas compreendo e isso é fato palpável, inverossímil. Me resta a dádiva precisa e inalterável de que os anos vividos viraram água corrente numa espécie de voragem incontrolável ribanceira abaixo. Tudo o que desce pela encosta, descamba em direção a um abismo-bueiro. Esse, por sua vez, de abertura oral alargada, cheia de sorvedouros e mandíbulas nefastas, sem contar a goela escancarada, se faz pronta para carcomer o destino.

O meu acaso, a minha cartada de boa sorte, ou de sorte grande.  Pela minha idade, sessenta e seis ‘dezenoves de marços’, desde mil novecentos e cinquenta e três, entendo não estar mais propenso a prova dos nove, ou a outras modalidades de adversidades, por mais brandas que sejam. Tentando a forças hercúleas, melhorar as coisas, e num derradeiro suspiro de salvação, me deixei ficar em maturação, por meses, enfurnado numa introspecção cabalistica, período em que o meu ‘eu’ estropiado permaneceu estocado num ponto indeterminado em meio a um frio e uma textura gélida além do normal.

Com esse aumento, frio e textura, descalor e  urdidura, alimentado a queijos e nacos de mussarela, talvez os cacos sobrados do que restou de mim, assediados por um títere autômato, se  juntem, ou se reestruturem, ou no pior dos quadros, morram, dando lugar a um novo ‘centro-eu’, o que aliás, não deixará de ser, jamais, o meu almejo, a minha cobiça, a minha ganância maior. A pretensão esbaforida, arfante e teimosa de voltar ao ontem. Em amenta, o sonho buscado, a quimera perdida, o alfim, retrogradado com força total, me tirando, a mim mesmo, de vez, da asfixia dessa consumação nebulosa, dessa guerra sem dano colateral, por ter uma vida inteira jogada às traças. Se eu conseguir esse intento, me polirei, me aprimorarei, me acepilharei como a criatura mais FELIZ NA FACE DA TERRA. Juro meus caríssimos leitores amados, por tudo quanto é mais sagrado: estou afinando a harpa.  
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, do aeroporto Viracopos, em Campinas, São Paulo. 21-1-2020

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