terça-feira, 26 de maio de 2020

[Aparecido rasga o verbo] Não havia esperança, só talvez...

Aparecido Raimundo de Souza

ELA, MENINA INOCENTE, CRIANÇA DE ALMA PURA, pensava sempre em alguma coisa distante. Imaginava, na inocência dos cinco anos, vislumbres além das suas possibilidades de compreensão. Matutava. E enquanto refletia com seus botões, espiava o horizonte. Bisbilhotava compridamente tudo o que se descortinava diante de seus olhos. Pressentia existir, lá longe, um horizonte incerto, tão estranho  e esquisito, como o dia seguinte que ainda estava pôr vir. Porém, não desistia, não entregava os pontos. Ela, menina inocente, criança de alma pura, nunca deixava o seu eterno sonhar para depois. Tampouco permitia que um rol de coisas insignificantes ofuscasse o “écran” de seus objetivos mais primordiais 

Por isto, o tempo todo viajava acordada. Neste torvelinho, quimerava, os sentidos abertos, e, por vezes, delirava... Alucinava todas as suas forças em ilusões momentâneas e dispersas,  entretanto, fazia  tudo com os pés no chão de terra solta. Na tela mágica do seu encantamento, fantasiava seu agora correndo por ruas e avenidas empoeiradas em busca do nada. Vagueava dentro desse nada, como em nada se consubstanciava todo o orbe da sua vida. Seus dias, um mar de sofrimentos sem limites,  seu futuro um mundo longinquo e retirado, se descortinando sem perspectivas...  Seu agora, sem agora, sem um quem sabe...  Ela, contudo, se  mantinha firme imbatível. Não desistia.

Seguia em frente, apesar dos percalços, das tragédias cotidianas, dos desencontros de todas as horas que se arvoravam em bárbaros verdugos. Caminhava ao léu, num indumento inglório, sem saber o que encontraria à frente, na próxima esquina. Nunca olhava para trás. Isto jamais! Nem mesmo quando o destino lhe chamava através do vento, ou no suave cantarolar de um pássaro pousado em seu derredor. Ela vivia um mundo só seu, um espaço cheio de ilusões criadas pela solidão que habitava seu interior e, de vez em sempre, emergia com todas as catástrofes, como se tivesse, por missão, coloca-la à pique. Orgulhosa e convícta,  a princesinha não entregava os pontos, não abria a guarda.

Ao contrário, buscava em cada um desses contratempos, uma satisfação pessoal, que se transformava numa magia inebriante, um sortilégio que lhe mantinha viva e, sobretudo, mais robustecida para seguir na busca do ideal. O coração pulsava a mil por hora. O sangue lançava escopros e se dilatava dentro das veias, como água morro abaixo. Ela não se parecia com as demais crianças da sua idade. A diferença se destacava na vivência, sobressaia no modo como colocava as coisas na cabeça. Sua visão do amanhã, não ia além de um amontoado de pensamentos embaralhados, difusos, confusos.  Contudo, essas utopias explodiam como se formassem massas  enormes de infusórios e polipeiros;  sempre em busca de um porto novo; como se aquém, vislumbrasse, lá do outro lado do não sei onde, um cais seguro.

Um dia, a menina inocente se tornou adulta, se emancipou numa metamorfose visceral, a ponto de tender a uma elegância imensuravel. Cresceu a criança em tamanho, em beleza e encantamento.  Aquele rostinho de bonequinha, se fez  linda mulher. Senhora de corpo divinal. De sofrida, de padecida e expiada, ela  se transformou, entrementes, numa espécie de “tempo presente”. E dentro desse tempo, virou deusa. Ficou intocável, se trancou fechada, porém, senhora de si. Dona de seus segredos e medos, esperanças e desgraças, caminhos e dissabores. Sem perder a pose, o riso, o viço, a beleza, a ternura, a naturalidade.  A menina criança se abriu, inteira em flor.

Sobressaiu entre as demais do imenso jardim e seguiu adiante. Partiu radiosa, firme, forte, dona de si, confiante, e, nunca, em nenhum momento, nunca se deixou levar pelas fatalidades.  Hoje, tantos anos passados, tantas noites e dias, esta criança é uma moça de olhos de esperança. É estrela brilhando no infinito. É leveza, é presença pujante dos avatares do Criador. Qualquer um de nós, pode vê-la, contemplá-la, senti-la onde o azul é sempre azul e se faz eternamente bucólico E o sol, igualmente enamorado, deixa crescer dentro de seu núcleo, o amor desvelado e compassivo, e para todo sempre, se mostra mavioso e resplandescente, com seus raios dardejando milhões e milhões de cálidas e eternas F E L I C I D A D E S.    
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha,  Espírito Santo. 26-5-2020

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