domingo, 11 de agosto de 2019

[As danações de Carina] Mensagem de uma embalagem de padaria

Carina Bratt

Dias atrás, em visita à casa do Eliseu, um amigo meu que se acidentara com a sua moto, passei, antes na padaria do bairro para comprar uns pães, leite, queijo e mortadela. Claudia, a mulher, igualmente minha amiga, me dissera que estavam à espera, com um cafezinho feito na hora. Pai de três meninas nas idades de oito, nove e dez, achei melhor pôr em prática uma boa ação, tendo em vista que o Eliseu em decorrência do ocorrido tomara um belo pé no meio do traseiro e perdera o emprego. Além disso, andava mais duro que pau de tarado.

Eliseu era motoqueiro e, como tal, entregador de pizzas, fazia bem uns cinco anos. Tinha, contudo umas manias esquisitas de querer se mostrar aos colegas de serviço. E o fazia de uma forma desgraçadamente perigosa. Adorava empinar com a motocicleta, pelas ruas, promovendo um furdunço entre os colegas que, boquiabertos e pasmos, por mais habilidosos que fossem com suas máquinas, não chegavam aos pés do engraçadinho. Eliseu, na hora de se aventurar nessas idiotices sem pé nem cabeça se esquecia da vida, da mulher dos filhos a tal ponto de se transformar num louco desmioladamente desvairado.


Lado outro, com tais manobras, um descuido pequeno que fosse, poderia o doidivanas ficar paralítico para o resto da vida. No pior dos mundos, se meter num paletó de madeira indo parar, de mala e cuia, no cemitério local. Não fora falta de avisos e clamores. Numa dessas, o infeliz caiu como um saco bêbado, com tudo, em plena rodovia, perdendo a moto, se arranhando todo dos pés a cabeça, além de meia dúzia de pedidos que transportava para clientes que ligaram para o estabelecimento procedendo às respectivas solicitações.

Em casa de meu amigo, todos sentados à mesa enorme (menos ele, o Eliseu que tivera que se adaptar a uma cama-maca alugada de hospital, cama esta paga pela mãe e pela sogra em rótulo de vaquinha), atravancada num canto da sala, ao me servir de um pão, deparei, no anverso da embalagem com uma mensagem interessante: “A ESTÁTUA E O AZULEJO DE MÁRMORE”. Achei interessante.  Ipsis litteris, resolvi reproduzir. Dizia o seguinte: Havia um museu, com o piso completamente coberto por belíssimos azulejos de mármore e com uma estátua, também toda trabalhada nesse material.

A colossal ficava exposta à visitação pública exatamente no meio do salão principal, de frente para a entrada. Nos finais de semana pessoas vinham passear e traziam seus filhos para admirarem as obras de arte existentes no complexo, todavia, o que de fato chamava a atenção, sem dúvida alguma, a bonita estátua de mármore. Uma noite, depois de cessada a movimentação, um dos azulejos (o que parecia ser o mandão do pedaço), se aproximou da beldade e começou a falar e não só a falar, a reclamar com a estátua em nome dos demais companheiros de infortúnio:

– Estátua, minha amiga, isso não é justo, não é justo! Por que vem gente de todos os quadrantes dessa cidade e aqui dentro, numa imoralidade pisa e repisa em todos nós, só para admirá-la? Não acho correto!
Ao que a estátua respondeu, sem perder a pose:
– Meu querido amigo azulejo de mármore. Vamos voltar no tempo. Você se lembra de quando estávamos, de fato, na mesma caverna?
– Sim! É por isso que eu acho tudo muito desleal. Nós nascemos no mesmo berço e, agora, recebemos tratamento diferenciado. Não é digno de nossa estirpe! 

– Então, você ainda se recorda do dia em que o artista tentou trabalhar em você – seguiu em frente à intocável, mas seu corpo franzino não resistiu às ferramentas que ele usava?
– Sim, claro que eu me lembro. Eu odiei aquele sujeito! Como ele pode fazer uso daquelas ferramentas em mim? – Doeu muito! Até agora ainda me apoquentam algumas partes de meu pobre esqueleto. 
– Isso é certo! Em vista disso, ele não pode fazer nada em você, porque você resistiu em ser trabalhado.

– Sim, querida estátua. E daí? Aonde quer chegar?
– Em lugar nenhum. O que desejo deixar claro é muito simples. Quando o artista desistiu de você, veio para cima de mim. Ao invés de fugir, eu soube imediatamente que me tornaria algo diferente depois dos esforços daquela criatura. Por essa simples razão eu não debandei. Ao contrário, me dei me doei. Suportei bravamente todas as ferramentas estranhas que ele usou em meus costados. Foi um inferno, um Deus nos acuda, mas não me fiz de rogada...
– Mmmmm… – Resmungou o azulejo.

– Meu caro amigo azulejo, entenda. A coisa é simples. Há um preço para tudo na vida. E nem sempre é fácil ou justo esse valor. Às vezes é muito penoso e doloroso –, seguiu conjecturando a estátua de cima de seu suporte. – Mas temos que aprender a aguentar os sofrimentos, procurando crescer para nos transformarmos em algo mais delicado, mais belo e formoso. Uma vez que você jogou a toalha desistindo de tudo no meio do caminho, acredite piamente, você não pode culpar, jamais, as pessoas que passam por cima de você. Elas não têm culpa. Naquela ocasião, você se alienou a essa condição de coitadinho, quando bem poderia ter sido transformado em alguma coisa mais edificante aos olhos de todos que por aqui se aconchegam.

Moral da história
Na vida, passamos por sofrimentos e provações para crescermos e nos tornarmos testemunhas vivas da ação de Deus. Para que isso aconteça é necessário lançarmos fora o medo e deixarmos que Jesus nos molde conforme a Sua vontade. Ele quer fazer de nós, ou melhor, de você, em particular, uma bela obra prima, uma obra em que deixe a vida de todos exposta a grandiosidade do Seu Amor.

OBS: A embalagem (dos pães) da qual reproduzi esta cópia, não trazia o nome do autor. Caso os meus caríssimos leitores se deparem com seu criador, por favor, solicito que me informem imediatamente. Quanto ao meu amigo Eliseu, está se recuperando num processo lento e bastante penoso. Sobrevivendo com doações de parentes e amigos. Os médicos que o assistem informaram que logo ele voltará a caminhar normalmente, podendo, pois, dentro de mais uns três meses, regressar às normalidades do cotidiano.

Entretanto, atentada, de chofre, numa dessas visitas, não resisti e mandei bala:
– E quanto à moto?  Pretende adquirir outra, ou mandará arrumar a antiga?  Eliseu me respondeu, meio que brabo e enfezado:
– Cara, esse tipo de transporte, NUNCA MAIS!
Título e Texto: Carina Bratt, de Curitiba, no Paraná. 11-8-2019

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