domingo, 29 de janeiro de 2017

[Língua Portuguesa] Metáfora e Metonímia

A metáfora consiste no emprego de palavras ou expressões convencionalmente identificadas com um dado domínio de conhecimento para verbalizar experiências conceptuais de outro domínio. Consideremos a expressão uma explosão de alegria. Usa-se aí uma metáfora típica. O usuário fala de um sentimento – alegria – mas para dizer o quanto ele é intenso e repentino, recorre a outro domínio de conhecimento – o da reação de matérias sujeitas à combustão, de onde traz a matéria-prima de sua metáfora: explosão.

A metáfora é um recurso de expressão amplamente usado no discurso cotidiano, por mais que seja tradicionalmente tratado como característico da linguagem da poesia. Os exemplos da linguagem corrente lembrados na seção anterior – colher resultados, ruminar pensamentos, quebrar o silêncio – são tipicamente metafóricos, haja vista a ocorrência desses mesmos verbos em O lavrador colheu abacaxis, As vacas ruminam o alimento, Quebre esse coco para mim. Por sua vez, substantivos, verbos e adjetivos basicamente relacionados ao universo animal são correntemente transferidos – por força do processo metafórico – para o universo dos seres humanos, suas características e atitudes: Esses políticos são velhas raposas, Aquela lesma levou duas horas para escrever um simples bilhete, Irritado o motorista rosnou um palavrão, Aplicou no paciente uma dose cavalar de antibiótico.

O que se passa, contudo, com a lexicalização de conceitos conhecida como metonímia? Imaginemos que alguém pergunte ao porteiro do prédio onde mora: Seu Antônio, o correio já veio hoje? Claro que a pessoa quer saber se a correspondência já tinha sido entregue naquele dia. Ela sabe que o entregador de correspondência no domicílio do destinatário, se chama carteiro, mas ao referir-se a ele designa-o com a palavra referente à instituição pública que presta o serviço. Correio e carteiro pertencem ao mesmo domínio conceptual: serviço de mensagens postais.

O uso do termo que designa o primeiro – correio – para identificar o segundo – carteiro baseia-se na proximidade ou contiguidade – e não uma semelhança – conceitual entre os dois. Trata-se de um típico exemplo de metonímia. Enquanto a metáfora requer a associação de dois domínios inteiros distintos, a metonímia opera a associação entre elementos do mesmo domínio. Outros exemplos: Após a festa, guardou os cristais de novo na caixa, O Brasil é pentacampeão de futebol, Bota aí outra dose de purinha. Cristais designa copos, taças e cálices feitos de cristal, Brasil nomeia o time de futebol que representa o Brasil; purinha rotula a bebida (= cachaça) por meio de uma das suas qualidades. 
Texto: José Carlos de Azeredo, Gramática Houaiss da Língua Portuguesa

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