sexta-feira, 8 de maio de 2020

China censura carta de embaixadores europeus em Pequim, retirando referência à origem da covid-19. UE aceitou

Ana França

Para não estragar o aniversário dos 45 anos de relação diplomática com a China, a União Europeia aceitou que o jornal do regime chinês em língua inglesa, o "China Daily", cortasse uma parte da carta que os 27 embaixadores europeus em Pequim escreveram a pedir cooperação em tempos de coronavírus. O Ministério dos Negócios Estrangeiros da China não tem problemas com a mensagem de cooperação, desde que não se mencione que o coronavírus foi primeiramente identificado em território chinês.

Embaixada da China em Berlim, 11-12-2017, foto: Sean Gallup/Getty Images

O jornal em língua inglesa publicado pelo Estado chinês, o “China Daily”, censurou um artigo de opinião que os 27 embaixadores da União Europeia estabelecidos em Pequim tinha decidido publicar para defender uma cooperação ainda mais próxima entre o bloco europeu e a China. O artigo referia que o novo coronavírus tinha sido identificado no país, o que não agradou ao Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, segundo escreve o “South China Morning Post”.

Num primeiro momento foi esta a razão que impediu a sua publicação. Em causa estava a seguinte passagem: “(...) mas o início da pandemia na China, e a sua subsequente propagação para o resto do mundo nos últimos três meses, acabou por resultar num adiamento temporário dos nossos planos anteriores”.

O que aconteceu foi que a UE decidiu autorizar o “China Daily” a imprimir uma versão em inglês sem esta parte, enquanto a China, ao contrário do que tinha prometido, não publicou qualquer versão em mandarim.

"A delegação da UE na China foi informada de que a publicação só poderia ocorrer com o acordo do Ministério das Relações Exteriores da China", disse Virginie Battu-Henriksson, porta-voz da UE sobre assuntos externos. “A delegação da UE na China mostrou a sua oposição a esta posição em termos bem claros, tanto quanto ao processo [da publicação do artigo] quanto ao pedido de remoção de parte de uma frase relacionada com a origem e disseminação do coronavírus”, acrescentou a porta-voz.

Os diplomatas da UE decidiram prosseguir com a publicação "com considerável relutância", disse ainda Battu-Henriksson, para que o artigo, intitulado "Laços UE-China são vitais para fazer frente à crise global", pudesse coincidir com o 45º aniversário das relações diplomáticas entre a UE e a China.

Ao jornal POLITICO, na sua versão europeia, uma outra fonte disse que “a carta não podia ser publicada sem a autorização do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês”. Tanto que não foi - ou melhor, só o foi depois de uma parte ter sido cortada. Mas a história não fica por aqui. O mesmo periódico escreve esta quinta-feira que nem todas as 27 embaixadas presentes em Pequim foram avisadas de que o texto tinha sido modificado. Entretanto, alguns pesos-pesados da UE - Itália, França e Alemanha até agora - publicaram a versão original da carta, o que a UE não fez, tendo aliás difundido nas redes sociais a versão preferida do Politburo do Partido Comunista chinês.

A carta continua a não referir especificamente os atropelos contra os Direitos Humanos que continuam a ser notícia: os campos de internamento e “reeducação” de pessoas da minoria muçulmana uigur, o desaparecimento de jornalistas, ativistas e até médicos que denunciam práticas questionáveis do regime, bem como a violência contra Hong Kong, são algumas das omissões mais flagrantes.

Sem surpresas, os 27 pedem o investimento em tecnologias verdes, o alívio da dívida para os países pobres e a finalização de um acordo de investimento para combater a crise. O ‘timing’ é mais significativo do que as palavras em si, já que a notícia deste percalço chega um dia depois de a China ter dito que não vai deixar entrar em Wuhan, a cidade chinesa onde o novo coronavírus foi pela primeira vez identificado, uma delegação internacional para investigar a origem da pandemia.

O embaixador chinês para as Nações Unidas, Chen Xu, disse na quarta-feira, numa conferência de imprensa em Genebra, que a China não convidaria qualquer equipa de investigadores “até a vitória final” sobre o coronavírus estar consolidada, escreve o “South China Morning Post”.
Título e Texto: Ana França, Expresso, 7-5-2020, 11h50

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