domingo, 26 de fevereiro de 2012

Contos do patrioteirismo tardio

Nuno Rogeiro
Já vimos isto. Quando dá jeito, tiram-se do armário a bandeira nacional, os desfiles, os “oitocentos anos” de história e os egrégios avós. Pede-se à massa que marche contra os canhões (antes os ingleses do hino, agora os alemães da sina), fala-se do “orgulho nacional” e os mais românticos trovejam alguns poemas.
O patrioteirismo de ocasião, sazonal, oportunista é uma espécie de versão política dos condutores de domingo, ou de tradução “ideológica” dos treinadores de bancada.
A “crise europeia” é uma ótima oportunidade para esta espécie, assim como as estradas portuguesas se enchem de trânsito em direção ao mar, sempre que o sol desponta das nuvens frias, e é fim-de-semana, ou o carnaval do costume.
Alguns pais da Pátria, entre a tomada de fôlego para cada trombetada verde-rubra, deviam explicar o que andaram a fazer até aqui. Quando a dita foi sendo vendida a retalho aos imperialismos, aos fundos estrangeiros, aos agiotas que nos sobrevoaram nas últimas décadas, os patriarcas indignados de hoje não só não protestaram, como conduziram o leilão. A venda em hasta privada (e sem concurso) de Portugal, rumo a um “casino monstro e um bordel europeu”, radioso destino previsto por Junqueiro, consumou-se tantas vezes pelas mão dos hoje patriotas de altar e terço (profanos), que é difícil resumir-lhe a conta, num texto pequeno.
Destruíram a indústria em nome dos serviços, trocaram a agricultura pelos subsídios, a pesca pelas barracas de praia, a investigação científica pela celebridade mediática, o rigor universitário e o ensino pela “sensibilidade”, a criação pela imitação, o trabalho pelo emprego, a produção pela importação, a qualidade pelas quantidades, as ideias pela propaganda, a justiça social pela lei do mais forte, a meritocracia pela partidocracia.

Encheram o Estado de contingentes de servos e clientes, agravaram os fossos entre naturais e imigrantes, ricos e pobres, jovens e idosos, interior e litoral, cidade e campo. Infiltraram o serviço público com facções e obediências feudais, prometeram tudo a todos (em campanha), gastaram o que não tinham, e sobretudo gastaram demasiado sem proveito social durável, nem reprodução equitativa da riqueza.
Os patrioteiros que hoje dizem rasgar as vestes pela Grécia e que prometem solidariedade a todos os explorados do mundo, aceitaram todas as humilhações, afrontas à independência e limitações à soberania popular.
Muito simplesmente, colocaram-nos onde estamos: entre a miséria e a catástrofe. Quando julgaram certo, “socializaram” sem tino nem moral. Perante a falência do “socialismo”, abriram as portas ao capital mais ganancioso. Acumularam uma pesada herança de dívidas e compromissos, celebrados por conveniência eleitoral e cegueira técnica.
Os patrioteiros tardios são os pais e os antepassados da crise. Ganhavam em não espeernaear tanto e em passar despercebidos.
Título e Texto: Nuno Rogeiro, “Sábado”, nº 408, de 23 a 29-02-2012
Digitação e Edição: JP
Mário Soares, foto: Valter Campanato/ABr, fevereiro de 2003
Mário Soares (da Wikipédia)
A 28 de Abril de 1974, depois da Revolução de 25 de Abril, desembarcou em Lisboa, vindo do exílio em Paris no chamado «Comboio da Liberdade». Foi recebido, entre uma multidão de portugueses.[2] Dois dias depois, esteve presente na chegada a Lisboa de Álvaro Cunhal. Ainda que tivessem ideias políticas diferentes, subiram de braços dados, pela primeira e última vez, as ruas da Baixa Pombalina e a avenida da Liberdade.
Durante o período revolucionário que ficou conhecido como PREC foi o principal líder civil do campo democrático, tendo conduzido o Partido Socialista à vitória nas eleições para a Assembleia Constituinte de 1975.
Foi Ministro dos Negócios Estrangeiros, de Maio de 1974 a Março de 1975, e um dos impulsionadores da independência das colónias portuguesas, tendo sido responsável por parte desse processo.
A partir de Março de 1977 colaborou no processo de adesão de Portugal à CEE, vindo a subscrever, como Primeiro-Ministro, o Tratado de Adesão, em 12 de Julho de 1985.
Foi primeiro-ministro de Portugal nos seguintes períodos:
Presidente da República entre 1986 e 1996 (1º mandato de 10 de Março de 1986 a 1991, 2º mandato de 13 de Janeiro de 1991 a 9 de Março de 1996).
Deputado ao Parlamento Europeu entre 1999 e 2004. Foi candidato a presidente do parlamento, mas perdeu a eleição para Nicole Fontaine, a quem não teve problema em chamar «dona de casa» (no sentido pejorativo do termo).

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