sexta-feira, 23 de agosto de 2019

[Aparecido rasga o verbo] Sem noção

Aparecido Raimundo de Souza

BIDÓIA DE OLIVEIRA, assim que se vê dentro do consultório de seu médico e após o especialista ter olhado toda a bateria de exames que ele mandara fazer pergunta:
- E aí, meu caro doutor. Acha que tenho alguma chance de viver, pelos menos até os cem anos? Estou com setenta e oito...  Qual é o seu diagnóstico?
O clínico levanta os olhos do caderno com os resultados de Bidóia e questiona, antes de dar a palavra final:
- Seu Bidóia, o senhor fuma?

O paciente balança a cabeça negativamente.
- Como o senhor está vendo aí, nunca pus cigarro na boca. Odeio. A fumaça me irrita, sobremaneira me aperreia os olhos.
- Bebe?
- Só água.
- Nunca ingeriu um golinho de cerveja?
- Nem pensar...
- Um vinhozinho bem gelado?

- Desde que me entendo por gente. Aliás, detesto vinho.
- Se nunca bebeu seu Bidóia, como pode abominar algo jamais provado?
- Sabe o que é? O cheiro da garrafa me faz mal. À rolha, meu caro doutor, a rolha, então... 
- Não sei o que essas duas coisas têm a ver com o que argui.  A sua alimentação?
- O que tem ela?
- Come carne branca, vermelha?
- Só humana...
- Não entendi. Acaso tenho um paciente canibal?

Bidóia ensaia um meio sorriso a essa observação. Em tom baixo, de forma que só o interlocutor ouça o que esclarecerá, manda bala:
- Carne de mijo. Amo de paixão uma “piriquita”.
- Tem namorada, seu Bidóia?
- Não.
- E como faz quando quer se aliviar do estresse se não dispõe de um cobertor de orelha?
- Parto para o cinco contra um... Diante de uma fotografia dessas jovens que se deixam clicar sem vestimentas.

- Não vejo graça nisso. Seu Bidóia, entenda. Nada como uma danadinha ao vivo e a cores. Aliás, nesse mundo conturbado, coisa alguma que o senhor possa imaginar substitui uma fêmea fogosa na cama. Faço referência, logicamente, aquela bem safada, que deixa a gente ouvindo hinos celestiais sem ter um aparelho de som ligado por perto.
- Qual o quê! Mulher dá trabalho, doutor. É chata, pegajosa, começa a exigir coisas, dinheiro, compra isso, compra aquilo, paga isso, paga aquilo... Sem falar que se a gente garrar a “amaciar” todo dia, acaba engravidando.

- Faz parte, meu amigo. É a vida. Existe preservativo. Use. Dessa forma segura, não terá como arranjar uma barriga indesejada, ou doença que o leve mais cedo para a cidade dos pés juntos.
- Pode até ser. Mas estou fora. Prefiro, de fato, um cinco contra um. Quanto ao preservativo, tentei. Porém, não aprovei. Nem ele!
- O senhor usou preservativo e não aprovou? Nem ele? Ele quem?!

- O “Juquinha”, doutor. “Juquinha” é o meu brinquedo. O senhor sabe a que me refiro.  Coloquei preservativo uma ou duas vezes. Um fiasco. “Juquinha” pensou que fosse toca e na hora do vamos ver, virou para o canto e dormiu. Não só isso. Roncou e babou. Desde então, me abstive definitivamente de desejar, como o senhor disse, um cobertor de orelha.
- Tudo bem. Cada um usa o seu livre arbítrio para fazer e agir da forma que melhor lhe convier. Para entender melhor a sua pessoa, devo esclarecer que o senhor está se contradizendo.

O galeno faz uma pequena pausa e continua:
- Perguntei se come carne vermelha, ou carne branca e o senhor me asseverou que só “come carne humana”. “Adora uma carne de mijo, grosso modo, uma piriquita”. Ora bolas. Como pode amar “carne de mijo” ou uma “piriquita”, se faz uso contínuo da masturbação? Seu Bidóia, preste atenção. Quem se presta a prática constante do que chamamos de onanismo, não tem como amar uma “carne de mijo”. Menos ainda uma “piriquita”. 

O asclépio volta a correr os olhos nos exames e segue com as ponderações:
- Temos aqui uma contradita na sua forma mais clara e clinicamente funesta para a sua saúde.
- Como assim funesta?  O que venha ser esse tal de onanismo?
- Onanismo, seu Bidóia é a punheta mecânica. Aquela realizada com o auxílio de nossas próprias mãos.  Há, nesse ato, um desgaste muito grande de forças, e tensões. O sangue se agita, o coração acelera, seu metabolismo todo entra numa espécie de instigação precipitada. Em contrário, se a peleja for com a ajuda de uma dadivosa, a coisa muda totalmente de figura.

O clínico segue explanando com palavras simples de modo a se fazer entender:
- O belo sexo seu Bidóia é considerado o extremo gozo.  A mulher nos completa nos preenche, nos lapida. Portanto, me desculpe, repetindo, o senhor não ama “uma carne de mijo”. Nem a tal “piriquita”. Aos caprichos de fotografias de revistas de nuas e peladas seu desgaste fisíco e emocional pode levá-lo a um piripaque momentâneo. Cuidado.
- Nesse ponto o senhor tem toda razão. Vou rever meus conceitos quanto ao que acabou de dizer. 

- Reflita e mude seus hábitos. Vamos em frente. O senhor joga?
- Não.
- Dirige em alta velocidade?
- Não.
- Sai pra dançar, se divertir com os amigos? Acaso vai a um barzinho, restaurante, ou parque de diversões?
- Doutor... Sou do tempo em que se apregoava: “antes só que mal acompanhado”. Hoje em dia, com geladeira beijando botija de gás...

O terapeuta sorri a essa tirada engraçada:
- Não vai a um shopping, a um cinema?
- Não.
- Meu Deus. Passeia, faz viagens, pratica esportes?
- Tudo isso ai é dinheiro gasto à toa, doutor. Desperdício. Na minha idade, preciso pensar no amanhã.
O medicinal num gesto com a mão interrompe momentaneamente o papo. Liga o interfone e pede à secretária que traga duas xícaras de café. Bidóia se levanta apressado e grita:
- Dispenso doutor. Café faz mal.

Assim que a secretária insinuante sai de cena, o homem do estetoscópio interpela, desta vez um pouco mais sério:
- Seu Bidóia que mal pergunte. O senhor não bebe, não joga, não sai com mulheres, vive descascando banana, não come carne, não fuma não se diverte, não vai a um cinema... Sequer bateu os olhos na minha esfuziante assistente... Percebeu que monumento extraordinário eu tenho aqui dentro ao alcance das mãos?
- Aonde o doutor quer chegar?

- Em verdade, a uma perguntinha boba, contudo, básica para encerrarmos nossa conversa. Meu caro senhor Bidóia, a sua saúde clinicamente está excelente. Sua bateria de exames revela que o senhor está sadio. Goza de boa saúde. Diria que se assemelha a um menino de deze ou treze anos. Um detalhezinho apenas me põe a pulga atrás da orelha:
- Diga doutor. Pode ser franco.
- Seu Bidóia é o seguinte: o senhor não faz nada de bom, de útil ou de aproveitável. Algo que possa dizer para si mesmo, de frente para um espelho: “nossa, sou um sujeito feliz. Estou de boa comigo e com a vida...”.
 – Continuo boiando, doutor...
- O senhor não se utiliza de nada que o dia a dia lhe oferece benfazejamente... E o melhor de tudo, de graça. Diante disso perquiro querendo entender. Juro, meu intuito é somente esse. Entender. Meu amado senhor Bidóia. Se não faz nada do que chamamos de vida normal por que viver até os cem anos?
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, no Espírito Santo. 22-8-2019

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“Muquifo”

Um comentário:

  1. MUITOS DE NÓS PENSIONISTAS DO AERUS, MATAMOS UM RATO POR DIA DURANTE 5 OU MAIS ANOS.
    A partir de 2006, eu por exemplo, não podia ir ao cinema, ao shopping, a um restaurante, comprar carnes nobres, sequer dinheiro para coletivos nos finais de mês.
    Pagava a luz e a água alternadamente com 2 meses de atraso.
    Sem comprar roupas, sapatos e cortava os cabelos em casa.
    Perdia um dente a cada ano.
    Como beijar uma boca com dentes faltando ou apodrecendo?
    Omo era artigo de luxo.
    Papel higiênico tipo lixa, afinal a parte mais forte do corpo humano é o CU, a pele vive cagada e não adoece. CU não tem hemorroida, esta dá internamente no ânus.
    Meu filho nunca estudou em escola pública, não podia pedir FIES ou outras merdas, e a faculdade foi para o espaço.
    Comíamos feijão, arroz e ovo, por vezes um frango ou batatas fritas.
    Salada nem pensar, uma vez por mês de uma pequena horta.
    Sexo é bom, mas não é VIDA.
    Vida normal não é SEXO.
    Por vezes pensando com meus gargomilhos, realmente PUTA e AMANTE são mais baratas que ESPOSA.
    Quando solteiro, frequentei o baixo meretrício de muitos lugares:
    Cais Sodré, Barcelona, Miami e até em Los Angeles havia, nos bairros mexicanos.
    No Rio, na rua Alice, no Barbarella, LE BATEAU, Galeria Alaske e Alfredão.
    Em São Paulo, Brasília, e nos famoso LÁ HOJE, DE BELÉM E MANAUS.
    Em Porto Alegre na Mônica, na Sônia, no Madrigal, Amarelinho, Gruta Azul e Minato.
    Em Belo Horizonte, na praia do Futuro e no Pina..
    Quando casei em 1983 eu morri pelo seu texto.
    Nunca cometi infidelidade.
    Então estou morto e enterrado há 36 anos.
    Detesto papo de bar, onde os ditos machos discutem veril mente sobre futebol e suas fodas.
    O mínimo é 4 fodas na fulana e na beltrana, coisa que urologista chama de mentiroso.
    Aliás eu penso que quando um cara tem várias parceiras ele não é super macho, é MAL FODEDOR.
    Cansei de papo de bêbado.
    Conheci caras que injetavam papaverina para ter o membro duro por horas.
    Um deles teve priapismo, teve que colocar prótese.
    Outro usando viagra teve 5 paradas cardíacas. Teve que trocar válvula Mitral, teve outras 17, era meu tio.
    VIDA NORMAL É FILOSOFIA.
    O RESTO TODO É OPÇÕES IDEOLÓGICAS.
    PREFIRO FICA BROCHA ANTES DE MORRER, DO QUE MORRER ANTES DE FICAR BROCHA.
    Bom Dia e como sempre FUI;;;

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