segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

[Para que servem as borboletas?] Pêsames, regozijo e hipocrisia...

Valdemar Habitzreuter

Era uma vez um dedicado velhinho viúvo a fazer suas tarefas diárias sempre acompanhado de seu fiel cão Fellow. Por onde caminhasse lá estava Fellow feliz ao seu lado; era protetor e ficava atento a qualquer sinal de seu dono para uma eventual situação de perigo, ou mesmo apenas entreolhando-se, demonstrando afabilidade mútua.

A vida transcorria rotineiramente satisfatória, mas um dia o velhinho viúvo não acordou mais na hora costumeira. Fellow deitava-se à noite num canto do cômodo numa posição estratégica donde podia observar seu dono. A qualquer movimento na cama Fellow abria seus olhos brilhantes e emitia seu grunhido característico, sinalizando de que estava aí. E quando o velhinho acordava, lá ia ele correndo e o saudava balançando a cauda.

Naquela manhã o velhinho não dava sinal de acordar. Depois de certo tempo, Fellow aproximou-se da cama emitindo grunhidos, lambendo e tocando seu dono com o focinho, mas nada de ele acordar. Deitou-se ao seu lado e ficou assim por um tempo considerável como que sentindo que algo acontecera a seu dono; começou a ficar irrequieto e saltou então da cama e foi à vizinhança emitindo latidos estranhos e chamativos até que alguém fosse ver o que se passava...

Temos aí um dado interessante sobre a irracionalidade canina que nada sabe sobre a morte. O cão sente simplesmente a ausência de seu dono e fica no aguardo de sua volta. O pesar e a tristeza que sente não é pela morte, mas pela espera de sua volta. Quem já não assistiu a algum filme em que cães, marcadamente afetados de pesar, faziam vigílias diárias nos túmulos de seus donos?... Esperam sua volta.


Pois é, entre nós humanos também existe este profundo pesar quando perdemos um ente querido. Mas a racionalidade humana entende a morte como sem volta da pessoa que se foi. Assim, a morte do juiz Teori Zawascki foi alvo de grande pesar não só dos familiares próximos, mas de grande parcela da população pelo que representava junto ao STF como relator das delações da Lava-jato.

Não mais é possível contar integralmente com o trabalho detalhado a que o juiz se dedicou há dois anos para relatar os meandros da criminalidade que a Lava-jato descobriu, envolvendo inúmeros políticos. O consequente atraso trará agora muita reviravolta nas investigações que postergará condenações ou mesmo deixará impune muitos políticos e empreiteiros criminosos. E isso é de grande regozijo desse pessoal. Deles não se espera nenhum sentimento de pesar, mas de regozijo; inclusive aventou-se a possibilidade de atentado (hipótese improcedente, ao meu ver) ao juiz, já que muitos tinham certeza de suas condenações.

Portanto, a racionalidade tanto se presta a consternar-se de pesar por alguém que morreu como também encher-se de regozijo. Muitos políticos criminosos devem, sem dúvida, estar festejando a morte do juiz, embora a maioria tenha externado seus pêsames, mas no fundo nada mais que pura hipocrisia. Qual o sentido da nota de pesar do Lula que definiu outrora o STF um antro de juízes acovardados? Ou de Renan qualificando determinado juiz de “juizeco”... A irracionalidade canina é superior à racionalidade desses hipócritas criminosos em se tratando de sentimentos de pesar...
Título e Texto: Valdemar Habitzreuter, 22-1-2017

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