sexta-feira, 9 de agosto de 2019

[Aparecido rasga o verbo] Fatalidade

Aparecido Raimundo de Souza

Para meu pai, Roberto Raymundo de Souza, com saudades eternas e imorredouras.

PAPAI MORREU!...
Recebi a notícia assim como quem leva, de repente, uma bofetada forte bem no meio do rosto. Desatei chorar. Naquele momento amargo e cruciante foi só o que pude fazer. Chorar. Não pensei em mamãe que ficara sozinha e desamparada. Tampouco me lembrei das quatro irmãzinhas que, como eu, seguiríamos desservidos e sem o físico marcante e constante do brother querido. Talvez, por esse gesto bobo, tenha sido um egoísta. Visei unicamente o meu lado pessoal, meu bem-estar. Achei que chorando, derramando lágrimas, alguém viria correndo em socorro à minha prostração.

No entanto, nada aconteceu. Os olhos ficaram vermelhos, os soluços se tornaram fortes, a convulsão de batidas aceleradas aumentou dentro do coração frangalhado. Todas essas coisas contribuíram somente para engrandecer sobejamente a dor aguda do sepulcral cavernoso que se fez dentro do meu peito, notadamente logo depois que o caixão baixou à sepultura... Meu Deus, por quê? Por que papai morreu?!

Esse homem que partiu de nossa casa sempre deu tudo de si para ser uma criatura íntegra, totalmente probo, irrepreensível na sua conduta, responsável, imparcial, justo, cumpridor de seus deveres, não só como homem, mas como chefe de família. Não tinha boca para nada, o coitado! Nos piores momentos (quando a vida jogava as armadilhas, ou precisava atravessar dias, às vezes semanas de intensos apertos), ele se constituía em nosso amigo de verdade. O braço forte. O porto seguro. O chão firme.

Também o sol, a estrela, o amanhã! Não demostrava, hora nenhuma, ter perdido a calma, a serenidade, o bom senso. Em seu semblante meio que envelhecido, com algumas rugas querendo aflorar, havia aquela calma infinita, perdurava o equilíbrio e o espírito de compreensão, houvesse o que houvesse. Papai gostava de conversar e o fazia animadamente com a gente, na hora do almoço ou do jantar ao redor da mesa. Contava sua vida lá fora, falava dos amigos, do chefe que pegava no pé. Esmiuçava, em pormenores, como havia sido seu dia, seus negócios. Ria num folguedo franco, alegre, cativante e desprendido.

Sabe, meu Deus, eu particularmente, aqui dentro da alma, tinha papai no conceito de uma criatura que, além de camarada, se fazia mais que um amigo para todas as horas. Diria que ele se assemelhava a uma espécie de farol aceso em meu mar imenso de frustrações. Uma esperança viva e pulsante ao alcance das mãos no meu oceano proceloso, aonde ondas solitárias e fortes vinham com tudo, tentando rebentar meu pequeno barco, me atirando contra os rochedos de uma ilha deserta e cheia de criaturas bizarras. Essas criaturas bizarras (entendo agora) não outras senão meus medos e receios de enfrentar o porvindouro que se estendia à frente de meu nariz.

Papai se transformara na luz da esperança aclarando os caminhos a serem seguidos depois que passava a tempestade. Com ele passei os melhores momentos de minha vida. Éramos uma espécie rara de fotografia em preto e branco. Quem olhasse para nós, veria enormes contrastes, além de notar a diferença do papel usado pelo revelador da película. Contudo, apesar dessa disparidade de vivência, de convivências e de idade, vivíamos um só instante, num mesmo canto da felicidade, que por sua vez embalava nossos sentimentos no mesmo norte a ser seguido.

Papai nascera e se criara criatura humilde. Foi durante toda a sua jornada neste plano, um homem sem pretensões de ser famoso, de aparecer, ou de se tornar alguém destacado na vida pública. Jamais criou celeumas para chamar a atenção das coisas à sua volta. Morreu tranquilo, sem perder essas qualidades. Com toda convicção, essas coisinhas simples certamente o que mais admirava nele. Além, claro, da sua simplicidade, da sua candura de ser ele mesmo, sem se mostrar altivo, dominador, ou maior que todos ao mundo, ou às pessoas que o cercavam. “O homem sábio meu filho – dizia com firmeza – anda sempre de cabeça baixa, humilde como o pó”. E agora, pasmo, boquiaberto, me pergunto, me questiono, me digladio: daqui para frente, meu Deus, a quem indagar as minhas duvidas? Quem esclarecerá as minhas interrogações?

Papai morreu!...
De varão, agora, só restou eu na família. Toda a responsabilidade desse lar sobrecairá nas minhas costas. Precisarei ser forte. Terei que levar o barco à frente. Enfrentar as águas tempestuosas e turbulentas, sem, no entanto, soçobrar no redemoinho obscuro da suprema derrota.

Papai morreu!...
Cedo ou tarde, iríamos ser acometidos, de supetão, pelo sobressalto da Senhora da Foice, que chegaria (como de fato chegou), sem dar sinais e nos deixaria a todos, perdidos como cego em meio de um tiroteio, dentro dessa desumana e inevitável adversidade. E esse dia chegou muito cedo para mim. O tormento da morte, talvez seja o maior de todos, em face da sua chegada abrupta, ainda que pensemos estar prontos e preparados para aceitá-lo numa boa.  

Não estava psicologicamente conformado para suportar o peso do fardo. O que sei de palpável, é que nunca mais teremos à mesa, aquela figura bondosa e estimada de papai. Sua voz áspera e rígida não ecoará pelos cantos da sala vazia. Nem chamará a atenção de Luzia. Quem vai ralhar com a Driele? Na varanda que dá para a rua, a rede armada permanecerá estática e, na hora do telejornal e da novela, o lugar dele, na poltrona, não será preenchido por ninguém. Oco e estéril estará o “eu” de cada um de nós, frutos desse benfeitor bacana que o ingrato e prematuro passamento ceifou, sem dó nem piedade, do seio de nosso tronco genealógico.

Papai morreu!...
E agora, mamãe? A senhora terá que lavar roupas para fora. Eliza necessitará suspender a escola de informática. Mônica, por sua vez, as aulas de piano, com dona Dirce, professora do conservatório. Quanto a mim, terei de me desdobrar. Fazer o possível e o impossível, dar nó em pingo d’água, me virar nos trinta, para não deixar a fome, o frio e o desespero virem residir em nosso lar.

Papai morreu!...
A sua lembrança, entretanto, ficará eternamente em nossos corações, em nossas memórias. Eu, mamãe, Luzia, Driele, Eliza e Mônica, em tempo algum nos esqueceremos das suas virtudes, das suas abdicações e equilíbrio. Percebo, agora, não ter sido egoísta ao chorar. Quando a assistente social do hospital me participou da notícia, uma espécie de tremura tomou conta de todo o meu corpo. Por um momento me vi só, desprovido de segurança para suportar a barra, sendo consumido, em paralelo, pelo receio de não ter feito tudo o que deveria.

Por essa razão, naquele instante do comunicado, pelo telefone, a mim me pareceu estar preso à morbidez de um buraco enorme que se formou ao meu redor. As lágrimas foram, pois, inevitáveis. Mas valeram bastante para o espírito se tornar mais forte e capacitado. Acudiram, no momento propício, porque agiram em mim como uma válvula de escape. No fundo me desabafei completamente. Nada melhor que o pranto sentido e sincero, para realizar, a contento, a difícil e árdua tarefa de desaglomerar a confusão da cabeça e apaziguar a mistura de ideias embaralhadas que se formam e que parecem querer nos engolir para dentro de um espaço que até então nunca me acorrera à cachola, tivesse estado antes.

Meu pai querido e amado descanse na Santa Paz merecida e perfeita de Nosso Senhor Jesus Cristo. Daí de onde você está agora clame ao Misericordioso, por todos nós que aqui ficamos acorrentados e algemados à incompletude melancólica de sua saudade. Proteja os meus passos.  Cuida de todos nós em particular. Necessário se faz você bem sabe levar adiante o seu trabalho sem ser interrompido um dia sequer. Invoco, em razão disso, meu velho, em nome de Luzia, de Driele, de Eliza e Mônica, a sua benção. E não se esqueça de mandar, claro, um beijo bem gostoso e romântico para mamãe.             
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Curitiba no Paraná, 9-8-2019

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